A Formação da
Filosofia Contemporânea
Eliane Colchete
Luis Carlos de
Morais Junior
A Formação da Filosofia Contemporânea
Eliane Marques Colchete
Luis Carlos de Morais Junior
Imagem da capa: Vaso François
Orelha 1
Na transição do século XX ao século XXI ocorre uma
multiplicidade teórica, que talvez fosse melhor captada sem que se tentasse
subsumi-la a um rótulo totalizante.
A desconstrução tornou-se um movimento contemporâneo
importante, em que se verifica a influência de Derrida.
Já a ênfase nas minorias, enfatizada no âmbito
pós-estrutural notadamente com Deleuze e Guattari, conduziu internacionalmente
a várias vertentes.
Nos EUA, surge, no interior das instituições acadêmicas, o
incremento dos estudos culturais e literários de minorias étnicas. A teoria
pós-colonial, em que se destacam Edward Said, Homi Bhabha, na qual se poderia
integrar a contribuição de vários teóricos importantes do terceiro mundo, como
Milton Santos e Eduardo Galeano, procura resgatar a perspectiva cultural dos
povos marcados pela imposição de padrões extrínsecos, na lógica da colonização.
A teoria do “estranho” (Judith Butler, Eve Sedgwick) e a
teoria feminista, que apresenta inúmeras contribuições como as de Elaine
Showalter, Jane Flax, Iris Young, Rose Marie Muraro, Heloneida Studart e Seyla
Benhabib, estudam, respectivamente, o estatuto cultural dos sexualmente
marginalizados e das mulheres.
Esses enfoques minoritários procuram examinar como a
conceituação social do “outro”, objeto de preconceito pelo mero rótulo de ser
“diferente”, se constrói numa relação intrínseca com a formação da noção de
“maioria” determinada pela relação a um conjunto de comportamentos que compõem
a normatividade.
O pensamento contemporâneo oferece uma gama variada de instigantes
aportes teóricos que favorecem práticas sociais libertadoras. Estabelece-se um
“novo imaginário político”, conforme a terminologia de Ernesto Laclau e Chantal
Mouffe.
No lugar de uma confrontação social exclusivamente
determinada pelos pressupostos de classe, as contestações abrangem questões
variadas, como aquelas relativas ao espaço urbano, à ecologia, às formas de
autoridade e de instituições repressoras, às práticas de consumação de
serviços, à burocratização administrativa, tanto quanto o problema da
desigualdade econômica.
Orelha 2
Luis Carlos de Morais Junior e Eliane Marques Colchete são
casados, e escrevem sobre Filosofia, Cultura e Literatura, tendo vários livros
já publicados, individualmente e em dupla.
Contracapa
A Formação da Filosofia
Contemporânea
traz uma interpretação da história da Filosofia desde o seu começo na Grécia
Antiga, até chegar aos dias atuais, mostrando como todos os momentos e assim
também todos os movimentos do pensamento filosófico são importantes para entender
a Filosofia Contemporânea, a qual trabalha com a multiplicidade teórica,
oferecendo uma gama variada de instigantes aportes teóricos, que favorecem
práticas sociais libertadoras, visando a real democratização do pensamento e da
cultura planetária.
Apresentação
Capítulo 1: O problema
da definição do termo “Filosofia”
Capítulo 2: Filosofia e
Conhecimento: desenvolvimento e abrangência
Capítulo 3: A Polis
grega: democracia e filosofia
Capítulo 4: O exercício
da sofística
Capítulo 5: Filosofia e
Verdade
Capítulo 6: Filosofia e
Modernidade: sujeito e consciência
Capítulo 7: História e
Ciências Humanas
Capítulo 8: O Contexto Cultural na Era
Contemporânea
Capítulo 9: O desenvolvimento da Filosofia
Analítica, antecedentes
Capítulo 10: O Pensamento Fenomenológico
Capítulo 11: Da Estrutura ao Pós-Estrutural
Capítulo 12: A transição ao Século XXI
Bibliografia
Apresentação
Em A Formação da
Filosofia Contemporânea serão examinadas as fontes que influenciam
decisivamente o pensamento atual. Seria preciso, inicialmente, indagar sobre a
relação inusitada que vemos se estabelecer entre estes dois qualificativos, o
contemporâneo e o atual, no interior de uma reflexão acerca dos pressupostos
que orientam o nosso percurso.
Não há dúvida de que esses termos são sinônimos. No entanto,
o contexto filosófico parece impor alguma oscilação entre eles.
Sabe-se que, em História geral, entre esses dois termos
verifica-se uma oposição máxima. Ali, a Revolução Francesa, instaurando o
predomínio da burguesia, enuncia com precisão a transformação de época, de modo
que faz sentido pensar em termos de uma “contemporaneidade”, que abrange o
século XIX.
Poderia assim, em filosofia, parecer usual a extensão
histórica do termo, de modo que não ofereceria problemas a ideia de uma conexão
óbvia com a Era Contemporânea.
Todavia, os acontecimentos decisivos aqui são em maior
número. Eles seriam melhor captados, se fosse o caso de escolher algum enfoque
limítrofe, no campo do saber, na proximidade dos estilos literários. Após o
Iluminismo do século XVIII, o Romantismo e o Realismo completam o século XIX,
como momentos irredutíveis do encaminhamento conceitual.
Se os manuais de filosofia geralmente escolhem tratar o
período posterior à Revolução Francesa pela delimitação dos séculos,
consagrando volumes separadamente ao XIX e ao XX, a sinonímia do contemporâneo
e do atual supõe o relativo posicionamento do autor.
O consensual é observar que a filosofia se transforma na
proximidade da sociedade industrial, onde o campo do saber se torna
caracterizado pelo predomínio das ciências. Mas, o que é contemporaneidade,
isso permanece problemático.
François Châtelet, por exemplo, registra a mudança da filosofia no momento em
que a sociedade se transforma e se torna científica e industrial, no século
XIX. Aqui há manifesta irredutibilidade ao período anterior, que se pode
associar à era histórica moderna. Mas ele reserva o epíteto “contemporâneo”
apenas ao conjunto da filosofia do século XX, estendendo, ainda assim, um campo
de observação que abrange várias décadas desde o ponto de vista estrito da
produção da obra coletiva, por ele organizada e intitulada História da Filosofia.
Émile Bréhier é ainda mais ambíguo. Inicialmente, escusa-se pela
necessidade de tratar o período posterior a 1850 de um modo puramente
classificatório, devido à impossibilidade de “escrever uma história do
pensamento contemporâneo”, o que parece subentender que a proximidade dessa
produção conceitual, inteiramente rotulada como contemporânea, impede que dela
se possa fornecer um tratamento mais sistemático.
Porém, Bréhier inclui um artigo especialmente consagrado à
“filosofia contemporânea”, em que o eixo da progressão textual se apoia sobre a
irredutibilidade que o pensamento da época de publicação de sua História da Filosofia, posterior a 1930,
exibe, em relação a premissas geralmente aceitas no século XIX e na transição
ao século XX, como se aqui somente fizesse sentido a mais estrita equivalência
ao “atual”.
O problema é mais realçado por nosso posicionamento, já no
século XXI, com os manuais vindo do século precedente, e o contexto sendo muito
mutável, principalmente observando-se a transformação cultural verificada na
transição do quadro político bipolar, determinado pela guerra fria, ao cenário
multipolar de nossa época (conflito norte-sul).
Em todo caso, problematiza-se a sobreposição à periodização
da história geral, restando ainda a questão tangenciada por Bréhier: em face do
atual, seja como for que se o conceitue, como separar o transitório e o
permanente, o comum e o relevante, a fim de constituir propriamente a nossa
“contemporaneidade”?
A proposta de situar “tendências” (Bréhier) ou “motivos do
pensamento” (Jürgen Habermas),
que caracterizam a ruptura com a tradição, desencadeando a contemporaneidade,
mostra-se conveniente ao tratamento da multiplicidade que informa a atualidade.
A tendência ao concreto, superando o atrelamento do conceito
à metafísica, é algo tão presente que pôde nomear o contemporâneo como a região
do “pós-metafísico”. A isso se relaciona o motivo da temporalização da razão,
já que o pensamento humano não mais se propõe independente da sua
contextualização histórica e social, determinando a impossibilidade de uma
postura de isenção e o necessário esclarecimento quanto ao engajamento pessoal
do observador.
No entanto, mesmo essa razão situada é agora menos uma
faculdade de produzir teorias do que um entrelaçamento de práticas, o que impõe
a tendência que impede a separação entre pensamento e mundo da vida, as
relações pré-científicas que constituem o sentido na interação social e nos
meios da cultura. Supera-se assim o que se designou com Jacques Derrida o “logocentrismo” ocidental.
A caracterização do pensamento contemporâneo pode ainda ser
bem conduzida se salientarmos a localização dos movimentos filosóficos que
permitem delinear centros de envolvimento conceitual e implicam alternativas,
como pontos nodais cujo traçado conflituoso repõe a fisionomia do tempo.
Com base nessas perspectivas, preferimos desenvolver uma
exposição de conjunto, enfeixando processos desencadeados por movimentos
nucleares, cuja tessitura permitirá recompor a formação das tendências que
vemos ser hoje tão constantes.
Por
um lado, temos como um desses pontos nodais o confronto entre os aportes
fenomenológico e analítico, que estendem respectivamente o mais atual do
pensamento existencial e dos investimentos pós-empírico de Quine ou pós-analítico de Rorty.
Por outro lado, há a viragem da estrutura ao pós-estrutural,
compactando nessa trajetória a multiplicidade disciplinar da área humana e
social. Esse périplo se relaciona de modo novo com aquilo a que se opõe. Pois,
se o confronto da estrutura é principalmente com o marxismo tradicional, a
oposição aqui não se oferece de modo tão direto como ocorre no caso de
filosofias existencial e analítica.
Com efeito, o estruturalismo envolveu o marxismo
renovando-o, mas também se colocando como alternativa frente às opções mais
ortodoxas da esquerda. Contudo, como se pode ainda afirmar que o estruturalismo
envolveu a totalidade da problemática social, o que se verifica é que isso
conduziu à sua superação como algo vindo do interior de seu próprio percurso,
não como uma contestação de “outros” a partir de conquistas conceituais que ele
porventura teria apresentado. Os nomes ligados ao pós-estruturalismo se mantêm
no registro do movimento de que procederam.
Estes focos teóricos e de práticas historicamente localizadas
são comuns em obras que tratam o pensamento contemporâneo. Sempre que possível
incluímos a referência à obra fundadora, anteriormente ao século XX, com que o
movimento estudado mantém algum vínculo, como no exemplo de Hegel e Feuerbach, com relação ao marxismo, e Nietzsche, na ambiência do pós-estruturalismo.
Os processos que selecionamos são constantes do momento, sua
escolha se impondo de modo relativamente independente ao posicionamento dos
historiadores de filosofia, ainda que esse posicionamento seja decisivo com
relação a alguns itens: quanto à ênfase com que se avalia tanto o sentido de sua
importância quanto o seu potencial de influir no desenvolvimento futuro do
pensar; e quanto aos outros aportes que se devem acrescentar a esses núcleos
históricos fundadores.
Nesse nosso livro, conservamos apenas essas referências como
motivações à ampliação de suas pesquisas, pois postulamos uma equivalência
quanto ao vigor conservado por qualquer dessas vertentes.
Não obstante, consideramos que a problematização
pós-estrutural apresenta temáticas mais relevantes ao pensamento de hoje,
quando há ainda a tendência a contornar as oposições demasiado marcadas no
passado para mostrar certas convergências de intenções que se revelariam mais
básicas e comuns a campos que se desenvolveram como teorizações opostas. Isso,
naturalmente, com o intuito de superá-las, instaurando polêmicas ainda mais
cerradas.
Contudo, aqui a intenção é favorecer a sua capacidade de
julgamento, pois a amplitude de informações é, de modo manifesto, importante na
formalização dos critérios através dos quais você estará apto a participar da
conjuntura atual, inevitavelmente votada à tarefa dessa avaliação do pensamento
contemporâneo.
A
Formação da Filosofia Contemporânea foi integralmente
redigido em 2007, para atender aos nossos alunos universitários, e revisado
para publicação em 2014.
Leitura:
“O que é um Conceito?”,
in DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix.
O que é a Filosofia? Trad. Bento Prado Jr. E Alberto Alonso
Muñoz. São Paulo: 34, 1992, p. 25-47.
Capítulo 1: O problema
da definição do termo “Filosofia”
Apresentar a definição
de “Filosofia” não é algo simples. Mesmo o exame do termo não revela tão
imediatamente do que se trata. “Filo” em grego significa algo como “amor”, e
“sofia” pode ser traduzido como “sabedoria”. Filosofia, literalmente, significa
“amor à sabedoria”. Mas a palavra “sabedoria” é habitualmente associada a dois
significados possíveis. Um deles relaciona-se com a “sabedoria” que se apreende
no cotidiano, enquanto o outro se relaciona com o conhecimento científico.
Vamos examinar cada um
desses sentidos separadamente.
. O conhecimento comum
A sabedoria que se
apreende com o cotidiano é aquela que se acumula em termos de vivência. Esse
aspecto recobre o que se adquire de uma cultura e é designado senso-comum.
A cultura assim se mostra variável.
Ela compreende não só o
que pode haver de local, referente às práticas costumeiras de um povo, como
algo mais geral, um conteúdo de crença, uma explicação religiosa da realidade.
Em outros termos, o
senso comum pode abranger tanto o que se considera como conhecimento de
aspectos práticos e comezinhos da existência, quanto uma fé a que se adere sem
haver a necessidade de explicação. Assim, o que caracteriza o senso-comum é um
discurso que não demonstra o porquê de seu fundamento.
O que se enuncia no
interior do discurso filosófico, porém, não pode ser simplesmente dado sem um
processo de demonstração de sua validez.
Portanto, filosofia não
se confunde nem com a sabedoria, que se apreende do cotidiano, nem com
doutrinas religiosas, que se apoiam na pura crença.
. O conhecimento
científico
A palavra ciência tem
um sentido geral de conhecimento especializado, como um saber. Atualmente,
porém, a palavra se relaciona a um campo de disciplinas específicas que
produzem um saber caracterizado por um método.
O conhecimento
científico não se confunde com o senso-comum, pois apresenta uma necessidade de
demonstrar a validez do que enuncia. O processo de validação do discurso
científico se apoia no método experimental, isto é, depende da evidência dos
fatos, manifesta no interior de experiências controladas que visam comprovar
uma teoria e as leis que a constituem.
Em geral, as ciências
trazem no próprio nome o enunciado que as define. Isso porque cada ciência é
como um Logos do seu objeto. Pelo termo grego “logos” entendemos um discurso
racionalmente articulado, o que pode ser aproximado à ideia de um estudo sobre
algo bem determinado. Assim, podem ser citados inúmeros exemplos: socio-logia
(estudo da sociedade), bio-logia (estudo da vida) etc.
Tanto por ser sempre
conhecimento centrado em um objeto preciso, quanto por ter seu processo de
validação dependente da experiência, o conhecimento científico não se confunde
com o exercício da filosofia.
. O conhecimento
filosófico
A
palavra “filosofia” se tornou amplamente utilizada a partir de Platão, que assim definia algo como o
projeto de um enunciado integralmente legitimado.
Com isso, temos o
indício de que a sabedoria desejada ou almejada (“amada”), no sentido da
filosofia, é aquela que desfruta de um certo “status”.
Não se tem por esse
nome nenhum enunciado que não forneça a sua própria demonstração, que não
manifeste por si a sua própria inteligibilidade.
Pode-se afirmar que a
filosofia é uma produção de conhecimento que se exige válido, isto é, que se
manifesta através de um discurso que deve demonstrar sua verdade.
Mas vimos que ter que
demonstrar a validez do que enuncia é algo em comum entre ciência e filosofia.
O que não permite confundi-las é que
só na filosofia o processo de validação depende apenas da inteligibilidade
intrínseca e sistemática do pensamento, inteligibilidade manifesta pelo
discurso.
Compreende-se então que
possa haver não uma só, mas várias definições de filosofia, tantas quanto há
filósofos. Ou seja, tantas definições de filosofia quantos sejam os critérios
propostos como prévios à aceitação de um discurso como válido.
O que poderia reunir
todas essas definições, sob a qualificação da atividade comum de todos esses
filósofos?
. Definição
contemporânea de “Filosofia”
A maturação de uma
definição pessoalmente formada de filosofia requer um envolvimento longo com a
matéria, e qualifica alguém como um filósofo. Mas a contemporaneidade tem
aceito que a filosofia é um conhecimento por conceitos.
Dessa maneira, o
discurso filosófico se expressa através de conceitos que cada filósofo
apresenta, através dos quais enuncia algo que considera essencial à realidade.
Conceitos como os de
ser, de mundo, de Deus, propostos por um filósofo, podem não coincidir com os
mesmos termos, quando apresentados como conceitos de outro filósofo. Assim,
estudar filosofia consiste em conhecer os conceitos, que se interligam na obra
de cada filósofo, formando um corpo consistente, uma “doutrina”, isto é, um
sistema filosófico.
Mas, a formação dos
conceitos por um filósofo sempre manifesta influências, interdependências ou
mesmo conflitos manifestos com relação aos conceitos de outros sistemas
filosóficos.
Assim, a filosofia
consiste nesse conjunto de sistemas que apresenta interligações complexas e
articuladas.
Para que essa definição
se torne algo mais compreensível, será necessário o desenvolvimento do curso,
que deve favorecer uma aproximação à atividade filosófica, manifesta através do
tempo.
O procedimento consiste
em acompanhar o surgimento histórico da filosofia, em compreender o sentido de
sua manifestação contrastante com as outras formas de saber existentes no tempo
e no lugar de sua origem. E observar as transformações que se verificam
indispensáveis à atualidade, ao que ela veio a ser na contemporaneidade.
É por isso que devemos
inicialmente nos aproximar do ambiente grego antigo, pois, como veremos, é aí
que se registra o nascimento da filosofia.
Leitura:
“A
atitude filosófica”, in CHAUÍ,
Marilena. Convite à filosofia. São
Paulo: Ática, 2000, p. 8.
Exercícios:
a)
Você já teve algum contato com o estudo de filosofia? Em caso afirmativo,
comente sobre a sua impressão a propósito.
b)
Escreva um pequeno texto comparando senso-comum, ciência e filosofia.
Gabarito:
a)
e b) Resposta pessoal.
Capítulo 2: Filosofia e
Conhecimento: desenvolvimento e abrangência
. Exercício da
Filosofia na Grécia Antiga
A origem da filosofia
circunscreve-se à Grécia antiga (desde o séc. VII a. C.), por ser aí que vemos
surgir um conjunto complexo de textos e referências produzidos em um meio
social no qual se delimita o seu exercício. Essas referências abrangem
outros textos, como a dramaturgia (o teatro clássico grego), que se reportam,
de um modo ou de outro, à atividade filosófica.
Em seu desenvolvimento
na Grécia antiga, o exercício da filosofia se destacou das explicações míticas
e tornou-se coeso por apresentar a necessidade de demonstração e de crítica,
não sendo indiscutível (dogmático) no sentido das crenças e dos mandamentos
religiosos.
. Abrangência
disciplinar da filosofia antiga
A filosofia foi se
desenvolvendo, na Grécia e a seguir em todo o mundo. Um corpo de doutrinas
pertencendo a vários filósofos passou a se ramificar em escolas de comentadores
e seguidores desses sistemas. Constituíram-se também várias disciplinas, isto
é, áreas específicas de estudo propriamente filosóficas. As principais
disciplinas na Antiguidade eram a Física, a Lógica e a Ética ou moral.
FÍSICA - conhecimento
da origem e natureza do mundo e das coisas existentes (O Ser).
LÓGICA - conhecimento
das regras do raciocínio e do discurso verdadeiro (O Pensamento).
ÉTICA - conhecimento da
virtude, do Bem, da política e da sociedade (O ser humano).
. Da filosofia antiga à
filosofia atual
Com o seu
desenvolvimento, a Filosofia abarcou praticamente todas as áreas do saber.
Aquilo que hoje se entende por ciência, distinguindo-se pelo método
experimental; anteriormente à adoção deste método costumava ser associado a uma
parte da filosofia.
A
Filosofia caracterizou-se, dessa maneira, como um conjunto de conhecimentos
teóricos sobre o real, desde o seu nascimento até aproximadamente o início da
idade moderna (séc. XV d. C.). Nesta época, temas que se agrupavam sob o seu
conceito se transformaram, originando formas autônomas de pesquisa.
Inicialmente, a adoção do método experimental determinou a autonomia das
ciências da natureza (sécs. XV a XVII).
Já
entre os séculos XVIII e XIX, podemos observar a atuação independente de
disciplinas como a psicologia, a linguística e a sociologia, que abrangem o
campo geral das ciências humanas. Embora as ciências humanas nem sempre sejam
caracterizadas pelo método experimental, sua definição em termos de um objeto
específico as torna independentes da filosofia.
.
Abrangência disciplinar da filosofia contemporânea
Vimos que a filosofia
não se define por um objeto dado.
Porém, considerando que
a filosofia se constitui como um exercício de inteligibilidade aplicado aos
mais variados temas, podemos agrupar a formação de conceitos filosóficos por
grupos de temas característicos.
Desse modo, se formam
atualmente disciplinas que, mesmo não sendo consideradas como ciências
autônomas, apresentam uma especificidade em sua atuação.
Essas disciplinas
costumam se interligar no interior de um sistema filosófico completo. Um
sistema filosófico sempre apresenta teorias relacionadas a todas, ou, pelo
menos, a algumas, dentre estas áreas de estudo.
: LÓGICA - Conhecimento
das formas e regras gerais do pensamento correto e verdadeiro.
: EPISTEMOLOGIA - Análise
crítica, avaliação dos métodos e resultados das ciências.
: TEORIA DO
CONHECIMENTO - Estudo das várias formas e modalidades do conhecimento humano
(Gnosiologia).
: ÉTICA - Estudo dos
valores morais.
: FILOSOFIA POLÍTICA -
Estudo sobre a natureza do poder e da autoridade.
: FILOSOFIA DA ARTE OU
ESTÉTICA - Estudo sobre as formas de arte e do trabalho artístico.
: FILOSOFIA DA HISTÓRIA
- Estudo da dimensão temporal da existência humana como existência
sócio-política e cultural.
: FILOSOFIA DA
LINGUAGEM - Estudo das formas da linguagem, da Expressão e da comunicação
humanas.
: FILOSOFIA DA NATUREZA
- Estudo das concepções da natureza.
: ONTOLOGIA OU
METAFÍSICA - Conhecimento dos princípios ou fundamentos de toda a realidade e
de todos os seres.
: HISTÓRIA DA FILOSOFIA
- Estudo dos vários períodos da filosofia e dos grupos dos filósofos, conforme
os temas e problemas que abordam.
Leitura:
“A Invenção da Razão”, in CHÂTELET, François. Uma história da razão: entrevistas com
Émile Noël. Trad. Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994, p. 15-33.
Exercício:
Escreva um texto
sucinto, comparando doutrina religiosa e sistema filosófico.
Gabarito:
Demonstrar as
diferenças de proposta e método entre a doutrina religiosa, que se baseia na
crença, e a Filosofia, que procura estabelecer enunciados plenamente
fundamentados na razão.
Capítulo 3: A Polis
grega: democracia e filosofia
. A Unidade Cultural da
Grécia
Os Gregos não possuíam
unidade política nacional. Porém, entre os séculos IX e VIII a. C., já se pode
considerar a Grécia sob o ponto de vista de sua unidade cultural.
A consciência dessa
unidade étnica como comunidade de cultura foi favorecida pela arte dos poetas.
O universo mítico que caracterizou a religiosidade helênica formou-se através
das narrativas registradas em seus poemas.
Os mitos originalmente
faziam parte do patrimônio das famílias nobres que encarnavam a autoridade dos
GENOS (organização social patriarcal anterior ao surgimento da Polis).
Juntamente com os rituais associados, os mitos distinguiam-se como atributos do
poder político, partilhado entre os soberanos, patriarcas e a casta sacerdotal,
os quais instituíam as leis e proclamavam a verdade.
Posteriormente, os
poetas compilaram estas antigas narrativas tradicionais, mas, à feição do seu
estilo próprio, mesclando-as à imagem do que era típico da época e da tendência
de cada um. Deste modo, suas obras formaram um público em comum em toda a
Grécia, favorecendo a noção da identidade cultural. Os mitos fundamentavam o
poder dos Genos (famílias nobres), pois os heróis personificavam o ideal dos
nobres e a hierarquia social, que se tornavam assim considerados como sagrados.
Principais entre estes
poetas são Homero (talvez século IX a. C., autor das epopeias Ilíada e da Odisseia) e Hesíodo (século VIII a. C., autor da cosmogonia Teogonia e do poema Os Trabalhos e os Dias).
. Surgimento da Polis
As Cidades-Estados
(Polis) surgem, entre os séculos VIII e VII a. C., como forma de organização
social caracteristicamente grega. São cidades independentes e autônomas umas em
relação às outras. Seu surgimento se relaciona a um modo novo de compreender as
relações sociais.
Não existe mais a noção
de uma pessoa ou de um grupo de pessoas predeterminado para governar os outros.
Embora mantendo as práticas e as crenças religiosas, agora os gregos as
separam, de certa forma, do nível estritamente político. Assim, a organização
da Polis se desenvolveu de modo a
abranger uma sociedade propriamente política,
com uma repartição do poder entre os cidadãos. Estes se compreendendo como
iguais, em grego ISOS, palavra da qual deriva a denominação do ideal da
ISONOMIA (a igualdade política entre os cidadãos).
Observe que a palavra
“política” deriva de “Polis”. Na Grécia se forma, através de um longo período
entre os séculos VIII e V, a experiência pioneira de uma sociedade que será
característica do mundo ocidental. Neste período, o ideal isonômico evoluiu
para a instituição da democracia, instituída por Clístenes, em 507 a. C.
O poder
progressivamente se torna passível de ser delegado a representantes aptos a
exercê-lo. Surgem inúmeras questões novas, relacionadas à maneira pela qual
este poder pode ser conceituado, até que ponto ele pode ser considerado
legítimo e como deve ser exercido.
. A prática da
cidadania
A Polis é o espaço de
uma prática de cidadania. Na Ágora (a Praça pública) os cidadãos são chamados a
deliberar sobre o que será aprovado para todos ou não, além de resolver aí as
disputas legais. É um novo uso que se faz da palavra: LAICIZADA (para uso
público e corrente), assim como as demais práticas sociais, não mais
sacralizada (de uso reservado a uma classe sacerdotal). Há agora um exercício
institucionalizado do direito.
Antes da formação da
Polis, ainda no âmbito da palavra mítica, mágico-religiosa, a verdade era
instituída conforme a posição daquele que a enunciava. Não havia necessidade de
provar uma afirmação. As técnicas de julgamento eram ordálicas: ordálias são
procedimentos rituais garantidos pela autoridade do mito, encarnada naquele que
possuía a competência de sua aplicação.
A Polis institui o
regime jurídico, em que há a necessidade de se demonstrar a validez de uma
afirmação perante um tribunal de cidadãos que não se distinguem por sua
posição, mas que compartilham a mesma racionalidade, que deve se encarregar da
decisão judicial. A palavra se submete assim a uma possibilidade de
contestação, devendo provar sua legitimidade.
Tudo isto, aliado ao
desenvolvimento do comércio e ao progresso técnico e artístico, leva a
indagações e problemas, que antes a organização mágico-religiosa se encarregava
de resolver por meio dos mitos, ou mesmo a questões que anteriormente não
existiam.
. Início do exercício
da filosofia:
Vimos que a sociedade
política, desenvolvida na Cidade-Estado grega, favoreceu o nascimento da
filosofia.
Os primeiros filósofos,
designados Pré-Socráticos, entre os séculos VII e VI a. C., começaram por
desenvolver uma especulação sobre a natureza, procurando explicações racionais
sobre os fenômenos, isto é, explicações desvinculadas dos mitos.
Eles buscavam um
princípio que pudesse ser conceituado, tanto como a origem das coisas, quanto
como aquilo que mantinha a ordenação entre elas, conjugando-as como natureza ou inter-relação inteligível de
fenômenos.
Esse princípio seria a “arché”, que cada filósofo conceituou ao
seu modo: para Tales de Mileto
(o segundo nome é o da cidade de nascimento da pessoa, entre os gregos
antigos), a ARCHÉ é concebida como uma unidade, a Água; para Anaximandro de Mileto é algo
impalpável denominado ÁPEIRON (infinito); para Anaxímenes de Mileto é o Ar e para Heráclito de
Éfeso é o Fogo.
Os conceitos de Arché
foram se multiplicando, abrangendo a dualidade (discórdia e amor, como em Empédocles de Agrigento) e a
multiplicidade (como, por exemplo, os átomos de Demócrito de Abdera), até surgir a tendência a considerar somente
o princípio ordenador, não materializado ou personificado, como preponderante
para a compreensão da arché. É o caso do número (Pitágoras de Samos) e do SER (Parmênides de Eleia) como princípio ou realidade além da qual nada
mais pode ser afirmado.
A concepção pela qual a
natureza se resolve em um elemento ou organização de elementos atinge um grau
de abrangência maior com Demócrito de Abdera (460 a. C.) e o conceito de ÁTOMO.
Conforme a perspectiva atomista, a qual provavelmente ele veio a conhecer
através de seu mestre Leucipo, há um conjunto de corpúsculos que, chocando-se e
se agregando entre si, origina infinitos mundos.
Átomo em grego quer
dizer indivisível e a composição é feita entre os átomos de acordo com relações
de tamanho e forma. Para os atomistas
estas partículas coexistem em meio ao vazio. Chega-se assim a uma pluralidade
total como realidade natural subjacente à organização do mundo.
É já sob esta
perspectiva pluralista que Anaxágoras de Clazômenas (500 a. C.) havia concebido
as HOMEOMERIAS (homos, igual e meros, parte), ou SEMENTES (spermata). São partículas
infinitamente divisíveis e misturadas, das coisas, de maneira que só a
predominância de um tipo determinado permite distinguir uma coisa como tal
coisa determinada.
Mas é também
característica da concepção pré-socrática da Physys (natureza), a convicção de
que lhe é inerente um sentido de inteligência presente em todas as suas
manifestações e que é responsável por sua ordem e estabilidade.
O próprio Anaximandro
intui a necessidade de um princípio ativo que ordena as misturas e forma o
cosmos, o universo dotado de leis eternas e imutáveis. Este elemento, para ele, é a própria
INTELIGÊNCIA, ou mente, “Nous”, (Espírito).
Afirma-se então uma
tendência a considerar somente o princípio ordenador como preponderante para a
compreensão da arché, como na concepção de Pitágoras de Samos (570 a. C.), para
quem as leis da natureza podem ser expressas em termos puramente
matemáticos. O número seria assim a
medida das coisas, como razão da relação ou da harmonia entre elas. Princípio
da realidade intrínseca a cada coisa particular e à ordenação do todo, seriam
as relações numéricas também a força geradora do devir.
O período Pré-Socrático
chega a um impasse básico. Há uma
concepção ligada ao ser, ao eterno, ao imóvel, como único REAL além do qual
tudo é opinião e aparência, como em Parmênides, e há uma concepção que vê no
devir, no fluir e na transformação, mais do que meras aparências, e sim a
própria realidade.
Esta é a perspectiva
mais amplamente exposta por Heráclito de Éfeso, que, como vimos, estabelecia o
Fogo como unidade originária. Mas o fogo, para Heráclito, é a expressão, não
apenas de um elemento, sendo mais como a imagem do eterno vir-a-ser (devir). É
LOGOS ou razão, medida da transformação dos elementos uns nos outros, harmonia
como tensão entre os opostos que coexistem e se fundem, para voltar a fluir em
um ciclo eterno, que é característico do devir.
Mesmo considerando-se
que soluções como as de Anaxágoras e Empédocles são tentativas de conciliação
entre SER e DEVIR , é irredutível a oposição, e encontra-se aí o limite da
especulação teórica do período Pré-Socrático.
Mas, convém aqui aperceber-se
do grande salto representado por estas especulações. Nasce um sentido
completamente novo no questionamento do modo de ser das coisas. Não se procura
mais uma origem da natureza em um outro nível fantástico ou maravilhoso.
Neste sentido, ARCHÉ
como princípio não é necessariamente algo cronologicamente primeiro ou anterior
às coisas, mas algo que é inerente a elas, funcionando como um princípio ativo
que nos permite apreender a maneira pela qual elas são efetivamente.
O que é aceito aí é que
o conhecimento, não mais entendido apenas como revelação restrita a uma classe,
agora, enquanto saber, deve ser submetido à exigência da confrontação, através
da linguagem. É partilhável e tem assim a necessidade da demonstração daquilo
que estabelece como verdadeiro. É a compreensão do real como podendo ser objeto
do conhecimento humano. Esta pressuposição nova está bem claramente expressa em
uma frase de Parmênides: “É o mesmo o pensar e o Ser”.
Alguns filósofos
Pré-Socráticos nada escreveram, como Tales e Pitágoras, e conhecemos seu
pensamento por intermédio de outros autores, cujos textos chegaram a nós. Todos os outros filósofos que estudamos
deixaram textos dos quais nos chegaram alguns fragmentos. Quanto a Anaxímenes de Mileto, porém, há
somente um fragmento, de autoria duvidosa.
Leitura:
“O universo espiritual
da Polis”, in VERNANT,
Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. Ísis Borges da Fonseca. 5 ed. Rio de Janeiro:
Difel, 1986, p. 34-47.
Exercício:
Escreva
sobre como você compreendeu a relação entre o surgimento da sociedade política
e o nascimento da filosofia.
Gabarito:
Os
dois acontecimentos estão profundamente interligados, e, neste capítulo, o
leitor encontra vários dos elementos importantes a destacar, no caso.
Capítulo 4: O exercício
da sofística
. Surgimento da
Sofística:
O século V é o apogeu
da antiga civilização helênica. Já em 507, Clístenes havia introduzido a
democracia em Atenas, centro da vida cultural grega, desde o seu papel decisivo
na vitória dos gregos e sua sociedade política contra os persas, que se
organizavam tradicionalmente numa monarquia.
Existe agora uma
realidade de mobilidade social, a possibilidade dos cidadãos acederem ao poder
político e à prosperidade por seus próprios méritos, não mais apenas por direitos
nobiliárquicos permanentes, hereditários.
Neste contexto, a
filosofia apreende uma nova orientação em seu exercício. Aparecem os sofistas. Levando ao
extremo a concepção do DEVIR, não se interessam por prosseguir no tipo da
especulação anterior, pré-socrática, rumo ao conhecimento do que é por si mesmo
enquanto natureza.
É no espaço social, da
lei e das convenções humanas, que os sofistas atuam e concentram seu interesse
especulativo, atendo-se a uma concepção do homem como ser que vive em sociedade,
em comum.
Quase não restam textos
autênticos dos sofistas. O que sabemos sobre eles nos vem de comentários e
citações feitas por outros autores, a maioria com o intuito de combater o seu
ensinamento.
Mesmo assim, é possível
reconstituir o sentido de sua concepção original. Este tem sido o objetivo de vários estudiosos
contemporâneos que vêm revitalizando o interesse pela sofística, ao recolocar
as questões por eles tratadas no contexto de sua perspectiva própria, ressaltando
a sua atualidade, principalmente nos setores de pesquisa da linguagem.
Os sofistas mais
famosos são Protágoras de Abdera
e Górgias de Leontinos. Aqui não
examinaremos a sua produção individual. Mas podemos destacar de seu ensinamento
os seguintes pressupostos:
v subjetivismo
(a verdade é relativa ao sujeito individual);
v relativismo
(cada coisa aparece de acordo com um ponto de vista);
v ceticismo (não há uma verdade em
geral e portanto não há possibilidade de conhecê-la como tal).
Consideram o critério
da conduta exclusivamente como o que é pessoalmente útil e proveitoso, doutrina
que prefigura o moderno utilitarismo.
A concepção utilitária afirma que se cada um se esforçar no sentido de alcançar
a sua felicidade pessoal, isso conduzirá à sociedade, como um todo, feliz.
. A Retórica e a
dialética
. A Retórica
A palavra Sofista vem
da expressão Sophós, sábio, mas no sentido de hábil ou perito em alguma arte ou
oficio e não como alguém que detenha um tipo de conhecimento das coisas em
geral. Como vimos, esse conhecimento geral era negado como algo que tivesse
algum sentido, pelos sofistas. Eles são professores itinerantes pagos para
ensinar a RETÓRICA, a arte do discurso. A habilidade ou proficiência do sofista
era especificamente a arte retórica.
A invenção da retórica
é tradicionalmente atribuída a Córax
(Siracusa, por volta do século V a. C.) e Tísias (Siracusa, século V a. C.), e seu objetivo não é alcançar
ou demonstrar a verdade da tese em questão, porém convencer, persuadir, levando
ao assentimento pela manipulação do discurso. Consiste no estudo dos tropos
(modos da expressão), das sonoridades, da pertinência e das partes do discurso.
Como na Polis
democrática as decisões da assembleia e as instituições legais são votadas
pelos próprios cidadãos, não basta mais atribuir as leis à natureza ou ao seu
caráter sagrado e imutável. Também a expansão marítima e comercial dos gregos
os fez descobrir a relatividade dos costumes, de modo que aquilo que em alguns
lugares pode não ser aceitável, em outros pode ser considerado correto e plenamente
aceito.
Portanto, é preciso
provar a legitimidade das leis, compreender sua aplicação e propósito, e só
assim pode haver decisão quanto a ser uma lei boa ou não, conforme o interesse
daqueles aos quais se aplica. A linguagem passa a ser vista como a chave do
poder político e os sofistas propõem ensinar o seu uso nesta acepção. Nas
assembleias dos cidadãos, é preciso convencer os outros a votar, a favor ou
contra, a adoção de uma lei ou a aplicação de uma sanção.
A atividade dos
sofistas inclui o ensino da linguagem, de cidade em cidade, e a composição de
manuais de retórica. Os alunos dos sofistas serão aqueles que irão se
pronunciar nas assembleias, em nome dos seus compatriotas, a fim de obter leis
favoráveis aos interesses de sua região ou grupo social. Como vimos, eles eram
professores pagos, mas há registros de ensinamentos públicos de sofistas.
Geralmente eles eram homens pessoalmente comprometidos com a causa da
democracia ateniense.
Essas atividades de
ensino propiciam aos sofistas desenvolverem técnicas de argumentação e mostrar
o relativismo da linguagem através de paradoxos. Alguns dos problemas que
descobriram nesse campo ainda hoje são objeto de controvérsias, por colocarem
problemas lógicos. Exemplo de paradoxo sofístico: contando de grão em grão, em
que momento podemos afirmar tratar-se de um montão? Observe que pela lógica
ordinária não há como responder a essa questão, e, no entanto, ela não é sem
sentido.
A sofística mantém uma
visão contrária à superstição e a toda atitude meramente contemplativa. O que
apresentam como resposta às indagações fundamentais sobre o ser e o sentido das
coisas existentes, pela afirmação do devir, não provém de uma formulação
puramente teórica, mas embasa o seu interesse pedagógico prático.
O ensino da linguagem
estava relacionado a algo mais fundamental. Os sofistas afirmavam exercer
pessoalmente e ensinar aos outros a ARETÉ, isto é, a virtude conceituada
em sentido ateniense e democrático: habilidade política ou cidadania.
Pelo que vimos da democracia grega, podemos compreender como o cultivo da
retórica e da sociabilidade deviam ser valorizadas na educação do cidadão.
. A dialética
A dialética consistiu
na Grécia, desde o período pré-socrático, em uma espécie de torneio verbal
entre contendores. Um deles se encarregava da sustentação de uma tese, enquanto
o outro, por meio de perguntas habilmente formuladas, procurava induzir o
oponente à contradição.
Mas a dialética era uma
contenda verbal em que os mesmos jogadores deviam trocar os lugares, de modo que
cada um devia poder sustentar ou refutar a mesma tese, com o mesmo êxito. Os
torneios dialéticos vigoravam na Grécia desde a época dos pré-socráticos. Zenão de Eleia foi um dos mais famosos
dialéticos dessa época.
Observe como a
dialética é um elemento de laicização do pensamento. O conteúdo do discurso não
está preso à forma, a afirmação pela linguagem não obriga à crença pelo
pensamento, nem a opinião é algo sagrado, que não pode ser posto como
objeto de interrogação e exame imparcial.
Os sofistas professavam
o ensino de técnicas capazes de induzir à vitória nesse tipo de jogo, e
utilizavam o torneio verbal também como meio de adestramento à prática de
confrontos em tribunais.
. Desenvolvimento da
sofística:
. PHYSIS (natureza)
versus NOMOS (convenção)
Os sofistas, mestres de
retórica, podem também exercer o ofício de “advogados”, isto é, no contexto
grego, representantes de cidades ou de particulares, em assembleias ou
tribunais. Sua prática os leva a constatar que a verdade no mundo dos seres
humanos é relativa a um consenso produzido pelo discurso, não podendo ser
designada como uma realidade prévia, assim como uma lei da natureza.
Vimos que os
pré-socráticos haviam chegado a um impasse básico entre SER e DEVIR. Agora, a
sofística desenvolve a oposição, característica do clima intelectual do quinto
século, entre os domínios da natureza e da cultura. Essa oposição se expressa
no contraste entre os termos PHYSIS, como domínio de tudo o que é por natureza,
e NOMOS, a esfera das leis e costumes enquanto artifício humano, isto é, a
convenção.
É no domínio do Nomos,
das leis, que os sofistas atuam e concentram seu interesse especulativo,
atendo-se a uma concepção do homem como ser que vive em sociedade, em comum. No
contexto do século V a. C., não acreditavam ser possível produzir qualquer
conhecimento indubitável sobre o ser ou sobre a natureza.
. O NOMOS e a DÓXA
Os sofistas apresentam
seu ensinamento como uma arte de manipulação do discurso, a retórica, de modo a
produzir o consenso, isto é, a opinião partilhada pela maioria dos ouvintes. O
cerne de sua atividade se concentra assim na opinião, na “dóxa”, como a
circunscrição daquilo que é produzido pelo discurso e partilhado como verdade
entre os seres humanos no âmbito da sociedade.
A sofística não vê a
dóxa ou opinião como algo oposto à verdade, mas sim como aquilo que se torna a
verdade, enquanto consenso afirmado e partilhado entre todos os que o adotam,
através de um acordo produzido e garantido pela prática comum, social, da
linguagem.
Leitura:
“Dificuldades
da linguagem comum e formação da linguagem geométrica”, in GEYMONAT, Ludovico. Elementos
de filosofia da ciência. Lisboa: Gradiva, 1987.
“Imagens da cidade e
modelos para um consenso”, in CASSIN,
Bárbara. Ensaios sofísticos. Trad.
Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. São Paulo: Siciliano, 1990, p.
75-102.
Exercício:
a)
defina retórica e dialética;
b)
componha um pequeno texto descrevendo o sofista;
c)
escolha alguns aspectos do ensinamento dos sofistas e exponha o seu conteúdo.
Gabarito:
a)
Retórica é a arte da palavra, com vistas à persuasão do ouvinte, podendo ter
vários usos como “oratória”: forense, educativo (palestras), terapêutico,
estilístico. A dialética em geral é sinônimo de argumentação frente a
opositores. Originariamente era um jogo entre um interrogante e um respondente,
no qual o primeiro tentava induzir o segundo à contradição, mas desde Sócrates
e Platão, transformou-se numa forma de raciocínio demonstrativo, com vistas à
definição de um conceito, até que, com Aristóteles, se tornou sistematizada
como “lógica”.
b)
Do texto deve constar: professor de retórica, pela chave na educação da
cidadania democrática, personagem que laiciza a cultura, por tornar o seu
ensino público e não como antes, restrito aos costumes das famílias nobres.
c)
Os sofistas ensinavam a diversidade das opiniões, a impossibilidade do
conhecimento da natureza (physis) e a necessidade de manter nossos
conhecimentos relativos ao que é convencionalmente humano (nomos = lei). Eles
se baseavam na relatividade (diversidade) dos costumes entre os povos, assim
como das impressões subjetivas e formação social entre os seres humanos. A
retórica e o consenso obtido por deliberação conjunta seriam os meios pelos
quais, no plano público, as opiniões e interesses múltiplos conviriam, numa lei
votada, democrática. Assim como, no plano privado, não há legislação cabível,
somente liberdade da escolha pessoal – princípio de toda democracia.
Capítulo 5: Filosofia e
Verdade
O
século V a. C. é o período da preponderância de Atenas, que se torna importante
após haver atuado decisivamente na Guerra da Grécia contra a Pérsia. Garantindo
a autonomia das cidades gregas contra a ameaça da subjugação à monarquia persa,
Atenas representou o ideal da liberdade, o que favoreceu a imagem de seu
regime, a democracia.
Mas,
durante o século IV a. C., inicia-se um processo de desagregação no interior do
território grego. As outras cidades-estados disputam com Atenas a hegemonia
comercial, cultural e mesmo política. Agora o ideal democrático começa a ser
severamente contestado, pois a principal opositora de Atenas é Esparta, onde
prevalecem instituições mais conservadoras, de modo que as decisões pertencem
apenas a um grupo tradicional de cidadãos e os esforços são canalizados para a
instituição militar.
Enfraquecidas
por tais rivalidades internas, as cidades-estados gregas sucumbem ante a
invasão do Império Macedônio, que impõe progressivamente o seu domínio sobre a
Grécia antiga. A Hélade não consegue recuperar sua autonomia política. Os
Macedônios mantêm-se no poder até o séc. II a. C., quando os romanos
incrementam o movimento expansionista, que os fará abarcar o domínio de
praticamente todo o mundo antigo.
Nesse
ambiente conflituoso, a prática retórica sofística, que depende
fundamentalmente da instituição democrática, começa a ser contestada,
juntamente com o ideal da democracia. A classe mais tradicional da sociedade
ateniense, composta pela nobreza, encontra agora argumentos contra as
instituições democráticas, a que sempre havia se oposto, por razões óbvias.
A
sociedade democrática é móvel, admite a ascensão social através da atividade
comercial e relaciona a influência política com a habilidade e o mérito
pessoais. A sociedade tradicional, onde os nobres são dominantes, não admite
mudança, baseando-se na fixidez das relações sociais instituídas por
nascimento.
Dessa
maneira, torna-se compreensível que uma época de valorização democrática seja
também um tempo de valorização das teorias do devir, enquanto que uma época de
valorização da nobreza ou da monarquia se relacione a um pensamento mais ligado
ao ser e à permanência imutável do real.
Enquanto
a sofística, no século V, lida com a DÓXA ou opinião, como algo mutável e
moldável através da persuasão e da arte de influenciar pela palavra, há no
século IV uma preocupação com a EPISTEME ou verdade, enquanto conhecimento da
realidade imutável das coisas.
Ao
estudar o pensamento que se desenvolve no período que abrange os séculos V a
III a. C., vamos constatar a transição pela qual a ênfase se desloca da
sofística à filosofia, da relatividade da opinião à fixidez de certos
princípios gerais considerados como a verdade - não qualquer verdade sobre
qualquer coisa banal no mundo, mas a verdade como os princípios gerais do Ser.
Quando
a preponderância da questão da verdade se impõe, a filosofia começa a se
definir como exercício racional que conduz ao conhecimento válido daquilo que
se expressa como o verdadeiro. Qualquer afirmação banal sobre as coisas do mundo
estaria, assim, de acordo e como exemplo daquilo que é fundamental, a verdade
sobre o Ser. Esse período pode ser considerado então como a fundamentação da
filosofia, pois ela consolida o seu exercício através dessa definição que só
virá a ser seriamente contestada na contemporaneidade, após Nietzsche, no
século XIX.
Atualmente,
a posição da filosofia como conhecimento de princípios absolutos não se mantém
geralmente observável. Vimos como se trata, agora, de pesquisas e
desenvolvimentos teóricos em campos específicos que procuram problematizar e
desenvolver certos temas conforme conceitos, na limitação de uma teoria.
Não se trata mais de fornecer dogmas “metafísicos”, isto é, que dizem respeito
a realidades puramente ideais e indubitavelmente demonstráveis pela razão.
Um
dos fatores mais importantes quanto a isso é que na Antiguidade, ao
estabelecer-se a filosofia como metafísica, ao mesmo tempo se forneceu um
modelo de pensamento universal que durante todo esse tempo, até o século XIX,
era usado para “provar” a superioridade da cultura ocidental, derivada dos
gregos, sobre os outros povos. Esse era o pensamento racional, que atingia a
verdade, enquanto os outros, não.
Hoje,
a filosofia conserva a premissa da relatividade cultural. Mesmo a lógica é
considerada relativa ao campo epistemológico (relativo à produção do saber)
específico da cultura ocidental, aceitando-se que as demais culturas
desenvolvem outros modos de aproximação ao real, igualmente válidos conforme
seus pressupostos existenciais.
Três
pensadores gregos são decisivos na consolidação da filosofia como uma forma de
conhecimento fundamentado pela racionalidade e tendo por objeto o discurso
verdadeiro: Sócrates, Platão e Aristóteles. É somente a partir da
intervenção de Sócrates que o problema da filosofia se torna legitimar o
conhecimento enquanto lugar da verdade. O conjunto da produção desses três
filósofos é por vezes, por isso, designado como “a socrática”, nos manuais de
filosofia. Mas não se deve reduzir o pensamento de cada um deles a esse início
proporcionado por Sócrates, pois Platão e Aristóteles apresentam teorias
originais e fundamentais ao exercício posterior da filosofia.
Observe
que, mesmo quando se quer criticar o pensamento dogmático antigo, esses
pensadores se tornam importantes, pois mostram com clareza os pontos que o
apoiam. Se quisermos antepor uma crítica válida, são esses tópicos que
precisamos mostrar como não fundamentados, para manter a argumentação dentro
daquilo que designamos como exercício de pensamento filosófico.
.
Sócrates
Ateniense,
nascido em 470, filho de um escultor e da parteira Fenareta, a figura de
Sócrates causava estranheza nos meios intelectuais da cidade, dominados pela
sofística, cujos representantes experimentavam então o ápice do prestígio.
Cultos
e refinados, famosos, exibindo-se em meio ao luxo e ao poder, os sofistas eram
vez por outra surpreendidos pela intervenção de Sócrates: vestido com uma
túnica grosseira, descalço, ascético, ostentando um semblante destituído de
atrativos físicos, nariz chato, olhos saltados, muito robusto.
Ele
não lhes vinha contestar o saber em nome de um outro saber maior. Pelo contrário, o que Sócrates lhes antepunha
era uma exigência única, a de mostrar a VALIDADE de seus discursos,
fundamenta-los, estabelecer a sua UNIVERSALIDADE, isto é, o reconhecimento por
todo ser racional da verdade ou da falsidade do que eles afirmavam.
Podemos
avaliar a importância de Sócrates pelo fato de ele ser considerado um marco
entre toda reflexão anterior e posterior a ele. Após a atuação de Sócrates, a
filosofia adquire a forma pela qual a reconhecemos ainda hoje, em seus temas e
formulações fundamentais. Sócrates introduz a exigência da universalidade do
conhecimento e assim estabelece o âmbito no qual evolui toda indagação a seguir.
Os
sofistas estavam preocupados com a aparência da realidade a que a linguagem
poderia conduzir e por isso desenvolviam a retórica como uma arte da persuasão.
Sócrates realizava em seu meio um exercício de crítica, pois não contestava uma
afirmação através de outra afirmação, mas procurava, através de perguntas
habilmente formuladas, mostrar que o ensino da retórica não estava fundamentado
no conhecimento real sobre as coisas.
Acercava-se
ele dos cidadãos com quem dialogava, visando principalmente os sofistas.
Examinando-os, pondo-os à prova através de suas perguntas, mostrava que não só
desconheciam a essência do que afirmavam poder ensinar, como ainda eram
ignorantes a respeito de si mesmos, pois pensavam que sabiam o que na verdade
desconheciam.
Ao
sofista que afirma ensinar a virtude, Sócrates interroga: que é a virtude? Aos que se destacam como exemplos notórios de
cidadãos justos e corajosos, ele pergunta: que é a justiça, que é a coragem? E assim em cada caso: que é a beleza, o
conhecimento, o bem? Sócrates não aceita
exemplos como resposta, ele exige uma DEFINIÇÃO em geral, válida em todos os
casos particulares, que expresse o CONCEITO, a essência mesma destes termos
aparentemente conhecidos por todos.
Sócrates
não afirma possuir a resposta a essas indagações, não defende uma tese sobre
sua própria opinião. Apenas coloca o problema essencial da necessidade de
fundamentação do conhecimento sob uma perspectiva imparcial e universal. É a exigência
da legitimação do conhecimento, colocada a partir do postulado de um MÉTODO
que se mostre apto a validá-lo.
Sócrates
nomeia o seu método como sendo a Maiêutica (a arte da obstetrícia). Ele o
afirma como a arte de partejar a alma dos homens em seu trabalho de conceber a
verdade. Sócrates mesmo nada sabe, mas pode, através do seu método, conhecer a
verdade ou a falsidade do que assim vem à luz, não dele, mas daquele a quem
assiste.
Este
método é aplicável por meio da DIALÉTICA, a arte de formular os problemas e as
questões apropriadas em cada caso, interrogando o ouvinte e levando-o a
construir o discurso verdadeiro a respeito do seu próprio pensamento.
Vimos
que até a época da sofística a dialética era uma espécie de jogo de perguntas e
respostas em que os oponentes tentavam induzir um ao outro à contradição.
Sócrates utiliza seu método de perguntas com outro intuito, o de encontrar a
verdade.
Assim,
aquilo que ele denomina como dialética é agora o exercício de formular os
problemas e as questões apropriadas em cada caso, interrogando o ouvinte e
levando-o a construir o discurso verdadeiro a respeito do seu próprio
pensamento. A Maiêutica de Sócrates é na verdade o método dialético, que
desloca o sentido da filosofia, conduzindo-a como interrogação sobre a verdade.
O
elemento no qual se dá a conversação é a IRONIA, com a qual Sócrates desmente
toda pretensão a um pré-saber possuído por ele mesmo ou pelo interlocutor,
mostrando assim que nenhum dos dois sabe de antemão aquilo que examinam.
Mas,
enquanto Sócrates reconhece a própria ignorância, sua ironia leva-o a
demonstrar a do interlocutor, que pensa que sabe algo de antemão e a quem todos
atribuem este saber. É então que Sócrates pode ser considerado o mais sábio de
todos os homens.
Por
reconhecer que nada sabe, demonstra que o saber verdadeiro (Episteme) não
equivale à simples opinião (Doxa), enquanto os outros não o percebem e costumam
aceitar uma coisa pela outra.
A
aplicação deste exercício de conversação tem um resultado prático. É sua
“missão” junto aos semelhantes. E tem
também um sentido teórico mais abrangente que, como vimos, influenciará toda
reflexão posterior. Sócrates mesmo não escrevia. Sobre ele há testemunhos
hostis como do comediante Aristófanes (As
nuvens, peça teatral), e de Porfírio (História
dos Filósofos).
Todavia,
surge um gênero literário de diálogos em que seus discípulos procuravam
transcrever episódios de suas conversações, atribuindo-lhe o papel principal. É
o caso de Platão, que sistematiza a doutrina Socrática a ponto de atribuir-lhe
um verdadeiro conjunto teórico organizado, o qual constitui na verdade a
filosofia platônica – o primeiro sistema filosófico completo, que estudaremos a
seguir.
Toda
a obra de Platão é escrita em nome de Sócrates, inclusive uma Apologia (defesa), que ele faz de seu
mestre. Mas, naturalmente, as concepções
assim ordenadas devem ser consideradas como elaboradas pelo próprio Platão,
embora admitindo que devem partir da influência exercida sobre ele por
Sócrates.
Há
também alguns fragmentos de Fédon e Esquines reproduzindo diálogos, alguns
dados proporcionados por Aristóteles e uma obra denominada Memoráveis, na qual Xenofonte procura reproduzir o discurso do
mestre.
Sócrates
recoloca o pensamento no âmbito do ser. O devir é a aparência contraditória das
opiniões, que desconhecem a natureza do que exprimem. Porém, o ser que devemos
conhecer é a verdade daquilo que afirmamos.
O
sofista afirma qualquer coisa: ele fala por falar. Mas, à razão repugna que algo seja assim e
não assim, ao mesmo tempo. Eis porque
Sócrates, mesmo sem ter uma resposta prévia, pode identificar o discurso
verdadeiro e apontar o discurso falso. Uma afirmação conforme à razão, válida
em si mesma, é dotada de total coerência intrínseca e não porta contradição
alguma. À Retórica contrapõe-se a Maiêutica. Não é qualquer afirmação que é válida,
mas, apenas aquela que satisfaz aos critérios da razão, comum a todos.
Mesmo
no sentido prático, Sócrates cria uma consciência ética, que aponta para a
identidade fundamental dos seres dotados de razão. A virtude é o conhecimento
do que é conforme à razão e o erro se deve à ignorância, sendo involuntário e
devido ao ater-se à aparência e à simples opinião particular.
O
“Saber que não sabe” equivale à recusa de identificar o conhecimento com a
simples opinião além de uma veemente oposição ao relativismo dos sofistas. É
uma denúncia da ilegitimidade de sua erudição e uma demonstração de que
convencer ou crer não equivale a conhecer, nem deve substituir ou denegar essa
necessidade da validez, do conhecimento verdadeiro enquanto tal. Por tudo isso, Sócrates se distanciou demais
do que era considerado comum e aceito pelos poderosos da época, afrontando a
sofistica e o próprio regime democrático.
Assim,
foi julgado e condenado, aos 71 anos de idade, a envenenar-se com cicuta.
Recebendo oferta de condições de fuga, Sócrates recusa-a, identificando-se
totalmente com as leis da cidade. A acusação era de corromper a juventude,
levando-a a negligenciar os deveres para com a família e o culto cívico aos
deuses.
No entanto, a recusa de
Sócrates equivalia para ele a uma comprovação de sua própria liberdade. Sócrates durante toda
a vida fora um CIDADÃO, isto é, um indivíduo que, por sua livre escolha e
consciência, atestava a legitimidade dos atos e decisões da cidade. Aceitar a
condenação nada mais era do que fazer valer essa autonomia, comprovando assim a
verdade subjacente a tudo o que ele viveu.
.
Platão
O
século IV é um período de irremediável decadência na antiga civilização
helênica. Desde o final do século V, começa o processo de desagregação, com as
guerras entre as cidades-estados que disputam com Atenas a preponderância, a
hegemonia sobre as outras. Enfraquecidas por tais rivalidades internas, elas
sucumbem ante a invasão do Império Macedônio, cujo rei Filipe II impõe
progressivamente o seu domínio sobre todos os gregos (338 a. C.). A Hélade não consegue recuperar sua autonomia
política. Os Macedônios são mantidos no
poder até o séc. II a. C., quando os romanos incrementam o movimento
expansionista que os fará abarcar praticamente todo o mundo antigo.
Mas
o séc. IV é também o século socrático por excelência. Nele se constituem as reflexões de Platão e
Aristóteles, ambos marcados indelevelmente da influência de Sócrates e
objetivando o desenvolvimento de suas questões mais básicas.
Neste
sentido, a obra de Platão é decisiva. É o fator que inverte a direção decadente
historicamente determinada pela desagregação política da Grécia antiga, a ser
definitivamente subjugada pelos impérios Macedônio e Romano. Tendo plasmado na
filosofia as bases fundamentais do exercício teórico necessário ao
desenvolvimento do conhecimento humano, à Grécia é assegurada uma ascensão em
influência cultural garantida pela própria filosofia, cuja abrangência e
importância é, a partir daí, cada vez maior.
Platão
estabelece, através da delimitação conceitual da ESSÊNCIA, um domínio próprio
ao exercício filosófico – o INTELIGÍVEL. Agora, a filosofia adquire autonomia
como forma de conhecimento, podendo distribuir seus objetos em áreas
organicamente articuladas de acordo com o modo pelo qual é constituído este
domínio. A filosofia Platônica é ainda
hoje considerada por muitos estudiosos como a filosofia originária, estando
toda a produção neste campo em íntima conexão com o platonismo e de uma forma
ou outra, sendo-lhe tributária.
Platão
nasce em 427 a. C. Quando completa quatro anos, começam as guerras entre as
cidades, rivalizando com Atenas e entre si pela disputa da hegemonia. Aos 23
anos, assiste à vitória de Esparta sobre Atenas e a substituição da democracia
por uma tirania, composta de trinta homens representantes da aristocracia,
sendo Crítias, o chefe, tio de Platão. Esparta é caracterizada por seu regime
avesso à democracia e à liberalidade atenienses. É o núcleo exemplar da
mentalidade aristocrática e conservadora.
Os
trinta tiranos sobem ao poder em 404 a. C. Mas já em 407 a. C., aos 20 anos,
Platão tornara-se discípulo de Sócrates. Platão, ao que parece, não pretende se
por à parte da atividade política direta, como Sócrates, que almejava apenas o
interior dos homens, mas, não uma liderança institucional sobre eles.
No
entanto, talvez influenciado pela impecável retidão da moral socrática, Platão
recusa os convites que recebe para participar no governo dos trinta. Com
efeito, já em 403 a. C., os trinta tiranos são destituídos do governo de
Atenas, em meio às maiores revoltas, devidas à sua inescrupulosa administração.
Com
a aquiescência de Esparta, a democracia volta a ser exercida em Atenas.
Porém,
é sob esta forma de organização política, que, em 399 a. C., Sócrates é
condenado. Tamanha injustiça não pode deixar de impor a revolta e a
perplexidade entre seus amigos e discípulos. Há indicações no sentido de que
estes, entre os quais Platão, até mesmo abandonam Atenas na ocasião, em repúdio
a tal ato, estabelecendo-se em Mégara. Em todo caso, alguns anos depois, Platão
inicia uma série de viagens.
Dentre
os lugares que visitou, Platão trava conhecimento, em Siracusa, com Díon,
cunhado do novo tirano local, e procura então aplicar aí o seu anseio de ação
política, ao tentar, através de sua influência, fazer do tirano o rei filósofo,
de acordo com o seu modelo do estado perfeito. Mas este não se ajusta à
exigência platônica e não encarna as qualidades do rei filósofo.
Após
uma série de peripécias, Platão torna-se alvo da hostilidade do tirano, que
inclusive chega a vitimar o próprio cunhado. O fato é que Platão é em seguida
resgatado por amigos, voltando a Atenas, aos quarenta anos, e fundando uma
escola de filosofia, às portas da cidade, nos jardins de Academos, a qual é,
devido a isto, denominada Academia. Esta escola perdurará até o ano 529 da
nossa era.
Anotando
as lições do Sócrates, Platão dá forma literária a essas anotações,
transformando-as em diálogos, nos quais apresenta Sócrates exercitando a
Maiêutica entre sofistas e demais cidadãos atenienses. Torna-se, assim, uma
questão problemática saber até que ponto o que Platão apresenta como sendo a
doutrina de Sócrates deriva apenas do mestre ou incorpora elementos do próprio
pensamento platônico.
Em
todo caso, podemos afirmar que há em comum com Sócrates a preocupação com a
formulação da filosofia em termos de exercício racional e discurso verdadeiro.
Platão
não pretende pôr-se à parte da atividade política direta, como Sócrates, que
almejava apenas o interior dos homens, não uma liderança institucional sobre
eles. Platão também não se contenta com a constatação da necessidade do
conceito a partir de um estado de ignorância. Ele pretende, ao mesmo tempo,
fornecer um projeto político e uma doutrina filosófica da verdade, fazendo com
que esse projeto pareça tanto mais aceitável quanto mais garantido pelo
conhecimento do real.
A
intenção socrática de possuir o conhecimento real daquilo sobre o que a
linguagem se expressa corresponde em Platão à necessidade da posse de um conceito,
ideia ou significado, como realidade da coisa expressa através da palavra.
Além
da atividade docente, Platão escreve uma vasta obra, caracterizada pela forma
do diálogo. Costumam ser classificada do seguinte modo:
-
Diálogos Socráticos ou Aporéticos (problemáticos), por ter sempre Sócrates como
personagem central e pela posição costumeiramente assumida por Sócrates da
recusa da enunciação de uma resposta conclusiva às questões e problemas por ele
propostas: A Apologia de Sócrates, Críton, Laques, Lísis, Carmides, Eutifron, Hípias Menor,
(e, talvez, o Hipias Maior), Íon, Protágoras
e Górgias.
-
Diálogos da Transição, marcando a progressiva conquista da formulação de uma
filosofia própria, para além das posições genuinamente socráticas: Menon, Fédon, o Banquete, a República, o Fedro, o Eutidemo, o Menexemo, o Crátilo.
-
Diálogos da Maturidade, que caracterizam o esforço de Platão em reordenar e
reestruturar sua filosofia: Parmênides,
o Teeteto, o Sofista, o Político, Timeu e Crítias.
A
influência filosófica principal de Platão é, como vimos, Sócrates. À diferença
dos sofistas, que ensinavam por meio de discursos preparados para um grande
público ao qual eles esperavam seduzir, Sócrates conversa com seus semelhantes,
quase que informalmente. Preocupado em contar com a participação do
interlocutor que lhe responde, confirma ou contradiz, ele também se esforça por
se fazer compreender, exercitando em si e nos outros a capacidade natural da
razão.
No
entanto, o interesse de Sócrates limita-se ao domínio da ética e dos valores
humanos. O que Sócrates produz assim abrange ao mesmo tempo uma ruptura – a
recusa da Doxa (opinião), como conteúdo do saber – e uma exigência – a
determinação do conceito como definição universalmente válida pelo critério da
razão.
É
aí que encontramos a origem da reflexão platônica. Para ele, o exercício da
filosofia é a construção da linguagem integralmente justificada, a busca do
LOGOS, que em grego significa linguagem, mas também a razão, isto é, a
linguagem dotada de sentido.
O
diálogo, gênero literário genuinamente platônico é, assim como a conversação
socrática, a tentativa de falar o que é verdadeiro, o que equivale a atingir o
conhecimento possível do real. Esta
natureza racional da linguagem é exercida como dialética, isto é, a capacidade
de articular a repartição adequada das questões e termos pertinentes a cada
assunto, ao passo que permite a delimitação entre o que é justo, como
verdadeiro e o que é falso, pela repugnância à contradição, e pela forma da
relação entre as ideias.
Até
certo momento, Platão limita-se a estabelecer a filosofia no âmbito socrático,
ainda que, formalizando-o através da composição crítica e textual dos diálogos.
Assim, no Laques, no Protágoras, no Górgias, vemos Sócrates aplicando o seu método maiêutico na busca
de uma definição da coragem, da virtude, do ensino retórico, respectivamente,
sempre recusando a objetivar sua própria resposta, apenas propondo a
necessidade do conceito, desconhecida por seus interlocutores atrelados à
certeza de suas próprias opiniões.
A República
é o texto em que Platão se emancipa da tarefa de meramente descrever os
encontros e conversas de Sócrates com os cidadãos atenienses. Agora, ele é
induzido, pela exigência socrática, a “responder” ao apelo das questões que
Sócrates havia lançado, sem resolver.
Na
República o tema é central: trata-se
de postular a necessidade, no caso de se quererem formular as bases do Estado
ideal, de uma definição da justiça. Ao mesmo tempo que se mantém na mais
característica motivação socrática, esse é também “o” tema propriamente
filosófico, já que a justiça é o equivalente da própria racionalidade. Platão
estabelece a relação entre a justiça e a racionalidade, uma vez que a justiça
constitui a medida certa da repartição harmônica.
Essa
repartição justa ou racional é a mesma que se encontra entre as partes da alma
(intelectual, volitiva, instintiva), e as classes sociais do estado perfeito
(governantes sábios, guerreiros corajosos, trabalhadores dotados de
autodomínio). Mas a justiça ou razão atua também na conformação de cada parte
ou classe ao seu próprio âmbito.
Na
formação histórica do estado jurídico e democrático na Grécia, caracterizava-se
a justiça como a virtude (Areté) por excelência, que resumia todas as outras.
Era a própria legalidade constituída como tal. Platão, de certo modo, mantém
essa noção, mas a ampliando, por sua identificação expressa enquanto
racionalidade. Dessa maneira, para ele a justiça é o elemento capaz de embasar
um modelo de Estado perfeito, e, ao mesmo tempo, deve fundamentar-se no mais
íntimo do homem, em sua própria alma, não sendo compreensível como simples
legalidade resultante do acordo ou norma humana (NOMOS), mas como natureza
(PHYSIS) fundamental do universo e do ser humano.
Platão
situa, dessa forma, a motivação ética socrática na mais abrangente imbricação
das ordens social, pessoal e cósmica, instâncias equiparadas por sua relação
com a justiça, isto é, com a racionalidade. A ordem justa tem que valer para o
domínio interior do homem, como para o âmbito das relações exteriores, porém,
sendo racionalidade, atua também como critério filosófico do conhecimento.
No
livro VI da República, após ter
estabelecido a excelência e a necessidade da justiça, e em seguida ao
planejamento dos estatutos da cidade perfeitamente justa, Platão principia a
apresentação de sua teoria das ideias. O que determina, no
desenvolvimento narrativo do diálogo, a exposição da teoria, é a necessidade de
princípios imutáveis, que sirvam de modelo ao rei-filósofo, governante da cidade
perfeita.
É
assim que Platão responde ao apelo socrático da exigência do conceito. É
legítimo postular tal necessidade da validez do conhecimento em geral, uma vez
que é perfeitamente delimitável um domínio fundamental do conhecimento no qual
se situam tais princípios imutáveis como aquilo que é por si mesmo. São as
ideias (EIDOS) ou essências (OUSIA), que existem sem serem visíveis. É o
domínio do SER, do puramente inteligível como tal.
Enquanto
das demais ideias temos condições de intuir a essência através do modo pelo
qual elas modelam o mundo sensível, sendo compreensíveis através do exercício
dialético, o Bem como princípio supremo das próprias ideias é irredutível ao
domínio empírico (da experiência), como também ao discurso.
Podemos
indiretamente compreender o que é o Bem, apenas por analogia ou comparação, e a
melhor imagem que podemos utilizar para isso é o sol que ilumina e dá vida aos
seres, organizando-os no sistema da natureza e tornando as coisas visíveis.
O
Bem, ideia das ideias, fundamenta e ordena a existência das essências,
possibilitando teoricamente a imbricação a que nos referimos, efetuada através
do conceito da justiça, entre os domínios da ação individual, social e em
relação ao cosmos. Neste sentido, saber não é somente conhecer o que é, mas
também apreender o que vale, equivalendo a agir bem.
Como
as coisas materiais são cópias modeladas pelas ideias ou essências, os seres
humanos são almas eternas revestidas pelo corpo material. A alma provém do
mundo das ideias, que é o mundo real, enquanto a matéria é um mundo de
aparência, o sensível sendo apenas imagem do inteligível. O exercício dialético
oferece o ensejo para a reminiscência, a recordação da alma daquilo que
ela conhece do mundo inteligível, de onde veio. Por isso, para Platão o
conhecimento é inato.
A
realidade do inteligível como domínio das ideias permite a constituição da
filosofia como saber fundamental. A postulação deste domínio das ideias
separadas do sensível possibilita o juízo, a afirmação ou a negação, como categoria
lógica e modelo da inteligibilidade, enquanto que o princípio do Bem fundamenta
e ordena o sistema das ideias. As coisas materiais são apenas aparências ou
cópias do modelo real, as ideias. A matéria é o domínio do devir, do não
inteligível. Só a ideia é o domínio do ser, da racionalidade ou do cognoscível.
O conhecimento aparece como verdadeira liberdade em relação ao engano e à
coação dos sentidos.
O
sistema filosófico platônico pode ser apreciado sob dois aspectos
complementares. Quanto ao modo da exposição, Platão engloba nos diálogos as
múltiplas influências que recebe em sua formação pessoal, amalgamando-as
harmoniosamente à riqueza das formas presentes no meio cultural da Grécia. Platão compõe então uma obra impressionante
por sua beleza e pela abundância das referências das quais se nutre e que são
habilmente entrelaçadas.
Vemos,
por exemplo, o artista que nos diálogos constrói mitos capazes de iluminar o
sentido da intuição, o dramaturgo capaz de situar toda a ambiência da
conversação socrática, o erudito que retrata as concepções e tendências da
época, o político que, preocupado com a ordem urbana, idealiza a constituição
ideal do estado.
E
quanto ao que se refere ao conteúdo original da concepção platônica, é aqui o
momento em que podemos observar o traço da genialidade de Platão. Pois a esta
apresentação tão relacionada ao ambiente cultural do tempo, faz surgir um
conteúdo totalmente inovador, surpreendente mesmo, por ser capaz de criar uma
ambiência nova na qual a filosofia vai situar-se em um nível autônomo do seu
exercício.
Platão
situa a motivação ética socrática na mais abrangente imbricação das ordens
social, pessoal e cósmica, instâncias equiparadas por sua relação com a
justiça. A ordem justa tem que valer
para o domínio interior do homem como para o âmbito das relações exteriores,
mas também como critério da própria filosofia enquanto critério do conhecimento.
Platão
demonstra então como as possibilidades do acesso ao conhecimento supõem graus,
que estão articuladas à repartição entre os domínios sensível (das coisas
efêmeras sempre em devir) e inteligível (das ideias eternas e imutáveis como o
ser ou o real). Seria como uma reta, na
qual visualizamos quatro seguimentos.
O
primeiro, mais inferior, é o domínio do não-ser, dos reflexos, das
representações ou imitações, das imagens (EIKASIA). É o grau da conjuntura,
onde só é possível a impressão vaga e fugidia, mas nenhuma asserção.
Em
seguida temos o domínio das realidades naturais, do devir, da experiência
perceptiva e da crença (PÍSTIS). É o domínio a que pertencem as técnicas
empíricas, as asserções que não possuem a exigência da legitimidade e da
validez em geral, referindo-se apenas ao local e aparente.
Estes
dois seguimentos referem-se ao mundo sensível, das coisas visíveis, correspondendo
ao grau da opinião (DOXA). Os próximos
seguimentos relacionam-se ao domínio do inteligível.
Assim,
temos o grau imediatamente posterior, ao qual pertencem a geometria e ciências
correlatas, que procedem por raciocínio e prova, partindo de hipóteses
(DIANÓIA). É um domínio que possui um critério de verdade, pois se estabelece
como relação entre ideias, mas apoiando-se ainda em imagens das coisas
sensíveis, assim como os matemáticos utilizam figuras para construir postulados
geométricos.
É
no domínio seguinte que a filosofia se estabelece, pois neste residem as
ideias, sendo o puro inteligível ou real como grau do verdadeiro conhecimento
(NOESIS).
O
objeto do discurso da filosofia, do diálogo como linguagem filosófica, alcança
aqui um domínio positivo e não se limita mais, como em Sócrates, a apontar para
a necessidade dele, sem, no entanto, chegar a apresentá-lo como tal. Pois,
sendo ontologicamente fundamentado (isto é, sendo concebido como real), o mundo
das ideias estabelece também a base de fundamentação das hipóteses científicas
e explica a constituição de todos os outros domínios, fornecendo, através da
dialética, a inteligibilidade do ser.
Dessa
maneira, os graus do conhecimento se modelam sobre os graus do ser e neste
sentido a dialética não é apenas uma argumentação do bom senso, mas é a
articulação das ideias entre si a um princípio, permitindo a formulação de uma teoria,
que em grego significa contemplação e em sentido platônico é a
contemplação das ideias. A realidade do inteligível, como domínio das ideias,
permite a constituição da filosofia, como saber fundamental e a postulação
deste domínio, das ideias separadas do sensível, possibilita o juízo como
categoria lógica e modelo da inteligibilidade, enquanto que o princípio do bem
fundamenta e ordena o sistema das ideias.
Chama-se
processão ou procedência, a esta composição das coisas a partir do seu modelo
ideal. Platão, no Timeu, descreve o
modo pelo qual o mundo sensível é plasmado a partir do inteligível. Admite ele
aí duas ordens fundamentais da realidade. Há a matéria, desordenada e sem
limitação, domínio destituído de forma ou inteligibilidade. Há, separado deste,
as ideias, o domínio do inteligível puro, porém destituído de materialidade.
Platão faz intervir entre ambos a ação do Demiurgo ou artífice divino, que
estampa ou imprime na matéria, concebida como receptáculo, matriz ou lugar, a
forma ou ideia.
Ele
utiliza aí o exemplo pelo qual o artífice seria como o pai e o receptáculo
seria a mãe. O que assim é gerado é o devir onde as imagens das ideias estão em
incessante alternância, sendo imitadas ou copiadas em razão da atração
irresistível que exercem sobre o sensível e sendo o resultado deste processo de
participação o mundo das coisas sempre transitórias como MISTO do princípio
inteligível com a base sensível.
Quanto
aos corpos formados pelo Demiurgo, são em seguida dotados com uma alma, força
da consciência que vivifica a matéria. Se o que se apresenta como o mundo é
deste modo um misto da matéria ilimitada e da determinação formal, o que é
constituído nesta ordenação do mundo é a vida, como residência da alma em
corpos transitórios.
Platão
recupera aqui as crenças do seu tempo, notadamente como apareciam na formulação
da seita órfico-pitagórica, a qual ensinava a crer na transmigração da alma
como processo de purificação. Dessa forma, para Platão, de algum modo, por
processos naturais ou para expiação de culpas, a alma se reveste do corpo
material e, devido a esta contingência, ao mesmo tempo é afetada pela aspiração
ao conhecimento, ao inteligível puro com o qual comunga o seu próprio ser, e é
também limitada pela materialidade, a qual, embora participando da ordenação da
ideia, é em si mesma desordenada e, em relação ao modelo, degradada e
imperfeita.
O
conhecimento, conforme o platonismo, que é intuição ou iluminação como teoria
(contemplação) da ação do inteligível, não é jamais total e completo, pois está
sempre delimitado pela circunstância material.
Platão
retrata esta aspiração e limitação da alma no mito do Eros, no diálogo
denominado O banquete. Ali vemos o
Amor (EROS), filho da Pobreza e do Engenho, ser como o meio entre a coação do
sensível (a beleza do corpo, a atração erótica) e a contemplação do inteligível
(a beleza da alma, o anseio pelo conhecimento).
A
intuição de uma beleza puramente ideal impulsionaria a filosofia e traria a
confiança em um mundo além dos sentidos, como verdadeira pátria da alma.
Aparece aqui o sentido do conhecimento como reminiscência (Ananmesis).
No Mênon, como também no Fédon, Platão afirma que, sendo eterna e
tendo visto as ideias no mundo do qual procede, contando também com o que
aprendeu em suas vidas anteriores, a alma obtém, pela prática da filosofia e
das ciências, a lembrança das ideias.
Platão
propõe a este respeito, no Fedro, um
mito no qual narra a viagem da alma pelo céu, antes de vir ao mundo. Algumas,
mais observadoras, viram uma quantidade maior de ideias em uma região
supraceleste, enquanto outras, mais apressadas, viram só um pequeno número
delas.
Portanto,
o que conhecemos do mundo sensível é lembrança daquilo que vimos no mundo
inteligível e as ideias nos são inatas, sendo a filosofia, como também as
ciências, processos pelos quais somos levados a esta lembrança.
O
conhecimento aparece assim como verdadeira liberdade em relação ao engano e à
coação dos sentidos. Platão utiliza-se, no livro VII da República, de outro mito para exemplificar este processo. Em
concordância com esta narrativa, imagina-se uma caverna onde os homens, feito
prisioneiros, estariam com as costas voltadas para a abertura, onde arde um
fogo. Eles estão de frente para a parede interna da caverna e no espaço às suas
costas passam algumas pessoas carregando coisas, as quais, não sendo
diretamente visíveis pelos prisioneiros são, no entanto, observáveis por estes,
na forma de sombras, assim projetadas pela luz do fogo, na parede à sua
frente.
Se
um deles pudesse ser liberto e subisse através da abertura da caverna,
contemplaria o sol e, após ter acostumado a visão à luz, se deslumbraria ante a
beleza e a claridade que veria então. Este homem é comparado ao filósofo que
alcança o conhecimento do bem. No entanto, Platão insiste em que o filósofo,
exemplificado no prisioneiro que se liberta, deve voltar à caverna e instruir
os outros homens a respeito do sol. Não obstante, ele poderia até ser
considerado louco e ser atacado por seus semelhantes, que duvidariam do seu
testemunho.
Através
dos mitos, Platão procura compensar a contingência material da linguagem para
expressar o inteligível. Assim, idealiza também a utopia do estado perfeito,
governado pelo rei-filósofo. Platão identifica, como vimos, três tipos de
pessoa: os seres de ouro, escolhidos entre os guardiões da cidade para ocupar o
cargo do governante; os seres de prata, que seriam os guardiões da cidade, os
guerreiros; e os seres de bronze, que trabalhariam no artesanato e na
agricultura. Embora sendo avesso à
democracia, Platão sugere, em sua República,
a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres.
Mas,
é principalmente em sua obra As leis,
escrita na velhice, que Platão especificamente se propõe a aplicar a sua
concepção de ciência à política.
Como
vimos, o exercício dialético permite a contemplação das ideias enquanto
produção teórica. Porém, há duas aplicações dialéticas possíveis.
Uma,
ascendente, como constituição propriamente filosófica do conhecimento,
considera a multiplicidade inerente ao misto sensível para daí extrair uma
definição como unidade ideal, isto é, para reduzir a multiplicidade sensível à
unidade da ideia, através da divisão desta em suas espécies e conforme suas
articulações naturais.
Já
a dialética descendente permite tornar os fenômenos do mundo objetivo
pensáveis, através da análise do próprio misto sensível com o intuito de
construir modelos de inteligibilidade como constituição das ciências.
Enquanto
na República a cidade ideal era quase
um mito, no sentido de ser concebida para além da objetividade, e Platão mesmo
afirma que tal estado só seria possível para os deuses e os filhos dos deuses, nas
Leis Platão pretende formular uma
ciência da legislação plenamente aplicável à cidade “de segunda ordem”, isto é,
cidades deste mundo, misto entre sensível e inteligível.
Nesta
obra, além de estabelecer a educação (Paideia) como núcleo da organização do
estado, que deve zelar por ela em todos os seus matizes, desde a infância à
própria geração das crianças, Platão afirma também uma fé em Deus que
inspiraria todas as instituições do estado por ele preconizadas.
Neste
sentido, fala-se mesmo de um teocentrismo das Leis. Platão estabelece também a atribuição do poder em uma espécie
de assembleia composta por magistrados, e, de um modo geral, podemos afirmar
que a política é a motivação que permeia toda a obra de Platão, no sentido da
possibilidade de uma organização do estado fundamentada em princípios oriundos
da filosofia.
Também
da época da maturidade é a reordenação, efetuada por Platão, em sua teoria das
ideias, identificando-as com números, à semelhança dos pitagóricos, mas,
diversamente destes, concebe as ideias-número como arquétipos absolutos,
limitando-os à série da década, a qual não derivaria de operações e relações
matemáticas. Assim, como cada número é uma ideia e cada ideia é a causa da
existência das coisas sensíveis, os números – ideias são causas das coisas
existentes.
Porém,
dessa forma concebidos, os números ideais não se confundem com os números
matemáticos, capazes de entrar em relação entre si. Há, pois, três classes de
seres: as ideias-número, os seres e números matemáticos e as coisas sensíveis
numeráveis.
Para
melhor estabelecer a natureza da ideia e a participação das coisas em seus
modelos ideais, Platão estabelece uma repartição de elementos básicos que
conformariam a existência das próprias ideias: O uno, limite, determinação numérica
fixa e finita, e a dualidade, como par do infinitamente grande e do
infinitamente pequeno, enquanto instância do ilimitado. O uno e o múltiplo
seriam elementos plásticos ideais capazes de recompor também nos mistos a
relação numérica formal fixa da ideia com a fluência ilimitada.
Platão
desenvolve seu sistema através de numerosos diálogos, todos conservados. Sua doutrina é elaborada ao longo desta
extensa produção textual, na qual procura também afastar as objeções possíveis.
Dessa
maneira, ele próprio antepõe as críticas e dificuldades prováveis, inerentes ao
conteúdo de sua teoria. Tal procedimento aparece claramente no diálogo Parmênides, no qual figura, ao lado do
jovem Sócrates, o personagem do velho filósofo Parmênides, que empreende a
crítica à doutrina das ideias.
Realmente,
a proposta dos princípios ideais imutáveis como modelos dotados de uma
existência separada, independente do mundo sensível, isto é, transcendente,
este domínio do puramente inteligível ontologicamente fundamentado, é tanto a
ordenação autônoma da filosofia como também uma espécie de divisor de águas.
Há
a partir daí entre os filósofos, aqueles que aceitam esta transcendência, esta
dualidade dos mundos, e há os que a rejeitam, postulando apenas uma ordem do
mundo como real embora situando nesta uma
possibilidade de exercício do inteligível, como âmbito filosófico e
científico.
Em
todo caso, o platonismo permite esta delimitação da filosofia, fundando-a
mesmo, a qual vem a ser como tal, para além das especulações pré-socráticas
limitadas à PHYSIS, da retórica sofistica como domínio da DOXA, e, mesmo tendo
sido inspirada e impulsionada por ele, também da limitação socrática às
questões da ética.
Ordenada
como um conjunto orgânico, atinge o limiar de um domínio próprio, enquanto
forma especificamente filosófica do conhecimento e conquista assim o futuro,
para além da polis grega.
.
Aristóteles
Aristóteles,
filho de Nicômaco, nasce em 385 a. C. Nicômaco é médico e conselheiro do pai de
Filipe II, o rei da Macedônia, que, como vimos, estenderá sua soberania também
à Grécia. Aristóteles vive assim sua infância na corte, mas, aos seis anos,
tornando-se órfão pelo lado paterno, retorna a Estagira, sua cidade natal,
Entre os dezessete e os dezoito anos, viaja para Atenas, tornando-se discípulo
de Platão na Academia.
Aristóteles
escreve, provavelmente à época da sucessão de Platão na Academia, o tratado Da Filosofia, no qual inicia a sua
crítica à teoria das ideias de Platão, notadamente em sua formulação matemática
da maturidade. É, inclusive, devido à sua particular discordância a esta
direção de pesquisa que se deve principalmente a sua saída da Academia, pois
Espeusipo, que sucede o mestre, imprime justamente esta feição matemática aos
estudos no estabelecimento.
Além
da crítica às ideias separadas e notadamente às ideias-número, precedida por
uma exposição histórico-crítica da filosofia, esta obra contém ainda uma teoria
teológica astral, considerando como deidades os corpos celestes e postulando a
existência do Deus supremo da qual fornece uma prova ontológica e que
Aristóteles concebe como um motor imóvel, origem de todo movimento.
Há
também aí uma cosmologia, a qual desenvolverá posteriormente em outros livros,
na qual faz o mundo, como extensivo ao ato do Deus supremo, também eterno e
divino, em franca oposição ao platonismo.
Parece se situar ainda nesta fase um tratado Das ideias e o início da composição da sua obra lógica com Tópicos, seguido de um primeiro esboço
das Categorias.
Estas
obras iniciais são as únicas que conhecemos destinadas ao público. O maior e mais importante conjunto de obras
de Aristóteles são na verdade apontamentos organizados para os cursos que
ministrava em sua atividade docente, nos quais a crítica contemporânea não
hesita em demonstrar colaborações e trechos inteiros que seriam anotações de
alunos, sobre suas lições.
Após
esta primeira estada em Atenas, em que frequentou a Academia de Platão,
Aristóteles viaja, por volta de 345 a. C., a Assos, em Tróia, e é aí recebido
pelo governante local Hermias de Atarnea. Embora começando já a delinear a
tendência mais própria ao seu pensamento, Aristóteles move-se ainda na esfera
do platonismo, pois o que pretende é um aperfeiçoamento da determinação do
âmbito próprio ao exercício da filosofia como inteligível e universal o qual,
proposto já em Platão, necessitaria agora de um desenvolvimento que o levasse à
superação das dificuldades referidas no tratado Da Filosofia.
Em
Assos, acompanhado por outros discípulos de Platão como Xenócrates e Corisco,
descontentes como ele da orientação particularmente voltada à matemática
adotada por Espeusipo, Aristóteles participa das atividades da escola platônica
local. Hermias, o governante, é pai
adotivo de Pítias, com quem Aristóteles se casa posteriormente em Mitilene,
onde encontram-se refugiados, por ocasião da queda do governo de Hermias.
Em
Assos e Mitilene, Aristóteles compõe os escritos da Política, Da física, Do céu, Da geração e da corrupção e Os
analíticos, onde desenvolve a construção da Lógica como sistematização
aperfeiçoada da dialética de Platão. Acumula também observações biológicas, que
fundamentam a História dos animais, e
alguns dos livros integrantes do Partes
dos animais. Também deste período é o tratado da Ética a Eudemo e a parte inicial da Metafisica.
É
nesta época que recebe o convite de Filipe II para exercer a atividade de
preceptor do jovem príncipe Alexandre. Aristóteles aceita a tarefa e permanece
na corte da Macedônia por algum tempo, em uma espécie de universidade
construída especialmente para este objetivo no Bermion, o Santuário das Ninfas
próximo à cidade de Mieza. Logo Alexandre é chamado a preparar-se para assumir
o império e Aristóteles volta a Estagira, com a missão de reconstruir a cidade,
que havia sofrido a invasão dos Macedônios. Agora, com o apoio da corte,
Aristóteles restaura a cidade e desenvolve a atividade de legislador.
Nesta
fase escreve ele o tratado Da realeza
e a Compilação das constituições,
além de duas obras sobre questões estéticas (Sobre os poetas e o Homero).
Em seguida volta a Atenas.
Já
tendo assumido as características mais próprias ao seu pensamento, afastando-se
em definitivo das concepções genuinamente platônicas, embora nunca tendo
deixado de reconhecer no mestre o impulso pioneiro de suas pesquisas, Aristóteles
não retorna à academia nem a outro centro de estudos do platonismo.
Funda
ele próprio a sua escola, o Liceu, que deriva seu nome da proximidade do templo
de Apolo Líceo, e que é mais tarde denominada também o Perípato, devido ao
costume que tinha Aristóteles de ministrar suas lições enquanto passeava
(peripateo, em grego), conversando com os alunos, aos quais, devido a isso,
costumavam chamar Peripatéticos.
Alexandre,
a partir de 335 a. C., torna-se rei da Macedônia e, com seu apoio, Aristóteles organiza
sua biblioteca e desenvolve as atividades da escola. É então que redige a Ética a Nicômaco, a Poética e a Retórica, a Constituição de Atenas, os tratados Da alma e Da geração dos animais, cursos sobre O sono, Os sonhos, A sensação, A memória e em geral completa seus escritos de física com Meteorológicos, completa a Política e a obra lógica na qual agora
acresce o título Da interpretação. A
extensa coleção de seus escritos, que inclui ainda outros títulos, foi
organizada por Andrônico de Rodes, que dirigiu a Escola Peripatética no Séc. I
a. C.
Por
volta de 321 a. C., Aristóteles é alvo de um processo movido pelo partido
nacionalista de Atenas, o qual, acusando-o de impiedade, na verdade buscava
incriminá-lo, devido à sua ligação com o príncipe Alexandre, como se ele fosse
um colaboracionista da causa Macedônia.
No entanto, a própria produção dos escritos de Aristóteles desmente tal
acusação, pois sua preocupação aí é sempre com a Pólis grega, a qual busca, de
uma perspectiva teórica, reformar para justamente lhe permitir reerguer-se e
reconquistar a soberania.
Mesmo
assim, para escapar à condenação, exila-se em Eubeia, em uma propriedade da
qual é herdeiro por lado materno. Nesta época, Aristóteles vive uma segunda
união, com Herpilis. Aí permanece até 322 a. C. Aristóteles vive até os 62
anos, legando à humanidade uma das mais abrangentes obras em Filosofia.
A
ordenação do conhecimento é feita, conforme Aristóteles, entre as ciências
classificadas como Teoréticas (a Física, a Matemática, a Metafisica e a
Teologia), Práticas (a Ética e a Política) e Poéticas. Costuma-se estudar o
conjunto de sua produção filosófica repartindo-o em partes consideradas
principais como a Lógica, a Metafisica, a Física e a Ética.
Sua
filosofia conceitua o Devir é como o real, no qual se inserem a universalidade
e a inteligibilidade, requisitos da ciência e do conhecimento. Aristóteles
considera a delimitação platônica, entre o vir a ser e o ser, inútil e
supérflua. Tal demarcação, porém, se mantinha na obra de seus predecessores, e
em muitos sucessores de Platão.
Aristóteles
desenvolve a pioneira história da filosofia, uma exposição crítica das teorias
anteriormente apresentadas. A crítica aos pré-socráticos abrange a constatação
de que nenhum deles enunciou todas as causas que poderiam justificar uma teoria
da origem das coisas. Já a crítica a Platão consiste em afirmar que, apesar de
Platão ter corretamente apreendido a exigência socrática do conceito, ele errou
ao separar as ideias das próprias coisas, o que equivale a uma duplicação
destas em supostos arquétipos de si mesmas.
Em
Aristóteles, o conhecimento não é inato, como na doutrina platônica das ideias,
sempre as mesmas, que compõem a racionalidade, informam a razão. Inversamente,
Aristóteles afirma que a percepção sensível, a apreensão dos objetos dos
sentidos, é a fonte real da distinção dos dados do conhecimento, uma vez que
corresponde à assimilação das características dos objetos particulares. A
percepção sensível é o grau mais básico do conhecimento. A partir daí, no grau
seguinte, a memória atua no conjunto das percepções, abstraindo,
como soma das mesmas características, a imagem sensível, que corresponde à
FORMA comum a todos os objetos considerados semelhantes.
Em
seguida, a experiência torna-se capaz de formular, baseada na observação dos
casos particulares, regras práticas que poderão constituir as técnicas e o uso
corrente das coisas. Gera-se assim a arte, como conhecimento organizado
destas regras práticas, aperfeiçoado agora por uma fundamentação destas regras
em princípios gerais.
Na
Grécia antiga, a palavra “arte” (tekhné) não significava apenas a produção de
obras de arte, mas abrangia a noção de ofícios em geral. No estágio superior do
conhecimento, compõem-se então as ciências. Aristóteles define ciência
como conhecimento das causas que condicionam os fenômenos observáveis, isto é,
das causas fundamentais e mais universais de todas as coisas.
A
doutrina das ideias platônica limitava o intelecto como faculdade puramente
intuitiva, isto é, caracterizado como saber sempre aproximado, porque
dependente das condições sensíveis do homem no mundo material, constituído em
radical oposição ao mundo real das ideias. Aristóteles critica essa limitação.
Por sua teoria do conhecimento, podemos concebê-lo como passível de ser
formulado através de juízos completos e confiáveis sobre a natureza. Isso
porque o intelecto opera, como dedução, através do conhecimento da causa
(princípios universais), até o conhecimento, o controle e a previsão do efeito
(casos particulares).
O
conhecimento, como ciência, efetiva-se na esfera da razão e torna-se
compreensível a necessidade da lógica ou instrumento, que permite
formular a análise e equação correta dos fenômenos, a partir de um sistema que
garanta a formalização e verificação do raciocínio. Baseando-se em premissas
válidas e através de regras determinadas, o raciocínio alcança conclusões
igualmente válidas.
Aristóteles
concebe a “dialética” em um novo sentido.
Não mais apenas como um “exercício” de perguntas e respostas, mas, como
exposição geral das regras que governam o exercício intelectual, ou seja,
exposição das regras e princípios do raciocínio correto.
Neste
novo sentido da palavra, a “dialética” abrange uma “lógica”, palavra que
surgirá posteriormente, significando o estudo das regras da correção do
raciocínio, que Aristóteles sistematizou principalmente na obra em cinco
volumes Organon. Esse termo, em
grego, significa “instrumento”.
Aristóteles
concebeu a lógica como ferramenta (instrumento) de todas as ciências, pois ela
permite enunciar as condições de verdade de qualquer raciocínio expresso na
linguagem. Trata-se de regras do raciocínio, formulado como um silogismo,
conjunto de proposições composto de certas premissas de que se segue uma
certa conclusão. O silogismo é o processo que faz ver ao pensamento a
união de um atributo a um sujeito.
A
forma do silogismo, isto é, o modo e o lugar em que se dispõem os termos de
cada proposição, premissa ou conclusão, é o que permite identificar o
raciocínio e verificar se ele é legítimo ou não. Aristóteles estabeleceu todas
as combinações possíveis de silogismos válidos, o que se pode aprender com o
estudo da Lógica. As formas de raciocínio apenas aparentes, que não são
válidas, são designadas “falácias”.
Exemplo
de falácia: Sócrates é homem. Sócrates é grego. Logo, todo homem é grego.
Exemplo de raciocínio válido: Todo homem é racional. Sócrates é homem. Logo,
Sócrates é racional.
Aristóteles
formulou também uma teoria da substância, como resposta à pergunta fundamental
da filosofia, “o que é o ser?”. Ele desenvolve um conjunto de textos que expõem
uma doutrina do ser enquanto ser, a Metafísica.
Atualmente, designamos esse tipo de exposição como compondo a “Ontologia”,
disciplina que tem o Ser como seu objeto.
Aristóteles
pretende fundamentar a inteligibilidade do devir, e, para isso, é preciso
compreender como as coisas são o que são. Ele compreende a realidade de cada
coisa como sendo composta de forma e matéria. Cada coisa singular é uma substância
(OUSIA), em que uma essência imutável está implícita em uma porção de matéria.
O composto, a substância, apresenta assim algo que é variável, devido à
matéria, e algo que é fixo, eterno, sua essência. Exemplificando, o ser humano
singular apresenta algo que é sempre a humanidade, porém, a variação material
compreende a multiplicidade de atributos como baixo ou alto, gordo ou magro,
criança ou adulto etc.
O
conhecimento das coisas enquanto isso ou aquilo, isto é, nosso discernimento do
ser das coisas, é devido à nossa capacidade de abstração. Vimos que a
percepção sensível apreende os seres singulares, mas que, devido à memória,
somos capazes de identificar a característica comum de um conjunto de seres que
apresentam uma semelhança perfeita.
O
Universal é a essência da coisa assim como abstraída por nossa capacidade
intelectual. Na substância singular a essência não está separada da matéria, e
nossa percepção não lida apenas com a semelhança, mas também com as diferenças.
Todavia, nosso intelecto pode abstrair as diferenças e identificar a essência,
separando-a, no pensamento, do composto substancial. A substância primeira é o
composto singular, a substância segunda é a enunciação da definição, da
essência ou do Universal.
Enquanto
Platão fundava a racionalidade na imbricação do conhecimento e da moral,
Aristóteles distingue um domínio de conhecimento científico, em que se aplicam
as leis da lógica (episteme), e um domínio prático, em que imperam o acordo
entre as pessoas e as convenções (nomos). Assim, nesse âmbito prático, a Retórica
conserva a sua importância, como arte de argumentação e persuasão.
O
âmbito prático é aquele da Ética ou da moral, em que devem ser formulados
raciocínios apropriados, como juízos éticos. Esse raciocínio moral consiste em
encontrar o meio termo entre atitudes extremas, por exemplo, a coragem entre a
temeridade e a covardia. A Ética deve produzir a ação correta, não apenas o
discurso correto sobre a ação devida.
Quanto
à Política, Aristóteles não almeja fundar um Estado ideal, mas, observando as
formas de organização social existentes, constata ser a democracia o regime
mais adequado por sua moderação, sua capacidade de conciliar os interesses
opostos.
.
A Lógica
Aristóteles
concebeu a lógica, não como fazendo parte especificamente da filosofia ou da
ciência, mas como um instrumento necessário utilizado por ambas em seu
desenvolvimento e elaboração. Assim, formulou ele, para seus tratados de
lógica, o título “órganon”, que em grego significa “instrumento”.
Estes
escritos repartem-se em cinco títulos, distribuídos em seis livros, com a
seguinte ordenação temática: as Categorias,
que estudam os elementos do discurso, os termos da linguagem; Sobre a interpretação, a respeito do
juízo e da proposição; os Analíticos
(em dois volumes: primeiros e segundos), tratam do raciocínio formal, o
silogismo, e da demonstração científica; os Tópicos,
elaboram um método geral da argumentação, aplicável tanto às discussões
práticas quanto à indagação científica; e Dos
argumentos sofísticos, que expõem os tipos principais de argumentos
capciosos.
Porém,
o próprio Aristóteles, embora tenha sido o criador da lógica enquanto doutrina
organizada, não formulou qualquer termo para designá-la.
A
dialética, tal como praticada na antiguidade, caracterizava-se em seu uso
prático como exercício oral de disputa. Aristóteles demarca, no capítulo VIII
dos Tópicos, a diferença entre este
tipo de controvérsia cuja tônica reside na competição, e a discussão cujo
objetivo é voltado exclusivamente para a investigação da verdade, isto é, em um
espírito tanto do exame e pesquisa, como do ensino e aprendizagem. Para este
último, ao tempo de Aristóteles, não havia, segundo ele, regras gerais
determinadas como princípios universais que governassem o seu uso. Dessa
maneira, ele procura formular uma “dialética”, no sentido deste todo orgânico,
composto por tais princípios e regras da argumentação.
Mas, uma tal sistematização, como
vimos, por si mesma vai além do uso argumentativo dialético comum, no sentido
da disputa e mesmo da simples discussão, para apresentar-se como sistematização
das regras do próprio raciocínio, pois, é este o domínio pelo qual se exerce
qualquer argumentação. Era já assim que Platão compreendia a dialética como
instrumento “teórico”, isto é, que levava à contemplação da ideia.
Todavia, sem uma prévia
sistematização dos seus princípios, toda discussão recaía ou em simples
persuasão, ou, como em Sócrates, em limitar-se a um procedimento aporético
(apresentação de uma dificuldade, sem resolvê-la), ou como em Platão, em uma
divisão mais ou menos arbitrária do conceito proposto. Aristóteles concebe a
“dialética” em um novo sentido. Não mais apenas como um “exercício” dialético,
prático, mas como exposição geral das regras que governam este exercício, ou
seja, das regras e princípios do raciocínio correto.
Neste novo sentido da palavra,
“dialética” tornou-se sinônimo de “Lógica” palavra que surgirá posteriormente,
mas cujo significado vai referir-se àquilo que se constitui como regra da
correção do raciocínio, a qual começa a ser sistematizada somente a partir de
Aristóteles. Dessa forma, mais tarde passou-se a repartir os dois sentidos da
palavra conforme os dois termos adotados e a regra do raciocínio verdadeiro
passou a constituir o âmbito da definição exclusivo da lógica.
Logo no início dos Tópicos, no livro 1, Aristóteles
distingue o raciocínio dialético daquele a que chamou “demonstração”, ou
“demonstrativo”. Assim, enquanto o raciocínio dialético, que parte de opiniões
geralmente aceitas por todos, situa-se no âmbito do problemático e do provável,
costumando a limitar-se aí, o raciocínio demonstrativo parte das premissas
verdadeiras e fundamentais, como aquelas nas quais cremos por si mesmas, por
sua evidência, e somente deste modo se constituem.
Embora no Órganon os livros chamados Analíticos
tratem apenas dos raciocínios e regras da demonstração, a obra considerada em
seu conjunto ocupa-se de ambos os tipos de discurso. Aristóteles considera-os
formalmente idênticos, como procedimentos da argumentação entendida como a
dedução necessária de certas coisas, uma vez que delas se estabeleçam outras
coisas determinadas.
Somente
na elaboração filosófica dos Estoicos aparece o termo “Lógica”, mas considerada
ainda como arte do discurso persuasivo em geral, isto é, incluindo tanto a
demonstração mesma quanto a retórica. Mais tarde, porém, os comentaristas de
Aristóteles e alguns filósofos como Cícero e Galeno utilizaram este termo
“lógica” para designar estritamente a disciplina que constitui o tema dos Analíticos aristotélicos, isto é, os procedimentos
e regras exclusivas da demonstração e do discurso demonstrativo em geral.
É
assim que Boécio dará o título Lógica
à sua tradução do Órganon, a qual é
apresentada como uma introdução geral à obra denominada Isagoge de Porfirio, e é utilizada por toda a Idade Média como
fonte e referência desta disciplina.
A
proposta desta sistematização está, em Aristóteles, estreitamente vinculada à
sua concepção do conhecimento. Como Platão, Aristóteles descreve uma progressão
em graus dos procedimentos e tipos característicos do saber, mas sua
perspectiva não é de modo algum semelhante à platônica, pois, mesmo que ambos
iniciem pelo grau mais inferior da percepção sensível, esta não conserva neles
o mesmo sentido e amplitude.
Em Aristóteles o conhecimento não é de todo inato e a
percepção sensível, o grau correspondente aos objetos dos sentidos, é
considerada como fonte da distinção dos dados do conhecimento assimiláveis ao
homem, uma vez que corresponde à apreensão sensível das características dos
objetos particulares. A partir daí, no grau seguinte, a memória atua no
conjunto das percepções abstraindo, como soma das mesmas características, a
imagem sensível que corresponde à FORMA comum a todos os objetos considerados
semelhantes.
Em seguida, a experiência torna-se capaz de formular,
baseada na observação dos casos particulares, regras práticas que poderão
constituir as técnicas e o uso corrente das coisas. Gera-se assim a arte, como
conhecimento organizado destas regras práticas aperfeiçoado agora por uma fundamentação
destas regras em princípios gerais. Chega-se então à ciência como conhecimento
das causas que condicionam os fenômenos observáveis, isto é, das causas
fundamentais e mais universais de todas as coisas.
A
possibilidade do conhecimento não está, assim como em Platão, limitada ao
intelecto como faculdade puramente intuitiva, isto é, caracterizado como saber
sempre aproximado, porque dependente das condições sensíveis do homem e do
mundo, constituídos em radical oposição ao mundo real das ideias. É concebido
agora como passível de ser formulado através de juízos completos e seguros
sobre a natureza e os fenômenos, uma vez que opera, como dedução, através do
conhecimento da causa (princípios universais) até o conhecimento, o controle e
a previsão do efeito (casos particulares).
Neste
sentido, a ciência como conhecimento efetiva-se na esfera da razão e torna-se
compreensível a necessidade da lógica como instrumento que permite formular a
análise e equação correta dos fenômenos, a partir de um sistema que garante a
formalização e verificação do raciocínio, o qual, baseado em premissas válidas
e através de regras determinadas, permite chegar a conclusões igualmente
válidas.
Existem,
deste modo, para Aristóteles, dois modos em relação à aquisição do conhecimento,
que correspondem a dois meios de confirmar a validade dos elementos
apresentados: a indução, como procedimento que, partindo da observação dos
casos particulares, chega a um princípio universal, a qual prevalece no domínio
da experiência, e a dedução que, como vimos, pertence ao âmbito exclusivo da
ciência como tal.
Em
uma explanação científica ou em uma discussão de teses propostas como verdades
da ciência, ambos os meios são utilizáveis, mas o estudo da lógica orienta-se,
como vimos, no sentido da organização sistemática das formas da dedução. Esta
opera através de premissas as quais, uma vez ordenadas em forma correta,
resultam na conclusão, que encerra um conteúdo novo em relação ao que as
premissas originalmente afirmavam. Embora aqui apenas iremos delinear os seus
temas principais, pois um estudo mais completo abrange o campo de uma
disciplina especificamente voltada para este objetivo, podemos destacar duas
partes básicas no estudo da lógica: aquela que se refere à natureza das
premissas e regras que lhe correspondem e a parte referente às formas válidas
pelas quais se apresentam as conclusões.
Quanto
à natureza das premissas, é possível observar que elas sempre são dadas na
forma de proposições. Assim,
podemos considerar as proposições em si mesmas e verificar o modo pelo qual se
apresentam no âmbito da argumentação. Uma proposição (Prótasis) é uma afirmação
(Catáfase) ou uma negação (Apófase), em todo caso uma asserção ou declaração,
que se submete a um interlocutor. É composta como uma atribuição, isto é,
relacionando-se ao sujeito um atributo, como predicado do sujeito.
A
questão será então saber se o atributo afirmado do sujeito lhe pertence ou não,
no todo ou em parte. Como tanto o sujeito como o predicado são formados por
termos ou nomes, o primeiro cuidado de Aristóteles é mostrar que devemos evitar
a homonímia isto é, a designação de coisas diversas sob um mesmo termo.
Dessa
maneira, ele correlaciona algumas listas de nomes com respeito aos quais
costuma haver ambiguidade, e, de um modo geral, mostra que a preocupação
inicial na argumentação deve ser relacionada à precisão e ao conhecimento comum
entre os participantes do significado exato dos termos.
Os
elementos que compõem a atribuição, como materiais de que partem os argumentos,
formam os cinco tipos de atributo ou predicáveis. São eles: o gênero,
como o primeiro constituinte da definição, referindo-se à classe mais ampla a
que o sujeito pode pertencer. É predicado como essência e responde à indagação
do tipo “O que é”?
No
caso do homem a pergunta “o que é?” deve ter como resposta o termo “animal”. A diferença
específica é o que permite situar o sujeito nas classes subordinadas em que
se divide o gênero e, se ao homem é atribuído o gênero animal, a diferença é
“racional”. A espécie constitui a
síntese do gênero e da diferença e temos então “animal” enquanto gênero e
“racional” como diferença compondo o termo “humanidade” como espécie. Vemos
deste modo que o gênero é um predicado essencial comum a várias coisas que
diferem na espécie.
É
assim que podemos formular uma definição, a qual é constituída como
totalidade do gênero mais a diferença específica, e definimos o homem como
“animal racional”. Além do gênero, da espécie e da diferença, há a propriedade
ou o próprio, que é um predicado que não indica a essência de uma coisa
e, no entanto, lhe pertence exclusivamente, como apenas ao homem se pode
atribuir a capacidade de aprender gramática.
E há também o acidente, que é alguma coisa que pode pertencer ao
sujeito ou não, sem que a coisa deixe de ser o que ela é, como a posição
sentada em relação a alguém ou a brancura em relação a algo.
Os
termos que compõem as proposições podem tomar vários sentidos, os quais
correspondem às dez categorias. Podem ser dados no sentido de substância
(a definição ou essência), de quando (tempo) e onde (lugar) se encontra um ser,
da qualidade (como) de alguma coisa, da quantidade (o quanto), da relação
(duplo, meio), da situação (sentado, deitado), da posse (tem tal coisa ou
outra), da ação (o que faz) e da paixão (o que lhe é feito).
Não
é suficiente, para a clareza da argumentação, saber se um atributo é gênero,
diferença, espécie, propriedade ou acidente, mas é preciso ainda saber em qual
das categorias ele entra. Se um termo é gênero e é, por exemplo, qualidade como
cor, sua diferença e espécie deverão também ser qualidades.
Uma
mesma palavra pode ter vários sentidos, cada um dos quais pertencendo a uma
categoria, como por exemplo, o termo “bom” pode estar na categoria de produção
(o remédio produz saúde), da qualidade (virtuoso), do tempo (boa ocasião) ou da
quantidade (boa medida).
A
variedade das categorias pode permitir até diferenciar a propriedade do
acidente, pois, se alguém está sentado em uma reunião, embora o fato de estar
sentado seja um acidente por si mesmo, enquanto a reunião está se efetivando,
converte-se em uma propriedade, com relação aos assistentes.
Considerando
as proposições em si mesmas, Aristóteles classificou-as em quatro tipos
fundamentais, fazendo uma repartição básica entre o que se afirma ou nega
(qualidade) universalmente, isto é, do sujeito tomado na totalidade, como
quando afirmamos “todo é”, ou apenas particularmente, isto é, considerando
apenas uma parte do sujeito, como quando afirmamos “algum é” (quantidade). A cada um dos tipos foi atribuída uma letra
para nomeá-la simbolicamente.
Assim,
temos os seguintes tipos: as proposições universais afirmativas (todo A é B) ou
tipo A, as universais negativas (nenhum A é B) ou tipo E, as particulares
afirmativas (algum A é B) ou tipo I, e as particulares negativas (algum A não é
B) ou tipo O. Aristóteles estabeleceu também os casos em que as proposições são
passíveis de conversão, isto é em que casos uma afirmação (A é B) ou uma
negação (A não é B), pode supor a sua inversão, como por exemplo, B é A ou B
não é A.
No
caso das proposições afirmativas, tal reciprocidade é possível quando o
atributo pertence exclusivamente ao sujeito, como definição ou propriedade,
mas, quando o atributo pode pertencer a termos que não estão no sujeito, o que
é mais comum é convertermos a afirmativa universal em particular. No
caso das proposições negativas, a reciprocidade é possível, sem haver
necessidade de mudar a proposição.
Aristóteles
também estabeleceu as relações entre as proposições, conforme os modos da
oposição lógica que se estabelecem entre elas. Há relação de contrariedade entre as proposições
universais que se opõem entre si quanto à qualidade como afirmação e negação de
um predicado a um mesmo sujeito.
Ainda
que não possam ser verdadeiras ao mesmo tempo (ou todo homem é racional ou
nenhum homem é racional), duas proposições contrárias podem, no entanto, ser
falsas ao mesmo tempo (todo homem é loiro, nenhum homem é loiro). Há relação de subcontrariedade entre as proposições particulares que se opõem
entre si também quanto à qualidade.
Ainda
que não possam ser falsas ao mesmo tempo (ou algum homem é racional ou algum
homem não é racional), duas proposições subcontrárias podem, porém, ser
verdadeiras ao mesmo tempo (algum animal é quadrúpede, algum animal não é
quadrúpede).
Há
relação de contraditoriedade entre
proposições que, possuindo o mesmo sujeito e o mesmo predicado, diferem entre
si tanto em quantidade quanto em qualidade. É a oposição mais forte entre as
proposições, pois entre elas não há nada que possa convir em comum e não podem
nem ser verdadeiras nem falsas ao mesmo tempo (ou todo livro é instrutivo ou
algum livro não é instrutivo). Há também
um tipo de relação entre proposições que não encerra oposição. E o caso de proposições
subalternas, as particulares (I e O)
em relação às universais (A e E).
Todas
estas relações podem ser visualizadas no quadrado lógico:
Contrárias


Subalternas
Subalternas
Contraditórias
(I)
Subcontrárias (O)
(A)
= Universais Afirmativas
(E)
= Universais Negativas
(I)
= Particulares Afirmativas
(O)
= Particulares Negativas
Quanto ao estudo das formas pelas quais,
partindo das premissas de que estudamos as principais regras, se apresentam
conclusões válidas, Aristóteles sistematizou o raciocínio rigoroso à maneira do
silogismo, isto é, uma argumentação em que, de um antecedente que une dois
termos a um terceiro, é deduzido um consequente que une estes dois termos entre
si. Assim, na estrutura do silogismo, as premissas formam o antecedente
enquanto o consequente compõe a conclusão:
Todo homem é racional - premissa maior
Pedro é homem - premissa menor
Pedro é racional - conclusão
No silogismo apresentado temos três termos:
homem, Pedro e racional. Homem e racional são afirmados de Pedro. Em lógica, afirmar é identificar, enquanto
que desidentificar equivale a negar. O
ato de afirmar ou negar chama-se juízo, expresso em cada premissa.
Cada
termo possui uma extensão, isto é, uma referência ao número de
indivíduos aos quais o termo é atribuído, e uma compreensão, que se
refere ao conteúdo ou noção do termo. Podemos observar que, no exemplo
proposto, os termos não possuem a mesma extensão, pois “racional” tem extensão
maior que homem ou Pedro, do mesmo modo que “homem” tem extensão maior do que
Pedro. Há, portanto, três termos logicamente hierarquizados e o termo médio
permite reunir os termos maior e menor. A premissa que contém o termo de maior
extensão chama-se premissa maior, e à que contém o termo de menor extensão
chamamos premissa menor. Resulta assim que se A é afirmado de todo B (maior) e
B, de todo e qualquer C (menor), A é necessariamente afirmado de todo C. Do
mesmo, modo se A é negado de todo B e B afirmado de todo C, A é negado de todo
C. Este é o chamado silogismo perfeito, que extrai imediatamente suas
conclusões, através da hierarquia estabelecida entre A, B, C.
A
posição do termo médio nas premissas determina a forma do silogismo, a qual é
denominada figura. Quanto à disposição das proposições na argumentação há
várias, chamadas “modos do silogismo”. Além da primeira figura, que corresponde
ao exemplo proposto, há outras igualmente válidas. Somente alguns modos são
legítimos, dentre as possíveis combinações de termos dados nas premissas, os
quais se repartem por três figuras.
Na
primeira figura, o termo médio ocupa a posição de sujeito na premissa maior e
de predicado na premissa menor. O caso inverso, estando o termo médio ocupando
a posição do predicado na premissa maior e do sujeito na premissa menor,
considera-se como primeira figura indireta, a qual às vezes é identificada como
quarta figura.
Na
segunda figura, o termo médio está no predicado em ambas as premissas, e na
terceira figura o termo médio está no sujeito. Aqui não há necessidade de
examinar detalhadamente os modos que compõem cada figura, nem o procedimento de
conversão ao silogismo perfeito em cada caso, o que, no entanto, é inerente ao
desenvolvimento do estudo específico da
lógica.
É
suficiente compreender, neste âmbito, que os modos correspondentes à segunda e
terceira figuras, embora imperfeitos, são legítimos e podem ser demonstrados
por conversão à forma do silogismo perfeito. Para atestar a validade do
silogismo, porém, devemos nos ater às leis que regem o seu uso.
Assim, as regras que regem os silogismos são:
(1)
Todo silogismo contém somente três termos, o maior o médio e o menor.
(2)
Nunca na conclusão os termos podem ter extensão maior que nas premissas.
(3)
O termo médio não pode entrar na conclusão.
(4)
O termo médio deve ser universal ao menos uma vez.
(5)
De duas premissas negativas nada se conclui e
(6)
de duas premissas afirmativas não pode haver conclusão negativa.
(7)
A conclusão segue sempre a premissa mais fraca e
(8)
de duas premissas particulares, nada se conclui.
Através
destas regras, podemos observar formas falsas de argumentação silogística,
pois, basta uma incorreção com relação a uma delas, para mostrar que o
silogismo não é válido.
A
argumentação dedutiva caracteriza-se formalmente como silogismo que tem em
vista a forma como conexão necessária que rege a relação dos termos entre si e
entre as premissas, não se preocupando com o conteúdo destas, verdadeiro ou
falso.
A
lógica visa unicamente à correção ou incorreção da forma do
pensamento. Para isto a argumentação silogística
norteia-se por alguns princípios fundamentais: o princípio da contradição,
segundo o qual não é possível que a mesma coisa convenha e não convenha a um
objeto, ao mesmo tempo e sob a mesma relação (A não é não A); o princípio da
identidade, conforme o qual uma coisa é idêntica a si mesma (A é A) e o
princípio do terço excluído, pelo qual entre a afirmação e a negação não cabe
intermediário (A, ou é B ou é não B).
Estes
princípios fundamentais não são passíveis de demonstração, pois são evidentes
por si mesmos. Mas, no silogismo, a
verdade da conclusão está fundada sobre a verdade das premissas, as quais devem
ser deduzidas, como conclusões, da verdade de outras premissas, através de
outro silogismo, e o processo poderia remontar ao infinito, sem demonstrar algo
fundamental.
Por
isso é necessário apresentar um método positivo para alcançar definições que
embasem as premissas, e, como só podemos aprender algo a partir de um
conhecimento prévio, a definição tem como ponto de partida a percepção sensível,
a observação, o procedimento indutivo.
Mas
deve haver algo que garanta e fundamente a validade das proposições assim
estabelecidas, sem o quê não poderiam ser matéria da ciência, que é considerada
por Aristóteles sempre ciência do universal e não dos indivíduos particulares.
É
devido a isto que se estabelecem os três princípios mencionados, os quais
embasam a legitimidade do conhecimento.
Assim, a ciência demonstrativa opera a partir da metafisica, a ciência
que apresenta os princípios e causas do ser enquanto ser e seus atributos
essenciais, e tem necessidade de premissas indemonstráveis e auto-evidentes,
cuja formulação envolve toda a filosofia de Aristóteles.
b)
Metafisica
Sócrates
havia determinado a questão do conhecimento a partir da exigência da validez e
da legitimidade, isto é, da necessidade de fundamentação. Isto se evidenciava, enquanto proposta do
conhecimento, como domínio do universal expresso por conceitos enquanto
definições estáveis e determinadas sob o critério da razão.
Platão
responde à argumentação socrática, fundada no âmbito da ética, separando o
domínio do puro inteligível em geral, como real, deste outro reino material
passivo, lugar do devir do qual não há conhecimento possível.
Aristóteles,
porém, não concebe esta separação – entre o que é eterno, determinado, passível
de ser conhecido e afirmado por si mesmo e o que não tem determinação
intrínseca, mas é fluente e mutável – como fazendo parte da estrutura do
próprio real. Para ele o real é aquilo que é necessariamente o que é, aquilo
que existe necessariamente. A substância ou tudo o que se apresenta como
totalidade autônoma e individual.
No
interior do real dá-se a vivência e a existência das coisas substanciais por si
mesmas, mas também se dá a experiência e o conhecimento que podemos ter sobre
elas. Esta repartição dos modos
fundamentais pelos quais as coisas são, isto é, o seu ser mesmo enquanto ser e
o conhecimento de que constituem o objeto não recupera a dicotomia platônica
como cisão em nível ontológico entre material e ideal, mas apenas se apresenta
como sentidos efetivos do ser. O ser pode ser afirmado em vários sentidos, mas
não há cisão no próprio real enquanto tal, como em Platão.
Da
substância primeira, que é por si mesma individual, “este homem”, por exemplo,
destaca-se a sua definição como substância segunda. A substância compõe-se de
matéria e forma, sendo que a definição é a expressão da essência ou da forma
substancial, a qual é dada, como vimos, na síntese do gênero e da diferença
específica, como reunião do gênero e da espécie.
A
substância, enquanto essência necessária e sujeito, é dada na primeira acepção
e, enquanto considerada como definição universal ou espécie, é dada na segunda
acepção. A ciência não é das coisas individuais particulares, mas, somente do
universal. O que ultrapassa este nível,
como puramente individual, não é objeto da ciência, mas, apenas, da própria
vivência ou existência.
O
conhecimento científico é assim uma concepção do universal e do necessário,
como também das causas pelas quais surgem os fenômenos. Possui como
pressupostos axiomas e princípios da demonstração: como vimos, os princípios da
contradição, da identidade e do terço excluído. O estabelecimento de tais
princípios fundamentais do conhecimento como princípios da demonstração
silogística pertence à filosofia e mais precisamente à metafisica.
É
esta a ciência que considera o ser enquanto ser e as condições que lhe são
intrínsecas, enquanto estes princípios se aplicam a todos os seres e não a um
gênero separadamente dos outros. Estes princípios, porém, são os pressupostos
das ciências particulares, que circunscrevem um certo gênero e ocupam-se deste.
As
formas lógicas do pensamento científico implicam o juízo (como discurso de afirmação ou negação sobre alguma coisa), a
indução (passagem dos particulares
para os universais), a definição
(concernente ao que uma coisa é e à sua essência), a demonstração (relacionada à causa pela qual algo é ou não
verdadeiro), a classificação (divisão
por gêneros). Estes princípios, axiomas
e formas básicas da ciência são por si mesmos indemonstráveis, isto é, deles
temos inteligência e não ciência. A filosofia é neste sentido sabedoria, pois lhe compete, e
especificamente à metafisica, estabelecer tais princípios, conhecê-los e às suas
consequências, como também à sua realidade indemonstrável.
Enquanto
o sujeito é capaz de entreter no devir todo o tipo de relação passível de
atribuição categorial, próprias e acidentais, a necessidade pela qual ele age é
a mesma pela qual uma substância é o que é. Forma-se assim a ordem necessária
do mundo no qual todos os eventos encontram o seu lugar e a sua concatenação
causal. O que é determinado como universal e passível de ser objeto do
conhecimento é aquilo que na substância corresponde à forma ou essência a qual
é eterna e imutável. Mas o que corresponde ao fluente e indeterminado no devir
é a variedade dos acidentes que entram em relação com a essência, os quais
podem ser apreendidos no processo de atribuição da linguagem através das
categorias. Assim os vários sentidos do ser como gêneros supremos são as
categorias e os atributos essenciais próprios, mas todos estes sentidos supõem
o ser fundamental como sujeito ou substância.
O
conhecimento, fundamentado no âmbito do universal ao qual pertence, não se
estende indefinidamente de uma definição a outra, mas opera ao nível das
causas. Porém, mais uma vez, o erro
estaria na redução daquilo que possui vários sentidos a um só destes, como
entre os filósofos Pré-Socráticos que, conforme Aristóteles, ao pretender
explicar a origem do devir e do movimento, oferecem razões que se prendem a um
dos sentidos causais, sem considerar que a palavra causa se propõe em quatro
sentidos e que compreender qualquer fenômeno é fazer convergir todas as causas,
das quais este depende.
Dessa
maneira, há uma causa considerada como a substância e a essência (formal ou
essencial), aquela considerada enquanto matéria ou substrato (material), uma
causa considerada como princípio do movimento (eficiente, motora ou motriz) e
aquela considerada quanto ao objetivo ou fim ao qual a coisa corresponde
(final). Ao considerarmos, por exemplo, uma estátua, verificamos ser a figura
idealizada a causa formal, a matéria da qual é feita é a causa material, o
artífice que a fez é a causa eficiente e o homenagear ou adornar o seu objetivo
ou causa final.
Embora
exista uma identificação possível a ser feita entre as causas formal e final,
há no processo de surgimento das coisas estágios que correspondem a uma e outra
separadamente. E, geralmente, a causa formal ou essencial costuma ser a causa
considerada como tal, pois corresponde ao próprio ser da coisa. No entanto, no
âmbito aristotélico, o conhecimento se completa como tal, a partir da
compreensão da causa final.
Se
a substância é composta no par matéria-forma, a sua unidade é garantida como
resultante desta união e cada aspecto do par só pode ser considerado como um
ponto de vista sobre o sujeito, o qual corresponde apenas a esta unidade
denominada sínolo. Mas, se a forma é
eterna e imutável, a matéria tem a capacidade de mudança, e, se um sujeito ou
substância é capaz de receber alternadamente atributos contrários, como frio e
quente, seco e úmido, esta capacidade pertence à matéria, a qual permanece,
porém, como um terceiro termo, além dos contrários, subjacente à toda mudança.
Assim,
considerando cada aspecto do par reservadamente, verifica-se que à forma
corresponde a existência da realidade quando está em ação ou em ato, enquanto que à matéria
corresponde um ser propriamente potencial ou em potência. Ainda que o ser em potência possa ser considerado um
não ser em ato, e assim poder-se-ia afirmar que algo vem do não ser,
efetivamente o que vemos é que tudo nasce do ser, no sentido da ação daquilo
que está ou é em potência, como o dormir está em potência em relação ao estar
acordado em ato, o estar com os olhos fechados está em potência em relação ao
ver em ato.
O
devir torna-se possível somente a partir da preexistência da matéria como
potência do que vem a ser, mas o ato é anterior à potência quanto ao conceito e
quanto à substância. A realização em ato daquilo que está em potência na
matéria é aquilo mesmo que torna possível o devir como o vir a ser da potência
ao ato e consideram-se neste processo de geração do devir três princípios intrínsecos:
dois formados pelo par dos opostos como a forma e a privação da forma e o
terceiro como a matéria ou substrato potencial.
Enquanto
a matéria é não ser apenas em sentido relativo, como vimos, participando com a
forma da causa daquilo que nasce, a privação é não-ser em sentido absoluto,
correspondendo ao desejo da forma na matéria, como se esta aspirasse à forma,
assim como o que está em potência deseja a realização em ato. O devir como produção pode ser natural, como
na geração das espécies sexuadas, artística, como na produção das coisas a
partir da ciência e da tecnologia, e ainda espontâneo, como acontece na
produção casual de coisas ou na geração de espécies assexuadas.
Além
dos três princípios causais da forma e privação (opostos) em relação à matéria,
como causalidade interna ao devir, há também três princípios de causalidade
externa como a causa motriz próxima (por exemplo, o genitor na produção natural
ou a arte na produção artística), a causa motriz remota (o sol em relação à
geração ordenando as estações) e a causa motriz última (desejo e amor como
tendência à realização do movimento).
Quanto
ao movimento, podemos afirmar que é a realização da potência como vir a ser da
potência ao ato. Assim, o movimento tem os sentidos referentes ao deslocamento,
como mudança de lugar, à alteração qualitativa como mudança de qualidade, ao
crescimento ou à diminuição como mudança do tamanho e à geração e
destruição.
Também
a matéria pode ser considerada como matéria local ou da locomoção, da
alteração, da mudança do tamanho ou da geração e destruição. Há ainda um quinto sentido da matéria como extensão
espacial, correspondendo ao que Aristóteles denomina matéria inteligível, que é
a mais próxima da forma. Esta corresponderia à maior abstração que se pode
fazer da coisa mesma em relação aos outros sentidos materiais, sem, contudo,
chegar a destacar-se exclusivamente a sua forma. Não é tanto o material do qual
as coisas são feitas, mas o espaço, no qual se torna possível a sua existência.
Em
todos estes sentidos materiais podemos ainda verificar uma repartição
fundamental no conceito aristotélico da matéria, a partir da sua consideração
ora como material que compõe as coisas (substrato, matéria primeira,
indeterminada, incognoscível e sem forma, mas que não tem existência além das
coisas que compõe passivamente), ora como potência operativa (apetência a
produzir, ativa no sentido daquilo que determina o ato, uma vez livre dos
obstáculos).
Dessa
maneira, toda coisa existente é produto da união da forma com, pelo menos, a
matéria local, a qual é logicamente independente das outras, podendo existir
separadamente destas, como no caso das esferas celestes, mais próximas da
divindade do que as coisas terrenas.
Somente
a matéria inteligível como extensão espacial é, como vimos, uma espécie ainda
mais atenuada da matéria e podemos considerá-la a partir do seguinte exemplo:
abstraindo das coisas terrenas e celestes tanto as qualidades quanto a
capacidade da rotação, o que delas derivaria seriam as relações matemáticas.
Considerando-as como objetos matemáticos e ainda abstraindo destes todas as
características materiais, não se chegaria diretamente à forma, mas pelo fato
de estarem incorporados à extensão, é que uma reta ou um plano ou um sólido
particulares são como tal, sem reduzir-se somente à sua forma.
O
movimento do devir está assim como relação da potência material em ato pela
qual se constituem os sujeitos como substâncias, hierarquicamente sobreposto a
uma organização do mundo que parte da matéria, existindo unicamente em união
com um dos contrários fundamentais, calor e frio, e com um dos outros
contrários fundamentais, sequidão e fluidez. Os corpos mais simples
correspondem aos quatro elementos
(terra, água, ar, fogo), os quais formam primeiro os minerais e as
partes menos organizadas das plantas e dos animais, os tecidos. Em seguida, são
compostos, a partir dos tecidos, as partes mais complexas dos animais e
plantas, os órgãos, e estes formam o corpo ou organismo. No homem, o mais
altamente organizado dos animais, aparece uma forma a mais, que é a razão a
qual não corresponde a nenhum princípio de estrutura ou órgão do corpo, podendo
mesmo sobreviver ao corpo. No homem há uma razão passiva, que se identifica com
o pensamento comum, mas a razão que nele é dada como eterna é a razão ativa,
impassível e exterior como puramente em ato.
Acima
do homem encontram-se as inteligências que regem as esferas planetárias, as
quais, como vimos, são compostas da forma em união apenas com a matéria
local. Para Aristóteles as esferas
constituem-se a partir da mais alta, a que contém as estrelas que giram em
volta da terra, em seguida aparecendo aquelas que correspondem aos planetas,
descendo progressivamente até a esfera lunar, aquém da qual se estabelece o
nosso mundo, formado por espécies e indivíduos e que, devido a isto, é chamado
sublunar.
Tais
esferas movem-se umas às outras, sendo o movimento de cada uma delas provocado
pelo toque da esfera que lhe é superior, e assim, temos, no ápice do sistema,
um motor que, ele mesmo imóvel, é a origem ou princípio do movimento, o qual,
por uma atração irresistível ou amor, provoca o movimento da esfera que lhe é
mais próxima, a do céu, cujo movimento é perfeito, circular. Ato puro, Deus é o
motor imóvel, em relação ao qual tudo o mais é movido, localizando-se na
periferia extrema do sistema, o qual tem no centro a terra. O motor imóvel é
inteligência pura, não tem grandeza como extensão espacial, sendo causa final
em um universo considerado teleologicamente, isto é, sendo todo regido a partir
da tendência a um objetivo.
Notamos
assim a continuidade característica do universo Aristotélico, expressa já na
maneira pela qual as esferas imprimem o movimento umas às outras, determinando
reciprocamente seus movimentos. Esta característica reflete-se também na
coordenação existente entre os ramos do conhecimento. É dessa maneira que toda
a ordenação do universo e suas partes configura-se como continuidade entre o
domínio dos seres móveis e corpóreos, objeto da física, dos seres corpóreos eternos
e do ser supremo, objeto da teologia, e supõe a explanação do fundamento
substancial como natureza própria de todos os seres, objeto da metafisica como
tal, definida como “ciência do ser enquanto ser”.
A
esta ciência fundamental Aristóteles não denominou expressamente como
metafísica, limitando-se a defini-la constituindo o seu objeto, o “ser enquanto
ser”, fundamento comum a todas as
ciências, isto é, o objeto ao qual todas se referem. A expressão “Metafísica” é
normalmente atribuída a Andrônico de Rodes que, no século 1 a.C., editou a
coleção dos escritos de Aristóteles. Ao ordenar os livros, Andrônico teria
estabelecido o grupo de escritos que se refere à “ciência do Ser enquanto Ser”,
logo após os escritos da Física, e assim se derivaria o nome dos escritos que
apareciam “depois da física”, que é o mesmo que “metafísica”. Coincidentemente ou não, o nome que se
referia à ordem dos escritos retrata bem a natureza do objeto da ciência em
questão, a qual trata justamente da realidade última, subsequente ou superior
àquela da natureza física.
Assim,
vemos também que, como o objeto da metafisica se refere aos princípios dos
quais dependem todas as ciências, ela implica em uma espécie de enciclopédia
das ciências, determinando a cada uma os seus objetos e princípios, seu lugar
na hierarquia do saber e as relações de coordenação entre elas.
. Período Helenístico
Depois da invasão
macedônica (séc. IV a. C.), a Grécia entra no período helenístico, cujas
características são a falta de autonomia política (com o consequente abandono
da experiência democrática), uma visão de mundo menos triunfalista, e a
influência da cultura oriental, provocando a mescla de estilos de pensamento e
arte.
As escolas platônica e
aristotélica continuam funcionando, e surgem novas, que trazem influências
marcantes desse período: o epicurismo (cujo nome vem de seu fundador, Epicuro)
deslocando o ideal do saber idealista para o prazer do cultivo do intelecto,
como crítica filosófica e materialista; o estoicismo (de Zenão de Cítio),
ensinando um racionalismo naturalista; e o ceticismo (fundado por Pirro de
Élis), praticando uma crítica do saber, cujo limite é a suspensão do juízo (epoché), a propósito das doutrinas
filosóficas.
Uma tendência marcante
do helenismo é a fusão de motivos entre as escolas filosóficas, por isso o
estoicismo, por exemplo, não é uma doutrina única, mas varia conforme as
misturas, ao longo dessa época, especialmente com o platonismo (Panécio de
Rodes). Assim se explica que a Academia platônica tenha sido subsequentemente a
Platão inscrita na doutrina da negação do conhecimento, com Carnéades e
Arcesilaus, como numa interpretação socrática do ceticismo.
Esta tendência originou
as próprias assim chamadas escolas socráticas menores: a cirenaica (fundada por
Aristipo), unindo Sócrates e Protágoras, ensina um sensualismo fenomenista e
hedonista; a escola cínica (fundada por Antístenes), unindo Sócrates e Górgias,
pratica um materialismo individualista e anti-hedonista; a escola megárica
(fundada por Euclides) ligando a doutrina de Sócrates com o eleatismo, resulta
num idealismo.
Tais escolas tiveram
muitos seguidores na Grécia e em Roma, a qual foi influenciada pela filosofia
grega, depois da vitória dos romanos sobre os gregos, na Batalha de Corinto
(146 a.C.).
Os maiores filósofos
romanos foram continuadores de escolas gregas: Plotino (neoplatonismo),
Lucrécio (epicurismo), Sêneca (estoicismo) etc.
Em Roma predominou o
ecletismo de Cícero, procurando unir as doutrinas dos sistemas filosóficos
gregos, numa síntese original, que fosse aproveitável à moralidade.
Leitura:
“Aristóteles e o Liceu,
principalmente III - VI”, in BRÉHIER,
Emile. Histoire de la philosophie. I Antiquité et moyan age. 5 ed. Paris :
Quadrige/PUF, 1989, p. 151-230.
Leituras
complementares:
PLATÃO. A República. Trad. Enrico Corvisieri.
São Paulo: Nova Cultural, 2000.
ARISTÓTELES. Órganon. Trad.
Edson Bini. 2 ed. Bauru: Edipro, 2010.
______. Ética a Nicômaco.
Trad. Edson Bini. 3 ed. Bauru: Edipro, 2009.
______. Metafísica.
Trad. Leonel Vallandro. Porto Alegre, Globo, 1969.
Exercícios:
· Escreva sobre o método maiêutico de Sócrates.
· Como Platão responde à exigência socrática do
conceito, enquanto validação do conhecimento?
· Que
relação Sócrates estabelece entre ética e razão?
· Escreva
sobre a teoria das ideias platônica, relacionando-a com sua conceituação da
filosofia.
· Escreva
sobre a teoria aristotélica do conhecimento.
Gabarito
1)
Com este método, Sócrates interrogava os
interlocutores, visando a que eles mesmos provassem já saber aquilo que se
pretendia descobrir, ainda que, por si mesmos, não fossem capazes de apreender
o seu saber como tal. Maiêutica significa em grego a arte da parteira, e, por
analogia, Sócrates pensava estar atuando como parteiro do saber alheio.
2)
Por meio da teoria das ideias, que, nos
diálogos platônicos, é posta na boca de Sócrates, como de sua autoria, a qual
implica a assunção de que toda realidade é ideal e a ideia dos seres humanos é
a alma, portanto a alma conhece as ideias que contemplou no mundo
supra-terreno, antes de materializar-se no corpo material para expiação de
pecados. O mundo material seria, por outro lado, mero reflexo enganoso do mundo
ideal.
3)
Sócrates pretende que a ética seja
fundada na razão, portanto única e imutável e não como entre os sofistas, dependendo
do acordo pela palavra a partir da diversidade de opinião. A ética seria uma
lei no plano privado e não haveria uma diferença deste ao plano público, no
tocante ao dever-ser. O mais sábio deveria governar, ao invés da democracia,
porque seria quem estaria de posse do saber ético verdadeiro (racional), dado
que seria quem mais e melhor se lembraria do mundo das ideias.
4)
Para Platão as ideias são conhecimento
inato nas almas, que as contemplaram na eternidade. Dessa maneira, conhecer é
lembrar (anamnese). Mas, nem todos se lembram, portantom o mestre ou o sábio é
aquele que o pode fazer. A filosofia seria o lugar da dialética, o exercício da
palavra, pelo qual se alcançaria a definição das ideias.
5)
Para Aristóteles o conhecimento é o ato
do intelecto abstraindo o que há em comum entre os vários exemplares de uma
mesma espécie. Os sentidos apreendem os exemplares singulares, e o intelecto
abstrai assim o universal. Vemos os vários homens com suas diferenças materiais
(altos/baixos, gordos/magros, claros/escuros, etc.), mas compreendemos
intelectivamente que todos são do mesmo modo essencialmente “animais
racionais”. O conhecimento, porém, para Aristóteles, não é o apreendido pelos
sentidos (que nos mostra aquilo que é acidental) e sim somente o abstraído pelo
intelecto (capaz de abstrair o universal).
Capítulo 6: Filosofia e
Modernidade: sujeito e consciência
. Transição à
Modernidade - A Idade Média
Relembrando a partição
histórica das épocas sucessivas que assinalam os grandes momentos da evolução
humana, temos o seguinte quadro, onde o evento que marca a transição do período
ocorreu na primeira data apontada:
|
Pré-História
|
Antiguidade
|
Idade Média
|
Idade Moderna
|
Idade Contemporânea
|
|
... - 4000 D. C.
|
4000 A. C. - 476 D. C.
Invenção da Escrita
|
476 - 1453
Queda do Império
Romano
|
1453 - 1789
Tomada de
Constantinopla pelos turcos
|
1789 - ...
Revolução francesa
|
Estudamos o surgimento
da filosofia na Antiguidade, e vimos que sua definição como busca do
conhecimento, discurso da verdade, se estabiliza a partir das contribuições de
Sócrates, Platão e Aristóteles. A Idade Média é um período de predomínio
incontestável desse modelo.
Atualmente, já há
conhecimento suficiente sobre o período medieval para que não seja identificado
como uma “idade das trevas”, isto é, como uma época em que não havia produção
alguma de saber, onde só existia a ignorância. Esse rótulo ultrapassado se deve
ao fato de que nesse período não há atividade urbana e comercial, e
praticamente todo o desenvolvimento intelectual está relacionado à Igreja, que
detém uma importância fundamental na organização social e política. Sabemos
atualmente que no interior desse sistema de pensamento, comandado pelo dogma
eclesiástico, se desenvolveu uma intensa produção filosófica.
O cristianismo medieval
se produz como uma confluência da interpretação bíblica e do influxo da
filosofia grega antiga. Há dois períodos bem marcados que se relacionam ao modo
pelo qual essa confluência se produziu.
a) Inicialmente a Patrística,
orientada por Santo Agostinho, a
partir do século V, interpretou o dogma cristão no sentido de Platão. Santo
Agostinho realizou a fusão de helenismo e cristianismo, utilizando a corrente
neoplatônica que vigorou entre os séculos III e V da nossa era e cujo maior
representante é Plotino.
b) O ocidente medieval
só havia conservado de Aristóteles o seu ensinamento de Lógica. Por volta do
século XII, quando se reinicia a atividade comercial e o intercâmbio com o
Oriente árabe e Constantinopla, as obras de Aristóteles penetram no mundo
ocidental e começa uma intensa atividade de estudo e pesquisa de sua doutrina.
Inicialmente há o problema de conciliar o seu pensamento com o dogma cristão.
São Tomás realizou essa confluência de cristianismo e aristotelismo e assim
tornou o dogma eclesiástico mais adequado às exigências desse novo momento.
Essa orientação é a Escolástica. Após um período de exame e
circunspecção, a igreja católica adotou a Escolástica como um dogma do seu
ensinamento e impôs o ensino da filosofia aristotélica, interpretada pelo
tomismo, em todas as instituições educativas sob seu controle.
. Transição à
Modernidade: O Renascimento
Entre a Idade Média e a
Idade Moderna existe um interregno designado Renascimento (século XIV até o
XVII). Essa designação é adequada principalmente por dois motivos. Há o retorno
da atividade comercial plena. E ocorre também uma intensificação da atividade
filosófica, inspirada pela penetração cada vez maior das obras de filosofia
antiga, conservadas no Oriente árabe e em Constantinopla. “Renascimento”, nesse
sentido, sugere que a filosofia grega e romana, interrompida pelas “trevas
medievais”, devia agora retomar seu exercício. Muito de nosso preconceito
quanto ao obscurantismo medieval provém dessa impressão. Porém, nesse momento,
essa atitude pode se justificar. Podemos compreender o fenômeno comparando as
sociedades medieval e renascentista.
Sociedade
medieval: não há centralização do poder, cada região (feudo) é dominada por um
Senhor feudal. Esse domínio é assegurado pela posse da terra, a agricultura é
praticamente a única atividade econômica, pois o mar Mediterrâneo foi dominado
pelos árabes e continua a haver incursões de povos bárbaros na Europa. A
sociedade se baseia em laços de vassalagem entre os senhores feudais e aquele
que desempenha o papel de Rei, mas que não detém o poder político, nem mantém
exércitos. E em laços de servidão, entre os senhores feudais e aqueles que não
possuem terras.
Os senhores feudais são
nobres, os servos são plebeus e prestam serviços ao senhor, para morar no
feudo. A sociedade é estática, não há possibilidade de mudar a condição social
determinada pelo nascimento. A igreja católica é a instituição que unifica
cultural e espiritualmente esse mundo fragmentado por feudos isolados. Ela é a
única instituição centralizada.
Responsabilizando-se
pela cultura, a igreja controla a vida política e social, proibindo que se
produza qualquer saber oposto ao seu ensinamento. O sistema medieval é
teocêntrico: Deus é a explicação única de todos os fenômenos e a Bíblia fornece
o sentido a todos os aspectos da existência.
Sociedade
renascentista: a conformidade ao dogma da igreja, durante o período medieval,
era facilitada pelo próprio modo de vida social. A partir do século XIV, porém,
a Europa ocidental retorna à sua atividade produtiva comercial, de modo que a
posse da terra não garante mais o domínio econômico.
As cidades começam a se
tornar importantes, e nelas se desenvolve a tendência de formar espaços
políticos de soberania, independentes de todo laço com a igreja, que serão as
nações modernas. No âmbito cultural, está se processando a separação entre
razão (filosofia) e fé (teologia), cujo compromisso era o objetivo mesmo da
Escolástica.
Liberada de sua
subserviência ao dogma da fé, a razão investe o conhecimento da natureza. A
concepção de mundo se transforma, desde a antiga perspectiva geocêntrica
sustentada pela narrativa bíblica, à visão heliocêntrica (Nicolau Copérnico e Galileu Galilei) evidenciada pela
física e pela astronomia. Essa fase pode então começar a se interrogar sobre o
papel do ser humano no universo, e, por isso, se designa como o período do
humanismo.
Se, até aqui, a
perspectiva idealista platônica e religiosa, que influenciava até mesmo a
versão cristã do aristotelismo, desvalorizava a ação e reservava tudo ao pensar
e ao crer, agora se percebe que é da intervenção do ser humano que depende a
sua compreensão do mundo. Nessa época, surge a revolução do conhecimento,
devida à introdução do método experimental, a consequente a eclosão das ciências naturais.
A ação do ser humano,
racionalmente orientada, não é algo apenas instrumental e dispensável, mas
confere sentido à existência e é fundamental para a inteligibilidade dos
fenômenos. A ciência natural depende dessa percepção e por isso se a designa ciência
experimental.
Assim, vemos que nesse
período a interpretação da época anterior como de total obscurantismo se
justifica, pois nela não havia ciência nem conhecimento dos textos filosóficos
da Antiguidade.
A atividade de pensamento
feudal não parecia então “filosófica”, pois seu objeto não coincidia com os
temas da filosofia antiga e se determinava pelo dogma cristão. Atualmente,
compreendemos que cada época tem seu centro de inteligibilidade formando um
todo coerente, e, devido a essa compreensão, conceituamos a atividade
especulativa feudal como autenticamente filosófica, mesmo que não coincida com
nosso próprio exercício de pensamento.
Isso não quer dizer que
no Renascimento tenha se desenvolvido um pensamento exclusivamente
materialista, desvinculado da preocupação com a fé. O que se estava
questionando era apenas a autoridade secular (política) da igreja, e, em geral,
um traço característico desse momento é a convivência de duas preocupações mais
ou menos independentes: uma produção científica voltada à compreensão dos
fenômenos naturais e a tentativa de implementação de uma compreensão dos
evangelhos que pudesse resgatar a mensagem original do Cristo.
O humanismo não pôs no
centro o ser humano como pessoa, mas como espécie que se encarregava, por suas
ações, de seu próprio destino e como tal deveria se responsabilizar perante
Deus.
. A Era Moderna
A Renascença foi uma
época de intensa transformação, um momento importantíssimo na evolução do ser
humano. No entanto, é somente a partir do século XV que realmente se apresentam
os resultados concretos do seu influxo. Nesse momento, a formação do Estado
moderno, isto é, a consolidação da soberania política de unidades
nacionais, se completa.
Esse processo de
formação das nações foi marcado pelo conflito com a autoridade da Igreja, que
até então atuava como instituição centralizadora entre poderes locais. A
emergência do Estado Nacional moderno
se relaciona com um anseio espiritual independente do dogma católico, que agora
era visto como tendo corrompido a mensagem evangélica, para assenhorear-se do
poder do mundo.
À formação das nações
modernas se associa a Reforma Protestante. Verifica-se facilmente a
associação entre os reformadores (Martinho
Lutero e João Calvino) e os príncipes, que ambicionavam assegurar o
domínio do seu território. Dessa maneira, quando o movimento da Reforma
inspirou levantes autenticamente populares, como no exemplo de Thomas Müntzer, que utilizou a
pregação de Lutero para comandar uma revolta contra a opressão sobre o povo, o
próprio Lutero o condenou, optando pelo alinhamento com o príncipe.
Na verdade,
praticamente todas as características do mundo moderno se opõem à orientação da
igreja medieval. Isso porque a classe que comanda as transformações do mundo
feudal ao mundo comercial praticamente não existia até a eclosão da atividade
mercantil no fim da Idade Média. Essa classe é a burguesia, que
valoriza, como um bem, o lucro e a atividade empreendedora, inversamente aos
valores da nobreza feudal, que valorizavam, como um distintivo de classe,
apenas a posse passiva da terra.
Complementando essa visão feudal, a Igreja ensinava a conformidade com a
condição social de origem como sendo devida à vontade de Deus, e condenava todo
anseio de lucro, identificado como o pecado da usura.
A formação do Estado
Moderno se deve à aliança dessa classe burguesa com o Rei. Se, durante a Idade
Média, a realeza era uma instituição apenas nominal, dependente da sanção
eclesiástica, agora a burguesia intervinha, financiando o exército, que poderia
garantir a autoridade real. O Rei, em troca, garantia a livre circulação no
território e unificava a moeda, favorecendo a atividade comercial, e atuava
como um poder moderador, de modo a atenuar as diferenças de classe entre os nobres
e os novos ricos plebeus.
A história da Idade
Moderna é o relato da escalada da burguesia no sentido de se assenhorear de
todas as instituições sociais e obter a hegemonia, isto é, não apenas a
posse dos meios de produção, mas também o reconhecimento cultural de sua
superioridade como classe dominante. É por isso que o fim da Idade Moderna se
demarca pela Revolução Francesa, também designada a Revolução Burguesa.
Considera-se esse fato como o marco da superação definitiva do Antigo Regime,
isto é, da ordenação social moderna caracterizada pela precedência de
nascimento, que favorecia a nobreza como classe, e pelo poder absoluto do Rei.
Observe que, se o Rei
foi o instrumento da burguesia para consolidar o seu domínio, o que marca o
sucesso da operação de hegemonia burguesa é a superação dessa necessidade. A
Revolução Francesa mostrou que a burguesia já estava forte o bastante para
instaurar o seu próprio regime, a democracia do Estado republicano.
Todo o período que
compreende o Renascimento e o Era Moderna se denomina da acumulação
primitiva do capital e se conceitua como uma transição entre dois regimes
econômicos bem determinados, o feudalismo e o capitalismo.
O capitalismo só se
efetiva totalmente a partir da Revolução Industrial, que se localiza no século
XIX na Inglaterra, mas, que está em curso desde a época da Revolução francesa.
É essa efetivação do capitalismo que permite à burguesia completar a sua
operação de hegemonia e que demarca a feição contemporânea da nossa sociedade.
O capitalismo não significa apenas que o lucro da atividade econômica provém do
comércio ou da produção de mercadorias, e sim que o capital organiza a
produção, determinando as condições do trabalho e da vida social.
A posse dos meios de
produção (máquinas, matéria prima e instalações) define o capitalista e a
necessidade de vender a sua capacidade de trabalho é o que faz do trabalhador
um assalariado.
. A Filosofia Moderna e
a Conquista da Subjetividade
. Posição da Filosofia
Moderna
Não é difícil perceber
que numa sociedade como a feudal não havia espaço para o tema do Sujeito
como centro da reflexão filosófica. Só se considerava a realidade humana como
uma espécie derivada da ação de Deus, num universo totalmente ordenado por Sua
inteligência e vontade.
A espécie humana
ocupava um lugar privilegiado, como finalidade da criação, a única que poderia
compreender a atividade do criador e render-lhe as devidas graças. Mas,
considerado individualmente, o ser humano era uma alma e tudo aquilo de
que pudesse depender a compreensão da realidade da alma se resumia na sua
relação com Deus: o fato de ser dotada de livre arbítrio e de poder se alçar da
queda na materialidade à bem-aventurança futura em um mundo exclusivamente
espiritual. Essa relação era universal, comum a todas as almas. A designação
dessa sociedade como teocêntrica é a mais adequada, pois Deus se
localizava no centro mesmo de todas as concepções do ser humano, tanto sociais
quanto culturais e filosóficas.
A sociedade do Antigo
Regime, que é a da Era Moderna, já não se caracteriza por uma dependência
completa do ser humano à natureza, à agricultura. Agora a atividade
empreendedora é manifestamente responsável pela realidade social. Surge um novo
modo de desenvolver a reflexão filosófica, a partir do tema do Sujeito.
Como a relação exclusiva da alma com Deus não fornece a compreensão desses
fenômenos sociais e culturais devidos à intervenção pessoal do ser humano - o
comércio, a ciência experimental - faz sentido indagar o que é homem, como ele
deve se constituir no mundo e se compreender a si mesmo.
A mudança de
perspectiva pode se posicionar do seguinte modo: na Era Moderna se
pergunta como se define o lugar do humano no universo, porém, utilizando para a
resposta apenas os dados do ser humano e do universo. Ou seja, a pergunta se
volta sobre o sentido da ação pessoal do ser humano no mundo. Antes, essa
pergunta se subsumia a uma indagação sobre como Deus havia posicionado a
espécie humana no universo pré-concebido como sua criação.
O homem agora não se vê
como uma alma, cujo sentido depende da relação com o criador, mas como um Sujeito,
um “Eu” que se autocompreende na sua relação imediata com o Mundo.
. Descartes e o
Racionalismo
O intérprete pioneiro
desse estado de coisas é René Descartes,
cuja atividade filosófica se desenvolve na metade inicial do século XVII.
Descartes reformulou inteiramente o problema tradicional da filosofia, assim
como herdada do Renascimento. Esse problema consistia em evidenciar a relação
entre a alma, o mundo e Deus, de modo que Deus pudesse fundamentar a existência
do mundo e nele assegurar a posição da alma. A questão principal era exibir uma
prova consistente da existência de Deus.
Descartes não começa
por essa prova. Inversamente, ele inicia seu discurso filosófico através da evidenciação
do mundo exterior como um problema, não como um dado imediato, em relação ao
Sujeito que o percebe. O sujeito percebe os dados do mundo, porém, como
produzidos por suas sensações e impressões subjetivas, assim como no sonho. Não
há nenhum modo, do ponto de vista exclusivo do sujeito, de estabelecer a
diferença entre o sonho e a realidade, ou seja, de provar a existência do mundo
externo.
A novidade desse
proceder é imensa, pelo que podemos constatar, pois o ponto de partida da
reflexão não está na realidade do mundo ou na existência de Deus, mas,
unicamente, no Sujeito que pensa. Essa centralidade do Sujeito ao seu próprio
pensar era até aqui inconcebível.
Descartes inaugura
assim a era moderna em filosofia, definindo o espaço metafísico da subjetividade.
“Metafísico” porque o Sujeito é chamado à tarefa de fundamentar o Ser. Não se
trata de uma operação psicológica, que depende apenas da compreensão da
dinâmica dos sentidos na inter-relação entre o Eu e o Mundo.
Trata-se da busca
metafísica do modo mesmo de Ser do Real. Ora, ao reduzir toda a realidade a uma
percepção subjetiva, Descartes constata que não há como garantir a factualidade
do mundo. A situação do sujeito em sua inserção no real só pode fornecer a
enunciação do mais extremo ceticismo, aquele que se interdita qualquer
afirmação de conhecimento sobre o mundo, uma vez que não pode se garantir a
prova de existência desse mesmo mundo.
Mas Descartes não
pretende apenas fornecer um convincente argumento pró-ceticismo. Sua ambição é
bem maior, pois o intuito da filosofia cartesiana envolve a validação daquilo
que designamos metafísica da subjetividade, isto é, a fundamentação do
conhecimento e do Real, a partir da existência do Eu.
Esse momento inicial do
percurso cartesiano se designa como sendo da “dúvida metódica”. A
dúvida sobre a realidade daquilo que nos é fornecido pelos sentidos vai em
seguida ser conduzida ao extremo, transformando-se numa “dúvida hiperbólica”.
Qualquer realidade exterior ao Eu é questionada, e Descartes supõe mesmo a
hipótese de um deus que voluntariamente se dispusesse a enganar o ser humano,
dotando-o com a propensão a crer em verdades, como as da matemática, que, no
entanto, poderiam ser falsas.
Todavia, no interior de
todo questionamento, Descartes encontra algo de sólido e inegável: o próprio
questionar. O sujeito que pensa não pode garantir que o objeto em que pensa
existe, mas não pode duvidar de que pensa, logo não pode duvidar de sua
existência enquanto Ser Pensante. Penso, logo sou, “cogito ergo sim”, em
latim, é a fórmula de Descartes, pela qual ele considera ter refutado
completamente o fundamento do ceticismo, já que apresentou a evidência de algum
ser como uma realidade inegável. Essa realidade é a do Sujeito Pensante, logo,
a do sujeito enquanto consciência.
Assim, Descartes
desloca a consistência metafísica do âmbito do puro Ser ao problema do
conhecimento, isto é, à esfera da Consciência. Na filosofia cartesiana, o
conceito de pensamento reúne as noções de consciência, existência
e subjetividade.
No entanto, o sujeito
que pensa traz consigo a evidência do seu pensar, não apenas como um fato
abstrato, e sim como um exercício concreto, que envolve o ser do objeto em que
pensa. O sujeito não pode negar as operações a que todo objeto está submetido,
tão logo convertido em objeto de pensamento.
Por exemplo, o sujeito
não pode negar a evidência que as implicações lógicas manifestam por sua
simples expressão, não pode, por exemplo, compreender ou postular que A ≠ A.
Assim, como não há uma realidade demonstrável ou garantida em seu ser que não o
pensamento mesmo, Descartes considera esses princípios pelos quais se ordena o
pensar como inatos. Essa é a base do racionalismo moderno, que sustenta
o inatismo da razão e fundamenta o conhecimento a partir da existência do
sujeito que o enuncia e o valida como atividade racional.
Uma implicação lógica
inegável é aquela pela qual o ser necessário existe necessariamente. Ora, Deus
é esse ser necessário, e, dessa maneira, Descartes assegura a prova da
existência de Deus, a partir do fundamento lógico evidente à Subjetividade. No
entanto, Descartes reposiciona a sua metafísica, mostrando também que a ideia,
em nós existente, de um ser perfeito (infinito), em nós que somos seres
imperfeitos (finitos), só poderia ter sido introduzida aí por Deus, comprovando
assim por outro meio a sua existência.
Como se vê, mesmo nesse
reposicionamento, o papel do sujeito é fundamental na operação de constituição
do Real, incluindo Deus e o mundo. Pois, uma vez que comprovamos pela
necessidade lógica do nosso espírito que Deus existe, a existência do mundo
como criação de Deus se torna igualmente assegurada. Não apenas a realidade
factual, mas, o próprio conhecimento como lugar da verdade se torna
metafisicamente fundamentado, a partir de uma base não religiosa, mas
inteiramente humanizada, isto é, filosófica (metafísica).
A realidade do mundo
exterior, que foi preciso inicialmente colocar entre parênteses, não nos é dada
de modo imediato, assim como se fossem coisas à disposição do sujeito. O que é
imediato ao sujeito é apenas Representação. Normalmente pensamos que a
representação é um reflexo na mente das coisas que existem concretamente no
mundo. Porém, vimos que, ao reduzir o mundo à experiência do sujeito, Descartes
interditou essa interpretação, pois se tratava justamente de constatar o
caráter duvidoso do conteúdo externo da Representação.
É somente a partir da
própria representação, isto é, de nossas ideias, analisando-as, que podemos julgar
da veracidade desse conteúdo. O conteúdo das representações abarca todo e
qualquer modo da consciência interna, de modo que não ocorre uma distinção
entre pensamento e sentimento. A mesma faculdade de representação compreende
todos os nossos estados de consciência. O sentimento e a imaginação, tanto
quanto o entendimento, são modos do pensamento.
O que se torna
indubitável quanto à atribuição de existência, é o pensamento. Descartes pode
então conceber o pensamento como uma substância, algo que por si mesmo
é. Porém, o pensamento lida também com uma realidade invariável, sempre que se
relaciona pelo entendimento aos dados sensíveis. As coisas no mundo são
percebidas como sempre mudando, mas, subjacente às suas modificações, o
espírito percebe a sua essência imutável. Desse modo, Descartes conclui que há,
ao lado da substância pensamento, uma substância designada extensão,
característica essencial dos corpos. A evidência da existência da extensão não
depende dos sentidos nem da imaginação, mas apenas do pensamento enquanto
intelecção, isto é, do conhecimento garantido pela ideia que o espírito possui
da invariabilidade do extenso.
Ao analisar as ideias
que possui, o espírito constata que algumas são claras e distintas, como as de
pensamento e extensão, e a elas pode atribuir um fundamento de realidade
concreta. No entanto, se a existência das ideias que podem exibir esse
fundamento apenas pela evidência lógica é tão indubitável quanto a do próprio
pensar, as ideias que só exprimem coisas do mundo exterior jamais poderiam se
garantir completamente, por mais claras e distintas que possam parecer. E é por
isso que a prova da existência de Deus se torna tão importante na filosofia
cartesiana.
Nossa crença natural na
existência efetiva dos conteúdos de nossas representações se vê assim apoiada
pela constatação lógica da existência do mundo através da ação de Deus, de que
não podemos negar a existência. Deus é também uma substância, e é através de
sua ação criadora que as outras duas substâncias, pensamento (espírito) e
extensão (matéria) vêm a existir. Desse modo, mesmo que restasse alguma dúvida
sobre a realidade do pensamento, a ideia de Deus a torna inoperante, garantindo
o método cartesiano de acesso à certeza.
Observe que esse
complemento do método, pelo qual Descartes parece inverter o procedimento
adotado anteriormente e usa a ideia de Deus para fundamentar a existência do
pensamento, na verdade mantém a consistência metafísica no âmbito moderno da
subjetividade. Pois a demonstração da necessidade de existência do ser infinito
não só exige a sua inserção no ser finito, mas, principalmente, a evidência
intelectual dessa presença na vivência interior do sujeito que pensa.
O racionalismo conduz,
como método, a alguns pressupostos que embasam a atividade de produção do
conhecimento.
O exame das ideias
através dos princípios inatos ao intelecto, ou a evidência lógica, fornece a
fundamentação metafísica da existência e da possibilidade de conhecer. As
ideias, enquanto formas de pensar, existem necessariamente, assim como o ser
que pensa, independentemente do seu conteúdo. A clareza e a distinção fornecem
os critérios que permitem julgar quanto à efetividade desse conteúdo, uma vez
que a ideia de Deus garante a existência do mundo. A metafísica ou conhecimento
do espírito se vê assim plenamente fundamentada.
O conhecimento do mundo
físico (extensão ou matéria) se torna acessível apenas através da geometria. As
representações sensíveis, oriundas dos objetos do mundo, nos são dadas
através de fatores que reforçam a probabilidade de que esses objetos externos
existam efetivamente: a coerção pela qual se impõem aos sentidos; a vivacidade
que o contato com as coisas provoca em termos de representação (sensação,
recordação ou imaginação); a anterioridade de sua apresentação à nossa
capacidade de representá-las; a associação entre as sensações e o estado de
nosso corpo, bem como a interação entre a vontade e o movimento corporal que
atua e interfere com os estados de coisas no mundo.
Porém, inversamente à
Representação enquanto realidade espiritual, que compreende as ideias inatas ao
espírito (princípios lógicos e essências imutáveis), essas representações
sensíveis jamais são claras e distintas. São obscuras e confusas por natureza,
e, por isso, não há possibilidade de se estabelecer uma ciência do mundo
exterior que não seja limitada ao âmbito matemático em que se insere a ideia de
extensão. O que é propriamente sensível não pode ser objeto de conhecimento.
A geometria e a
matemática lidam com ideias inatas ao espírito e o saber que enunciam versa
sobre a essência do Real, não sobre as modificações materiais.
. O Empirismo: John
Locke e David Hume
A fundação metafísica
da subjetividade, a partir de Descartes, estabeleceu o critério moderno da
existência do Real, a partir da evidência ao sujeito. Dessa forma, todo o real
se subsume como ideia, pois a apreensão dos dados dos sentidos só pode ser
ordenada na recepção pelo sujeito, na forma compreensiva de suas ideias.
O estabelecimento desse
processo de ideação do real pelo sujeito (ideísmo) generalizou-se, no período
moderno. Não obstante, o modo pelo qual Descartes o conceituou foi contestado,
ainda no século XVII, especialmente por John
Locke.
O conflito entre
Descartes e Locke demarca a oposição característica do período moderno, entre o
racionalismo e o empirismo. Já examinamos o sentido cartesiano do
racionalismo. Quanto ao empirismo, Locke o formulou deslocando o domínio de
origem das ideias. Em vez de serem inatas, como princípios inerentes ao
sujeito, ou “Razão”, elas seriam adquiridas com base na experiência. Em grego
“empiria” significa aquilo que pertence ao domínio do sensível, isto é, à
Experiência.
Vemos que, se Descartes
pensava o princípio lógico de identidade (A = A) como algo definitivamente
imposto pela razão - logo, só podendo vir do sujeito racional -, Locke
argumentava que esse princípio se estabelecia em nós por nossa vivência da
constância das coisas. Em geral, Locke demonstrou que todos os princípios
lógicos, como também as ideias que possuímos, podem ser explicados, pela
derivação do que observamos na realidade, através dos sentidos.
Locke distinguia dois
modos básicos de recepção do real pelo sujeito, os quais, ao mesmo tempo,
bastavam para fornecer todo o fundamento do conhecimento humano: as ideias
de sensação, que captam a existência das coisas fora de nós, e as ideias
de reflexão, que o espírito formal tendo por conteúdo as operações a que
ele mesmo submete suas ideias, decorrentes do mundo sensível.
O empirismo provou ser
um instrumento mais flexível do que o racionalismo, mais adaptável ao progresso
científico que estava tendo lugar na era moderna. O século XVIII foi um momento
em que a influência de Locke se tornou praticamente universal. Concorreu para
isso, sem dúvida, o sucesso alcançado pela física de Isaac Newton, que no início daquele século se comprovou, ao mesmo
tempo em que refutava a física de Descartes.
O empirismo, assim como
o cientista dessa época, de que Newton é o maior exemplo, deixava em suspenso o
problema da refutação do ceticismo. Não havia necessidade de resolver quanto à
factualidade do mundo exterior, uma vez que nossa interação com o que provém
dos dados dos sentidos se revela satisfatória para os propósitos do
conhecimento. A experiência ordena nossas ideias, no entanto, o mundo sensível
é por sua vez ordenado pelo modo como nossas ideias interagem com ele. Esse
processo garante uma satisfatória relação entre o sujeito e a realidade, e não
deixa margem a especulações metafísicas, que o empirismo considera inúteis, por
não apresentarem possibilidade de resposta indubitável, inversamente ao que
supôs Descartes.
David Hume, no século XVIII, prosseguindo na via de
Locke, mostrou que nossas ideias não poderiam jamais ser postuladas como
totalmente inatas, assim como a existência do mundo não poderia ser
simplesmente deduzida da vivência interior ao sujeito. No entanto, Hume
enfatiza, mais do que Locke, a dependência da experiência à ordenação do
espírito.
Os dados da sensação,
oriundos do contato do sujeito com o mundo, se transpõem na forma da
Experiência, ou seja, uma realidade que o sujeito experimenta como sendo
basicamente ordenada. No entanto, inversamente ao que postulava Descartes, o
sujeito não pode se assegurar se as coisas, descontando a ação do espírito
sobre elas, são mesmo como ele as vê.
Hume distinguia a impressão,
produzida pelo contato imediato com as coisas do mundo (impressões de sensação)
ou pela percepção interna (impressões de reflexão), e a ideia, derivada
das impressões, que permanecia no sujeito após ter cessado o contato, através
da memória. A imaginação, algo inerente ao espírito, é a faculdade que opera a
conexão entre as ideias que se fixam nele. A imaginação possui leis de
funcionamento que lhe são próprias. Assim, ideias de coisas que sempre se apresentam
juntas são conectadas como contíguas.
E, se essas coisas não se apresentam apenas juntas, mas, sua contiguidade nos
faz esperar que, dada uma delas, a outra também ocorra, essa crença atua
como um princípio de conexão entre ideias, que é o de causalidade.
Os princípios da
imaginação - semelhança, contiguidade e causalidade - não podem ser provados
como decorrentes do modo de ser das coisas, porém, se evidenciam como
constantes da experiência, cujo modo de operar só se torna acessível pelo exame
do funcionamento da mente (espírito). Observe que o empirismo manteve não só a
consistência filosófica moderna enraizada na Subjetividade, mas também
compreende o domínio da Subjetividade, como sendo o da Consciência. Assim, um
critério seguro, pelo qual se pode julgar o valor representativo da ideia, é
aquele que se institui pela possibilidade de assinalar o momento exato e o modo
mesmo pelo qual ocorre a impressão de que a ideia procede.
Newton, por exemplo,
pôde fornecer uma teoria satisfatória sobre o movimento dos planetas,
explicando-o em termos de gravidade. No entanto, ele mesmo notou que sua teoria
era incapaz de explicar o porquê das coisas serem assim, ou a origem do sistema
solar. Newton pensava que a maravilhosa uniformidade do universo poderia fornecer
um argumento favorável à hipótese de ter sido criado por Deus. No entanto, a
adesão à hipótese criacionista se devia à fé, não a um constrangimento imposto
pela razão. Essa atitude espiritual se tornou corrente na época, sob a
designação de Deísmo. Podemos constatar o quanto o deísmo e o empirismo são
tendências que se complementam. A influência dessas tendências foi predominante
no século XVIII.
A importância do
empirismo na modernidade está relacionada à exigência cada vez maior da
autonomia da ciência em relação à filosofia. Algo do empirismo ainda vigora em
nosso tempo, porém, agora, seus postulados básicos são acrescidos de conceitos
e temas oriundos do desenvolvimento da filosofia posterior ao momento moderno.
No século XX, especialmente, a valorização da experiência e a autonomia da
ciência em relação à necessidade de fundamentação filosófica se expressou
através do Círculo de Viena, movimento designado Neo-Empirismo ou Positivismo
Lógico.
Nesta perspectiva, só
enunciados comprováveis pela experiência possuem algum sentido. Karl Popper, um
representante dessa corrente, enunciou o princípio mais aperfeiçoado dessa
atitude intelectual do seguinte modo: uma teoria é científica e válida se
vigora sob o princípio da falseabilidade, ou seja, ela jamais pode se provar
como “verdadeira”. Seus enunciados são aceitos como válidos apenas enquanto não
se apontam fatores que possam comprovar sua inadequação, isto é, enquanto não
houver sido falseada.
Observe como o
empirismo conduz a uma compreensão da ciência oposta à de Descartes. Pois ele
prevê como válido qualquer conteúdo que na linguagem científica se comprove
adequado, tornando inoperante o postulado cartesiano de que a validez do
conhecimento se restringe ao que decorre dos princípios lógicos do entendimento,
metafisicamente garantidos, ou à matemática. Mas isso não se põe como uma
garantia de que o domínio do obscuro e confuso - o mundo sensível para
Descartes - está assim sendo totalmente clarificado pela ciência.
Stephen Hawking, por
exemplo, é um cientista contemporâneo que se autocompreende como positivista.
Por isso, Hawking afirma que a validez de uma teoria cosmológica se garante
apenas por sua utilidade, enquanto modelo utilizável do Universo, mas nada pode
assegurar quanto ao modo mesmo de ser do Real. Ou seja, mesmo que uma teoria
científica venha a se declarar inteiramente aceitável, isso só iria declarar
que ela não deixou nenhuma pergunta suspensa sobre o seu domínio de explicação,
o que não implica que está fornecendo a “verdade” do Ser.
. Kant e a Consciência
Transcendental
Ainda no século XVIII,
Immanuel Kant aceitou as premissas da filosofia de Hume, porém, radicalizando
seus resultados, recusou o ceticismo especulativo daí decorrente. Kant afirmou
que havia despertado do seu sono dogmático, pela leitura de Hume. Ele
considerou que o problema real posto à luz por Hume não era tanto o de saber se
a noção de causa é legítima no sentido de útil ou indispensável ao
conhecimento, mas sim saber se era concebida a priori pela razão. Ou seja, se era uma noção inata, por si
mesmo válida como uma evidência lógica independente de toda experiência.
Kant mostrou que aqueles que haviam tentado contrapor a Hume as evidências do
senso comum haviam falhado, por não terem percebido esse fundamento que tornava
muito legítimo e importante o questionamento de Hume.
No entanto, Kant
pensava que Hume não havia considerado toda a amplitude daquilo que ele mesmo
teria observado. Kant mostrou que a metafísica sempre vinha lidando com
conceitos referentes a relações entre coisas, como, por exemplo, a conexão de
causa e efeito. Essas relações pertencem à Razão, contudo, uma ciência que
pretendesse ter tais relações por objeto estaria na mesma condição que a
matemática pura. Ela poderia aplicar seus princípios na ordenação da realidade,
todavia, não poderia se assegurar da concretude ou efetividade dessa ordenação.
Como Kant recusa a
conclusão cética, ele procura um meio de resolver o problema e começa por
classificar todo conteúdo racional em juízos. Os juízos são afirmações ou
negações que ligam um sujeito e um predicado. Kant constatou que eles podem ser
basicamente de dois tipos: analíticos e sintéticos.
Os juízos analíticos
são sempre a priori, ou seja,
independentes da experiência, pois, o que enunciam é uma pura identidade. No
caso dos juízos analíticos, o predicado já está contido no sujeito, por
exemplo: um triângulo tem três ângulos. O significado mesmo do termo sujeito,
sem que se precise saber se existe no mundo, compreende o que o predicado
enuncia. Contudo, Kant nota que, quando se propõe a questão da validez do nosso
conhecimento sobre o real, não é o tipo de juízo analítico que está em causa,
mas sim a possibilidade do juízo sintético enunciar algo que é efetivamente
real, não apenas devido às leis da nossa imaginação, sendo o juízo sintético
aquele que atribui ao sujeito algo que não está contido nele, porém, que lhe é
atribuível pela experiência.
Kant reconhece que, no
caso de proposições (juízos) sintéticos a
posteriori, isto é, devidas unicamente à experiência como, por exemplo, “a
água ferve a 100 graus centígrados”, Hume estava certo. A fonte desse
conhecimento é somente uma contínua composição (síntese) de percepções ou
impressões. Então, Kant pensa que somente resta uma via para que se pudesse
aventar a hipótese de um conhecimento sintético intrinsecamente dotado de
validez: a existência de juízos sintéticos a priori, isto é, ao mesmo
tempo independentes da experiência e que acrescentam algo ao termo sujeito.
Kant propõe que todo o
problema do conhecimento pode ser enunciado a partir da pergunta: como são
possíveis proposições sintéticas a priori?
Kant pensa,
inversamente a Hume, que a filosofia tem uma tarefa positiva, que é a de
responder a essa pergunta, e, desde que ainda não o tenha feito, trata-se de
“filosofia balofa”, falha de base, falsa sabedoria, uma vez que não fornece a
garantia daquilo mesmo que afirma.
As proposições
sintéticas a priori recobrem todo o conteúdo da matemática e os fundamentos das
ciências da natureza. Kant mostra que as intuições de espaço e tempo na
matemática, assim como a apreensão de conexões universais a partir dos fatos da
natureza, são independentes da experiência e pertencem exclusivamente ao
intelecto.
Por esse meio, Kant
pôde opor os juízos simplesmente perceptivos, a posteriori, àqueles sintéticos,
a priori. Por exemplo, se verifico que a luz do sol aquece essa pedra, enquanto um fato perceptivo isso se limita a uma
constatação empírica, a posteriori. Mas, se vejo que sempre que o sol incide
sobre a pedra ele a aquece, então a proposição “o sol aquece a pedra” é uma
síntese cuja validez se torna necessária, universal, não mais como um fato de
percepção, e sim de experiência (conhecimento sintético a priori).
Esses conceitos
intelectivos puros que ordenam a experiência, como, por exemplo, a conexão de
causa e efeito, determinam, em geral, a maneira como qualquer dado, que nos vem
pelos sentidos, pode ser matéria de juízo. O modo mesmo como nos servimos dos
fatos para estabelecer enunciados universais demonstra que há algo em curso na
experiência, que nem pertence às coisas, nem é apenas um expediente
transitório, de cujo valor factual se pode duvidar.
Kant enuncia assim o
que chamou de Revolução Coperniciana da Filosofia. Se Copérnico havia
revolucionado a visão do universo, mostrando que é a terra que se move ao redor
do sol, não o inverso, o que ele evidenciou foi o fato de que somos nós que nos
movemos, e que é devido ao nosso movimento que o sol percorre a sua trajetória
do nascente ao poente.
Do mesmo modo, Kant
afirmou que, se temos acesso a algo como uma experiência, isto é, uma vivência
absolutamente ordenada do mundo, é porque, enquanto possibilidade, nossa
experiência depende desses conceitos intelectivos puros, a priori, que são
nossas formas do juízo em geral. Enuncia-se por esse meio a noção de Transcendental:
aquilo que serve de condição de possibilidade da experiência. A consciência
transcendental é o princípio que, a partir da Subjetividade, pode finalmente
estabelecer a absoluta validez do conhecimento e da experiência dos sentidos.
O transcendental é a
forma pela qual a consciência pura atua no mundo e fornece sentido à
experiência, estabelecendo a recepção dos dados dos sentidos, como uma
Natureza, um todo ordenado, dotado de significação e sentido intrínsecos. Assim
conceituada, a natureza não pode servir de qualquer motivo de dúvida quanto à
factualidade da experiência que dela temos, pois que ela é exatamente como
surge à experiência, se atesta pela forma mesma dessa experiência.
Quanto ao que pode ser
o que captamos, na exterioridade das formas da intuição, a coisa em si,
restando incognoscível, dela só podemos afirmar que é conforme à nossa intelecção. Em todo
caso, o conhecimento está garantido, pois podemos ter certeza de que a coisa em
si jamais se comportará de modo a contradizer os princípios do intelecto,
sintetizados pela Razão.
Kant estabeleceu duas
partições fundamentais:
·
Entre o empírico e o transcendental
- isto é, entre o que nos é dado pela experiência, fundamentando o saber
científico especializado e validado, e aquilo que atua como condição dessa
experiência, o a priori da razão
acessível à crítica filosófica. Observe que essa partição se estende à própria
noção de Subjetividade, pois há um Eu empírico, sujeito da experiência,
e um Eu transcendental (Razão), possibilitando a vivência empírica do
sujeito.
·
Entre o númeno e o fenômeno
- isto é, entre a coisa em si (númeno), incognoscível, e aquilo que vivenciamos
como Natureza ou Experiência (fenômeno).
A Razão procede por
sínteses irredutíveis, de modo que o ser humano integra três domínios de
inteligibilidade que podem ser acessíveis à crítica, como pertencendo à atuação
da Razão. Assim, Kant estabeleceu três Críticas:
a da Razão Pura (1781), a da Razão Prática (1788) e a do Juízo ou Faculdade de Julgar (1790).
A Crítica da Razão Pura procede à compreensão da síntese da razão, no
que concerne às operações do Intelecto (entendimento). Fornece, dessa forma,
uma teoria do Conhecimento. A Crítica da
Razão Prática submete todo o domínio da moral à legislação da razão,
mostrando que, sobretudo nesse campo, se pode comprovar a atividade
apriorística do universal. Trata-se de uma teoria Ética. A crítica da faculdade
de julgar enuncia os elementos a priori
que constituem o julgamento do gosto, compondo-se como uma teoria Estética.
Na Crítica da Razão Pura, trata-se de descrever o modo pelo qual a
experiência é possível. Aqui duas sínteses atuam, a da sensibilidade e a do
entendimento. Finalmente resta a questão de sua unificação.
Inicialmente, temos a sensibilidade,
como momento de captação dos dados da experiência. A sensibilidade já informa
os dados que recebe, a partir das ideias puras de Espaço (forma do
sentido externo) e Tempo (forma do sentido íntimo). Pelo espaço
justapomos o diverso, e pelo tempo fazemos a experiência de sua sucessão. Essas
duas ideias são formas a priori da sensibilidade.
É somente sobre essa
síntese sensível que o entendimento pode se exercer, enquanto faculdade
de conexão de elementos fornecidos pela sensibilidade. As conexões que podem se
estabelecer entre os dados sensíveis são formadas a partir de categorias,
conceitos a priori que se determinam
conforme: a quantidade (unidade de medida, pluralidade de grandeza,
totalidade); a qualidade (realidade, negação, limitação); a relação
(substância, causa, comunidade); e a modalidade (possibilidade, existência,
necessidade).
As categorias
estabelecem os elos entre os dados, de modo que os juízos universais não só se
possibilitam, mas se demonstram a priori
como válidos. Ora, a experiência permaneceria fragmentada, se a faculdade
transcendental do entendimento não fosse sustentada pelo Eu transcendental,
isto é, por uma forma de unificação que torna “A Experiência” como uma vivência
interior significativa, que o sujeito apreende imediatamente como sendo a sua.
O Eu Penso cartesiano encontra aqui
um outro uso, não mais como um postulado de existência, e sim como o exercício
transcendental da faculdade pura da razão.
Entre a síntese da
sensibilidade e a do entendimento, a imaginação se localiza como lugar
de formação das regras, pelas quais se podem construir as imagens
correspondentes a um conceito. Essas imagens designam-se Esquemas
Transcendentais.
Não são nem o conceito
do entendimento, nem a imagem da sensibilidade, mas, estando entre ambos, o
esquema ordena o modo pelo qual se apreende o múltiplo, parte por parte, no
tempo, formando a imagem de um objeto no espaço. Por exemplo, o esquema da
circunferência será a regra de construção de todas as circunferências
possíveis. O esquematismo transcendental, produto da imaginação, torna
concebível a possibilidade dos objetos do entendimento puro, no domínio mesmo
da intuição sensível.
A Razão não se limita à
função intelectiva do entendimento, relativa à experiência, e permanece
ocupando-se consigo mesma, como se, por sobre essa atividade ordenadora,
pudesse extrair conhecimentos objetivos. Estes parecem à razão licitamente
afirmáveis, como Ideias deriváveis da “uma totalidade” projetada pela razão a
partir da experiência. Essas ideias não são formas da sensibilidade nem
categorias do entendimento, são Ideias puras da Razão: A Alma, o
Mundo e Deus.
Kant afirma que elas
não recobrem nenhum objeto de experiência possível, derivando apenas do
funcionamento puro da Razão que não pode, porém, evitar sua postulação. Por
isso, à crítica cabe assinalar o limite dessas ideias, mostrando que as
questões que originam não possuem uma solução do ponto de vista positivo.
Só a crítica pode
esclarecer o contrassenso no qual se baseiam essas questões, e assim, de certo
modo, “resolvê-las”: são indagações como se Deus existe ou não, se o mundo é
finito ou infinito, se a alma é eterna, etc.: na realidade elas são antinomias
da razão, que não apresentam solução positiva, por não portarem sobre objetos
de qualquer possível experiência.
Na Crítica da Razão Prática, trata-se de superar a visão pela qual a
esfera da moral se realiza como irredutível à razão, um domínio em que só faz
sentido falar de paixões. A moral se estabelecia, até então, ora como o
controle racional da paixão (Descartes), ora como um domínio separado, o da
simpatia (Hume). Ao fundamentar a Razão Prática, Kant pretende ao mesmo tempo
mostrar que há um a priori que se
exerce no âmbito mesmo da vontade, e que a razão dispõe de uma esfera de
atuação em que pode se estabelecer como absoluta, independente de qualquer
contingência dos fatos. Se, enquanto na esfera pura, o entendimento só pode
lidar com fenômenos, Kant procurou demonstrar que, na esfera prática, a razão
lida com a realidade em si, que é a da Vontade, em sua relação com o Dever.
À época de Kant, havia
uma polêmica, no sentido de definir a boa vontade. Por exemplo, havia a
proposta iluminista de que a boa vontade depende do esclarecimento, do
conhecimento. Já, pelo postulado cristão, ela se exerce na relação com aquilo
que lhe é exterior, como amor ao próximo. Kant pretende mostrar que só se pode
compreender a vontade na medida em que se a delimita à sua disposição interna.
Ora, a boa vontade consiste na vontade de cumprir o seu dever. O dever não se
cumpre apenas quando o ato é conforme ao dever, mas sempre que o ato é feito
exclusivamente pelo dever.
Dessa maneira, deixar
de mentir pela recompensa da salvação não é um ato Moral, isto é, estritamente o exercício do dever, porém, algo que
se faz por uma motivação ulterior, o sentimento de piedade ou o interesse
pessoal na salvação.
A adesão da vontade
exclusivamente ao dever significa que aquilo sobre o que a vontade se exerce, a
forma pura da lei, é racionalidade. O dever por si não pode ser
irracional, mas comporta a máxima pela qual a vontade universaliza seus fins. A
vontade moral, aquela que só adere ao dever pelo dever, procede por um Imperativo
Categórico, que prescreve toda ação escolhida como virtualmente aceita e
atuada por todos os agentes racionais, como uma lei universal.
Se alguém desejasse
mentir, e sua ação pudesse ser uma lei, então também seria enganado, e assim
com relação a todas as decisões na esfera da moral. Observe que essa prescrição
não conduz a que a ação é escolhida com o intuito de evitar vir a sofrer os
efeitos que ela impede, porém, apenas pela conformidade à forma racional do
dever. O imperativo categórico, naquilo que possui de eficaz na regulação da
vida em comum, decorre como forma racional prática, não se coloca como um
objetivo visado através dessa forma.
A vontade do ser humano
é, dessa maneira, uma causa livre. Aderir à pura forma do dever ou da
legalidade significa exercer a Liberdade (autonomia), pois, no caso inverso, a
vontade se determina por aquilo que lhe é irredutível (heteronomia). A renúncia
da vontade ao dever significa a sua subserviência ao objeto da paixão, enquanto
que, expressando o seu caráter inteligível, o ser humano é livre.
A lei moral exige que a
sensibilidade mesma seja determinada a
priori por um sentimento que lhe corresponde exclusivamente, o de Respeito
(Achtung), que, no entanto, só podemos experimentar perante a santidade da lei
moral. Esse sentimento é o que nos permite avaliar a excelência de um valor,
comparando-o com outro, e constitui o móvel da ação moral.
Observe como, do mesmo
modo que na razão pura, Kant reverte o modo como habitualmente se propõe a
problemática sob seu domínio. Conforme a razão prática, não é da determinação
do nosso dever que depende a consciência da destinação moral da humanidade,
mas, é porque o dever se impõe como absoluto, que se pode pensar que a
humanidade se destina por um ser onipotente e completamente justo - a
perenidade de meios, que tornam possível o progresso no sentido da perfeição
moral. Deus é concebido como esse ser, o legislador a respeitar. No entanto,
Kant evita toda parcialidade das religiões historicamente comprometidas,
dogmáticas. Essa atitude põe a ênfase na necessidade de postular uma Religião
Natural, que se deduz da Razão.
Já na Crítica da razão pura, quando se tratava
de desfazer os contrassensos causados pelo uso indevido das ideias puras da
razão, Kant postulava a conveniência dessas ideias, se fossem restritas a uma
espécie de função reguladora. Ele propôs que as noções de Alma, Mundo e Deus,
como existências possíveis, são úteis para evitar a desagregação causada pelo
materialismo. Trata-se, então, de uma filosofia do “Como Se”. Agimos como se a alma fosse eterna, como se pudéssemos saber que Deus existe
e que o mundo é coerente e ordenado, e assim encontramos critérios válidos de
retitude e segurança interior.
Em vez de um dogma,
como o do pecado original, Kant observa que é preciso situar o mal como a opção
radical, pela qual o indivíduo renuncia à liberdade, deixa de aderir ao dever,
sujeitando-se à coerção dos objetos de suas paixões. Trata-se de saber se esse
mal radical é evitável, e como. Kant postula que, individualmente, todos são
propensos a se colocar como uma exceção à exigência do dever. Porém, a
existência em sociedade torna necessário que a vontade de uns se limite pelas
de outros, no jogo dos encontros, que fazem da vida algo tolerável.
O ser humano é
coletivamente bom, ainda que individualmente tenda para o mal. Kant crê na força
educadora da história, de modo que postula o progresso humano através da
experiência dos seus erros, até que a humanidade possa atingir uma era de
perpétua paz e plena felicidade.
Na Crítica do Juízo, trata-se de conciliar o determinismo da razão
pura com a liberdade da razão prática. Surge assim a ambiência do gosto, quando
se deve julgar o que é o Belo. Kant mostra que, na contemplação estética, a
bela aparência surge como inteiramente penetrada dos valores do espírito.
A harmonia é uma noção
independente de toda motivação extrínseca e se deve apenas à adesão de nosso
próprio julgamento sobre a obra de arte. A beleza oferece à imaginação a
oportunidade de uma satisfação desinteressada.
O julgamento se exerce
como uma faculdade que extrapola o domínio fechado de cada ato da razão,
conferindo uma unidade, como finalidade universal, seja aos fenômenos da
especulação, seja à realidade da vontade. É dessa faculdade que deriva a
satisfação estética.
Nesse caso, a
finalidade do percebido coincide exatamente com a regra de sua composição: a
obra é feita exclusivamente para agradar. Aí, onde encontramos o plano mesmo do
exercício da faculdade que visa os fins, o que essa faculdade descobre é um
reino destituído de quaisquer fins que não sejam ela mesma, enquanto faculdade
de julgar.
Explica-se por esse
meio o prazer que sentimos através da arte, prazer que se atenua se qualquer
sugestão de interesse ulterior se ajunta à exposição do objeto artístico.
Na ambiência do prazer
estético as faculdades em jogo são: a imaginação, que esquematiza o objeto, e o
entendimento, que fornece o conceito pelo qual ele é julgado. O julgamento
relaciona o esquema ao conceito.
No entanto, o que o
objeto artístico fornece à imaginação é a oportunidade de esquematizar
livremente, sem que haja um conceito dado objetivamente, apenas como se ela
pudesse representar esse conceito. A finalidade, acordo de imaginação e
entendimento, continua existindo nesse caso, mas essa finalidade é “sem fim”,
pois a imaginação não se submete a um conceito de objeto, ela se põe de acordo
apenas com os meios que servem ao entendimento.
Por exemplo, uma tela
representa bem uma cena, mas, sem as relações a que os objetos assim
representados deveriam impor ao entendimento atualizar, se esses objetos fossem
reais. A liberação do exercício da imaginação, através dessa transposição dos
meios do entendimento, garante o prazer estético como o exercício a priori da faculdade de julgar, ou
seja, o prazer tem valor universal, pois deriva do acordo a priori de entendimento e imaginação. O Belo não tem uma realidade
objetiva. Porém ele é universal, por derivar de uma relação dos objetos com as
nossas faculdades.
O criticismo kantiano
pode ser considerado como uma restauração dos valores espirituais,
comprometidos pelo ceticismo e o materialismo que se haviam constituído como
tendências dominantes no século XVIII. No entanto, as implicações da descoberta
do domínio transcendental se revelaram mais extensas do que o próprio Kant pôde
enunciar. Tornou-se assim fundamental ampliar o questionamento sobre as
consequências da partição de empírico e transcendental no âmbito da
Subjetividade.
O cenário do
pós-kantismo, durante o século XIX, desenvolveu essa problemática, e podemos
afirmar, sem sombra de dúvida, que Kant realmente estabeleceu os prolegômenos a toda metafísica futura,
assim como consta o título de uma de suas obras.
Leitura:
“A filosofia de Kant”,
in VERGEZ, André; HUISMAN, Denis. História
dos filósofos. Trad. Lélia de Almeida Gonzalez. 7 ed. Rio de Janeiro: Livraria
Freitas Bastos, 1988, p. 257-284.
Leituras
complementares:
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Coleção Os
Pensadordes. Trad. Valerio Rohden e Udo Baldur Moosburger. 2 ed. São Paulo:
Abril Cultural, 1983.
______. Crítica da faculdade de juízo. Trad.
Valerio Rohden e António Marques. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
1995.
______. A metafísica dos costumes. Trad. Edson
Bini. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2010.
______. Prolegômenos a toda metafísica futuro que
possa apresentar-se como ciência. Trad. Antônio Pinto de Carvalho. São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.
______. Crítica da razão prática. Trad. Afonso
Bertagnoli. São Paulo: Brasil, 1959.
1) Estabeleça uma comparação entre os conceitos
antigo e moderno de Natureza.
2) Escreva sobre a transformação epistemológica
introduzida pelo método experimental.
3) Defina o Racionalismo moderno.
4) Escreva sobre como Descartes estabeleceu os
pressupostos de produção válida do saber relacionados ao critério de
racionalidade.
5) Desenvolva uma reflexão sobre o vínculo entre
a teoria do conhecimento e a esfera prática na filosofia de Locke.
6) Escreva sobre o tema do ceticismo no
pensamento de Hume.
7) O que significa a “Revolução Coperniciana” em
filosofia, implementada por Kant?
8) Mostre
como Kant pôde estabelecer a esfera prática no âmbito da Razão.
9) Escreva sobre a relação entre a filosofia
moderna e o tema do Sujeito.
Gabarito:
1)
“Natureza” conforme o conceito antigo é uma realidade que abrange todos os
aspectos da existência. “Natureza” no sentido moderno se restringe ao aspecto
material da existência.
2) O
método experimental transformou o conceito de conhecimento: desde a
Antiguidade, conhecimento se definia como compreensão das coisas através da
contemplação. Com a introdução do método experimental, desde o Renascimento, o
conceito abrange a ação, a intervenção do ser humano sobre os fenômenos, a
experiência.
3) O
Racionalismo moderno é uma teoria do conhecimento que sustenta o inatismo, não
a partir da realidade em si das ideias, mas sim com base na dependência da
Representação à atividade pensante do sujeito.
4)
Descartes propôs que as implicações lógicas inatas ao espírito garantem a
evidência do saber que se produz apoiado nessas inferências, mas, por esse meio,
ele restringia a validez epistemológica a regiões de produção do conhecimento
derivadas da matemática e da geometria.
5)
Locke procedeu à crítica do inatismo, não apenas do ponto de vista
especulativo, mas, estendendo suas consequências à esfera da moral. Ele mostrou
que os princípios gerais, não fundados do ponto de vista da teoria do
conhecimento como inatos, estavam sempre relacionados a uma moralidade
dogmática, supondo critérios éticos universais. quando a relatividade cultural
dos povos exige métodos mais flexíveis da reflexão moral.
6) Hume
não refutou o ceticismo, porém, em vez de considerá-lo como algo negativo à
produção do conhecimento, sustentou que a limitação da validez aos critérios de
constância e inerência às leis do espírito permitiriam libertar a ciência da
tutela da metafísica, com seus pressupostos limitadores quanto ao que é ou não
racional.
7)
Assim como Copérnico mostrou que somos nós que nos movemos ao redor do sol, não
obstante o circuito aparente do sol no céu, Kant sustentou que é das estruturas
transcendentais da razão que se deriva a ordenação da experiência na forma da
natureza, quando aparentemente é do modo de ser da natureza que se deriva a
experiência que temos de sua organização intrínseca.
8) Kant
conceituou a vontade como uma faculdade racional, pois a definiu como a
postulação do dever. Mas Kant vincula o dever não mais a uma ordem extrínseca,
e sim como a forma universal da adesão à lei. A reflexão moral deveria,
portanto, evoluir no âmbito racional, não mais se conceituando a moral pelo seu
nexo com os sentimentos ou as paixões.
9) O
tema do sujeito emerge na filosofia moderna, em conexão com a intervenção do
ser humano na realidade social e na produção do saber. A filosofia moderna já
tematiza o sujeito como pessoa, não apenas como espécie, mas o conceitua em
termos de sujeito de conhecimento.
Capítulo 7: História e
Ciências Humanas
Vimos
como a filosofia de Descartes limitava o saber científico ao matematizável.
Assim, durante os séculos XVII e XVIII, o pensamento se caracterizou por uma
preocupação com o imediatamente perceptível e formalizável. A história, por
exemplo, se considerava apenas como um exercício de erudição, não como uma
ciência, pois, não lidando com ideias totalmente claras e distintas, não possuía
intrinsecamente racionalidade. Alguns fatores no século XVIII começam a romper
essa circunscrição do saber ao formalismo matemático.
Há
um desenvolvimento do uso do microscópio, favorecendo a compreensão de novos
domínios biológicos. A observação das células e de microrganismos começa a
transformar a compreensão do funcionamento dos sistemas vitais e do corpo
humano.
Há
também uma realidade social em vias de mutação, de modo que aquilo que os seres
humanos fazem, escolhem, ou como se agrupam e regulam sua convivência, se torna
um tema importante de reflexão. Com efeito, nessa época, o confronto da
nobreza, classe típica do Antigo Regime, com a burguesia, já praticamente
aparelhada para assegurar a emergência do capitalismo, se torna agudo. Assim,
durante o século XVIII, proliferam teorias políticas e sociais precursoras da
Sociologia (Montesquieu, Rousseau) e da Economia Política (Adam Smith).
A
influência do empirismo, principalmente de Locke, induz a análises da formação
de ideias, a estudos de índole psicológica, preocupados em compreender a mente,
em descrever o funcionamento das faculdades de interação do ser humano com o
mundo. Essa perspectiva se apresenta voluntariamente desvinculada de
pressupostos metafísicos, apoiando-se apenas na observação dos processos que
envolvem fenômenos como a percepção, a volição, a intelecção, e sua
inter-relação.
Na
transição do século XVIII ao XIX, a filosofia de Kant opera uma transformação,
pode-se afirmar, uma inversão da epistemologia (a compreensão da
ciência) cartesiana. Pois, agora, o domínio mais autêntico da Razão é o
prático, aquilo que expressa a realidade do ser humano enquanto vontade,
decisão ética e engajamento histórico, em vez de ser o puro, aquele do
entendimento no qual se desenvolvem a geometria e o formalismo matemático.
O
século XIX, em que a influência de Kant é predominante, manifesta desde o
início uma tendência nítida a estender o domínio da racionalidade aos fenômenos
humanos, que antes eram visados como fortuitos, relativos, vedados à teorização
consequente. Esse movimento progride pouco a pouco ao longo do século, e
manifesta uma multiplicidade de orientações, até se constituir como uma área
estabilizada de saber, geralmente designada como ciências humanas.
Essa
área de conhecimento se homogeneiza, a partir da introdução de métodos
científicos experimentais, como na Psicologia. Mas, onde isso não se fez
possível, pela natureza mesma do objeto, como na História ou na Antropologia,
essas ciências procuram construir teorias modeladas a partir desse modelo de
racionalidade, limitando-se ao que é observável e passível de ser teoricamente
generalizável, para fornecer afirmações sempre válidas sobre o fenômeno
estudado.
.
Hegel e a Filosofia da História:
No
século XIX, o filósofo que desenvolve as consequências da transformação
epistemológica do kantismo é Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Seu pensamento
inclui vários setores de teorização. Aqui deveremos enfatizar a compreensão
filosófica da História que, no entanto, implica na ampliação dos pressupostos
transcendentais de Kant.
Através
da Crítica da Razão Pura, vimos que
Kant delimitou a acessibilidade do real àquilo que se apresenta formalizado
pelas sínteses relacionadas à faculdade de conhecer. Restava o Númeno, o em-si,
como aquilo a que a razão teria que voluntariamente renunciar, por se manter
incognoscível, inacessível, de modo que qualquer tentativa de fornecer uma
compreensão sobre esse domínio se devia considerar ilusória. Mas essa ilusão
não era apenas uma fantasia sem consequências, ela constituía um real obstáculo
ao livre curso da atividade racional, por produzir falsos problemas, induzir à
impressão de que se deve tratar de assuntos e fornecer respostas onde não há
possibilidade de se alcançar qualquer resultado verdadeiro.
Pode-se
indagar por que Kant conservou um domínio incognoscível, por que não considerou
que o real pudesse ser identificado com a experiência racional. O pós-kantismo
propõe essa questão, e vários pensadores assumem a tarefa de prover, a partir
do transcendental, uma ontologia, isto é, a compreensão do Ser, não
apenas da experiência, assim como se oferece ao Conhecer.
Hegel
se destaca nessa tarefa, na ambiência do pós-kantismo. Jean Hyppolite
caracterizou o desenvolvimento do pensamento hegeliano como transformação da
metafísica em lógica. Com efeito, o que Hegel estabelece é uma compreensão
ontológica alicerçada no conceito fundamental de Espírito, racionalidade pura,
o que é absolutamente Real. A inteligibilidade ou racionalidade plena do
Espírito se estende a todos os processos de efetivação ou concretização da
realidade.
Em
qualquer nível, todos os desenvolvimentos fenomênicos da existência, desde as
forças básicas com que trabalham a física e a química, até o pensamento e a
atividade cultural da humanidade, manifestam uma ordem, uma lógica, que é o
meio pelo qual o Espírito age, se desenvolve e se realiza na história.
Assim,
se esclarece a proposição de Hyppolite, pois o que ele afirma é que transformar
a metafísica em lógica implica na postulação do Logos como atividade reflexiva
e filosófica, ao invés da “coisa em si” como objeto sobre o qual deveria versar
o discurso metafísico, mesmo para conhecer os seus limites.
Postulando-se
o Absoluto como sujeito, o que se realiza como pensamento, a lógica deixa de
ser discurso sobre uma coisa para ser o absoluto mesmo, existindo como
universal concreto. A fundamentação do saber está sendo suposta como momentos
do universal, o Logos sendo apreensão pensante de todas as determinações do
real como momentos de um conceito.
A
história se torna a manifestação da Razão. Hegel pode lançar essa afirmação a
partir de certas noções como dialética, mediação e reflexão. Como só existe o
Espírito, deve-se indagar como é possível o devir, a realidade empírica, a
temporalidade desdobrada nos fenômenos, a história ou mesmo a natureza. Essas
noções permitem, conforme Hegel, fornecer uma resposta a essa indagação.
Pois
o que ocorre geralmente é que visamos o Espírito como devendo ser sempre o que
ele é, já compreendendo a totalidade de si. A partir dessa perspectiva, a
natureza e a história pareceriam supérfluas, sem relação imediatamente
apreensível com o que foi postulado em termos de Espírito ou Real absoluto.
Porém, Hegel não conceitua esse Real como algo apenas considerável em si,
da mesma forma como consideramos um objeto ou um significado inerte, puramente
extrínseco, exterior a nós e a qualquer relação consigo mesmo.
Aqui
intervém, então, a noção de mediação. O Espírito, como Subjetividade, (o
Eu absoluto), não se limita a algo em-si, mas deve se compreender em-si e para-si,
ou seja, deve se auto-apreender. Para tanto ele precisa de uma mediação
consigo, precisa se pôr como Outro para si mesmo, precisa interpor a si uma Reflexão de si.
Conforme
Hyppolite, Hegel afirma que o Outro do Espírito é a natureza ou o aparecer
dos fenômenos. A reflexão do espírito engendra o seu par complementar, e temos
assim a relação entre Absoluto (ideia) e Natureza (outro). A emergência da
natureza assegura ao mesmo tempo a aparição do Logos, como racionalidade, e o
devir do espírito, como história.
O
movimento de mediação do Espírito como Outro para si mesmo é Reflexão, como se
o Espírito se espelhasse na matéria, a Eternidade se refletisse no tempo. No
entanto, dessa forma, a mediação é também Negação, pois a imagem como que nega,
ou se põe como o que não é o Mesmo, aquele que nela se reflete. A
reflexão permanece, porém, um processo. O ato de se pôr é uma tese, o
ato de se refletir como outro, a mediação de si para constituir-se para si, faz
surgir uma negação da tese, a antítese. Ora, todo processo engendra a
sua completude. O Espírito se reúne e realiza numa síntese, naquilo que
ele, pela sua interposição como Outro, se autoconstitui, em-si e para-si.
Esse
processo, pelo qual sempre se sucedem a tese, a antítese e a síntese, é dialético.
Ele se manifesta como Lógica do real, o modo pelo qual o Espírito se efetiva ou
se temporaliza, se concretizando no devir. A história se torna o movimento do
espírito Universal, cada povo, cada civilização, tendo por missão realizar uma
etapa desse progresso do Espírito. Para Hegel, a forma da sociedade que triunfa
em cada etapa histórica é aquela que, naquele momento, melhor expressa o
movimento do Espírito.
A
contradição se torna o “motor do pensamento”, sendo conceituada como dialética,
a negação da tese pela antítese e a negação da negação pela síntese. Assim,
desde as formas básicas da natureza, o espírito como que se aproxima do que ele
mesmo é, retornando a si no elemento da consciência, até, progressivamente, se
realizar plenamente, como Espírito, na Cultura, que recupera todo o movimento
espiritual através do conhecimento filosófico.
Conforme
Châtelet, Hegel estabeleceu o seguinte percurso, desde a consciência sensível
até o Saber absoluto:
· Na
forma mais básica, a consciência é apenas experiência relativa a dados em-si,
que se constituem como sensação. Mas cada sensação presente se
transforma em outras sensações indefinidamente, sem que a consciência possa
estabilizar algo além do que se oferece à experiência do “aqui e agora”, com
seu correlato sensível mutável.
· Estabelecendo
uma mediação a partir do fluxo sensível, a consciência se organiza em três
níveis:
· Primeiro,
renuncia ao fluxo de dados que se substituem interminavelmente e se estabelece
como núcleo estável, perante objetos também estabilizados como correlatos de
significados ou identidades (coisas). Assim, a consciência se faz atividade de percepção.
· A
seguir, pela discriminação de objetos estabilizados, o entendimento se
estabelece, pois a consciência, já perceptiva, se volta sobre si, isto é, como
que se reflete como sistema, que
ordena os percebidos.
· Então,
voltando-se sobre si, a consciência se constitui como Sujeito, ser para-si, isto é, se torna consciência de si.
Ele designa sua realidade como força (desejo) e deve estabelecer sua identidade
frente a outro sujeito, através do reconhecimento
de cada um pelo outro, o que implica o conflito, a descoberta de si como
limitado pelo outro.
Esse
momento se concretiza na história através da luta que os sujeitos enfrentam, ao
fim de que se constituem as posições do senhor e do escravo. Essas posições
deverão se inverter, progressivamente, pois ambas são posições do sujeito, logo
posições do espírito, no movimento de tornar-se Razão.
Até
que as posições se compreendam na sua relatividade, invertendo-se, o espírito
como que progride no registro da filosofia, desde a atitude estoica
(resignação) à atitude cética (negação).
Essas
atitudes filosóficas são momentos orientados pelo desejo de conquistar a liberdade,
contudo, elas se chocam com a irredutibilidade das posições que, na verdade, só
existem como constitutivas para o sujeito. Nesse momento, todavia, como ainda
precedendo a Razão, o espírito se limita, a partir da atitude cética, a
perceber que é livre, não porque pode compreender o real, e sim porque pode
ordená-lo, a partir de sua ação destrutiva sobre o outro (senhor) ou de sua
atividade produtiva sobre a natureza (escravo).
O
trabalho, tornando o escravo ele mesmo senhor sobre a natureza, favorece o
reconhecimento pelo senhor da dominação do escravo sobre a necessidade, e nesse
momento as posições se invertem. O que ocorre é que os sujeitos se compreendem
no seu processo de assujeitamento pelo real, pela necessidade, qualquer que
seja sua posição. Incapazes de se descobrirem como livres frente a essa
realidade, os sujeitos permanecem infelizes, até que a consciência de si possa
sair de si, tornando-se Razão.
Na
constituição da Razão há dois momentos:
·
Inicialmente, a consciência de si como
sujeito compreende que deve sair de si, estabelecendo uma Realidade
(inteligibilidade) independente. Por esse meio a razão se desenvolve,
historicamente, desenvolvendo conhecimentos especializados da natureza,
estabelecendo as regulações da individualidade, éticas e políticas, criando
também a arte e a religião.
·
Finalmente, a razão se encaminha à
filosofia, ao pensar o Ser, ideia da qual se estendem o não-ser e o devir. Ora,
assim, a razão apreende o que o pensamento é, movimento dialético, movimento de
contradição entre conceitos, como do ser ao não-ser e ao devir. Nesse momento,
que é o da Cultura, o Saber que se faz absoluto, o ser humano realiza o
Espírito na sua progressão, desde o ter se posto como outro, até ao seu retorno
ao que ele mesmo é e desenvolveu no percurso.
Na
razão como saber absoluto se evidencia a conexão do espírito consigo mesmo,
pois o que se manifesta é o movimento do pensamento como reflexão dos seus
momentos sucessivos, que se reúnem no conceito. O pensamento
auto-apreende seu modo de se constituir como sendo a ordem mesma da realidade.
Dessa
maneira, se desfazem na Razão as dualidades com que trabalha o entendimento:
entre essência e existência, Logos e Natureza, saber absoluto e saber empírico,
em-si e para-si. O absoluto, sendo Espírito, é reflexão e mediação de cada um
dos termos no outro.
Tampouco
permanece a noção de conhecimento como algo exterior ao sujeito, no entanto, a
realização do espírito como cultura enuncia que aquilo que o sujeito pensa se
concretiza, nele mesmo, como movimento do absoluto, como vivência ou
experiência efetiva do Real.
A
contradição é também o “motor da história”, pois o devir histórico é o
pensamento (espírito ou absoluto) que se realiza no tempo. Hegel interpreta o
real como processo e identifica o devir como Razão, forma lógica, dialética, do
desenvolvimento do real, “marcha e ritmo das próprias coisas”. Abole-se a
distância entre natureza e cultura, domínio das ciências naturais e dos
fenômenos humanos.
Todo
o real é racional. Isso porque se operou uma profunda transformação no conceito
de lógica, que deixa de se enunciar como pura captação de identidades, para
apreender o movimento de contradição no coração do absoluto.
E
por esse meio a filosofia de Hegel fornece uma epistemologia apta a suportar a
emergência de conhecimentos sobre o ser humano que se compreendem no âmbito da
racionalidade e da cientificidade. Registra-se, também, a crítica de Hegel à
ética de Kant, pois, para ele, o conceito de universal kantiano, sua concepção
do imperativo categórico, se mantém abstrato, limitado ao indivíduo. Somente a
apreensão do devir do espírito permite a inserção do universal como particular
concreto, manifesto nas formas de moralidade instituídas pela comunidade.
. Marx e o Materialismo Histórico
. As influências: Hegel e Feuerbach
Kant havia conceituado a moralidade em termos racionais, mas
não deixou de constatar a irracionalidade da conduta dos seres humanos na
concretude da história. Em consequência, ele formulou uma teoria destinada a
superar o hiato entre os fatos e a razão, pela qual a história como horizonte
da convivência deveria progressivamente conduzir ao aperfeiçoamento das
instituições.
Mas, no devir situado, no mundo, Kant aceitou que só se
poderia contar com a tendência irracional do ser humano à satisfação de seus
próprios intuitos egoístas.
Vimos que Kant reverteu a interdição cartesiana de tratar a
história do ponto de vista racional, porém, seu método, quanto a isso,
limitava-se à observação de muito longo alcance, acerca da melhoria das
instituições, um pressuposto filosófico, não tanto uma prescrição ao fazer
localizado do historiador, que só tem a tratar com os fatos, numa ambiência
efetiva.
A filosofia de Hegel assinala um momento importante do
percurso à inteligibilidade plena, que caracteriza o momento pós-kantiano, em
que se procura eliminar o resíduo incognoscível que havia permanecido na
teorização de Kant.
Com Hegel é a história em seu devir que resulta como
manifestação da Razão.
Hegel sustenta essa tese a partir de certas noções como dialética, mediação e reflexão. Aceitando como pressuposto que só existe o Espírito, deve-se indagar como é possível o devir, a realidade empírica, a temporalidade desdobrada nos fenômenos, a história ou mesmo a natureza. As noções mencionadas, conforme ele, permitem fornecer uma resposta a essa indagação.
Hegel sustenta essa tese a partir de certas noções como dialética, mediação e reflexão. Aceitando como pressuposto que só existe o Espírito, deve-se indagar como é possível o devir, a realidade empírica, a temporalidade desdobrada nos fenômenos, a história ou mesmo a natureza. As noções mencionadas, conforme ele, permitem fornecer uma resposta a essa indagação.
O movimento de mediação do Espírito como Outro para si mesmo
é Reflexão, como se o Espírito se espelhasse na matéria, a Eternidade se
refletisse no tempo. Mas assim a mediação é também Negação, pois a imagem como
que nega, ou se põe como o que não é o Mesmo, aquele que nela se reflete. A
reflexão permanece, portanto, um processo de mediação pelo qual do simples
existir o espírito se torna consciente de si mesmo.
O ato de se pôr daquilo que é em-si é uma tese; o ato de se
refletir como outro, a mediação de si para se constituir para-si, faz surgir
uma negação da tese, a antítese. Ora, todo processo engendra a sua completude.
O Espírito se reúne e realiza numa síntese, naquilo que ele, pela sua interposição
como Outro, se auto-constitui, restituindo a sua identidade, em-si e para-si.
Esse processo, pelo qual sempre se sucedem a tese, a
antítese e a síntese, é dialético. Contudo, em Hegel, ele subentende um
progresso, uma realização da tese à síntese, por meio da contradição e da
antítese, como processo pelo qual o Espírito sempre se torna absolutamente
coincidente consigo mesmo, em cada circunstância localizada. Assim, é o
pensamento, o espírito, o criador e o motor do Real.
Na época do maior prestígio de Hegel, ainda na metade
inicial do século XIX, a obra de Feurbach apresentou uma oposição frontal às
suas premissas acerca da preeminência do espírito sobre a realidade factual.
Feuerbach sustentou, inversamente, a preminência do ser sobre o pensar, conceituando
o ser não mais como ideia, e sim como o sensível.
Tudo o que se torna objeto dos sentidos seria então
verdadeiro e real, a ideia se limitando a conteúdo do pensamento. Não havia,
para Feurbach, sido cabalmente demonstrado jamais qualquer vínculo a priori que
implicasse a conexão do pensamento com a realidade.
O percurso de Feuerbach se realizou no sentido de acentuar
as premissas do materialismo, até negar qualquer conteúdo ideal como realidade
humana efetiva, limitando esse real do homem às suas necessidades de nutrição e
à sua fisiologia.
Especialmente a religião se tornou alvo dos ataques de
Feuerbach ao idealismo que teria invertido a verdadeira relação do humano com o
divino. Não seria Deus quem criou o homem, porém, o homem cria Deus, como o
símbolo daquilo que idealiza como a sua perfeição genérica, universal, algo,
contudo, sempre irrealizável na tessitura das relações reais do indivíduo com o
mundo material.
Nessa concepção, a religião atua como uma ilusão, um
narcótico, que interdita ao ser humano a consciência de sua própria autonomia.
Hegel
propôs a progressão dialética como lógica do real, mas, para ele, isso só se
possibilitava porque o Real é Espírito, a reflexão do puramente inteligível ou
Razão. Apenas se deveria compreender a razão a partir do movimento, de suas
contradições e sínteses, não como a simples apreensão de identidades. Nessa
perspectiva, a história deveria estar conduzindo à realização da Razão,
qualquer que fosse o resultado material desse processo. Por isso, a recepção do
pensamento de Hegel oferece duas vias de interpretação opostas:
·
A
extremamente conservadora, que considera a partição social do presente, por
mais injusta, a própria via do espírito, de modo a pensar a dominação estatal
como expressão espiritual. O próprio Hegel era um adepto do absolutismo.
·
E
aquela que tem em Marx o seu expoente mais importante, caracterizando-se por
conservar a inteligibilidade dialética, porém, aplicando-a, de modo a evitar
aquelas consequências que interditavam a apreensão da injustiça presente na
realidade social.
O
pensamento de Marx inverte a inserção da dialética conforme estabelecida por
Hegel. Ao invés de ideal, como expressão de um processo espiritual, trata-se de
compreender o movimento e a contradição no âmbito da efetividade, sem pressupor
outra realidade, além da que se manifesta concretamente a nós como
materialidade.
Não
se pode prejulgar que a história esteja expressando algo como a atividade
ordenada de um ser que não os agentes sociais e as relações em que se engajam.
Tampouco
a racionalidade dos fenômenos naturais, que a ciência recupera em seu saber,
precisa ser atribuída a algum fator externo às forças determinadas que se
inter-relacionam em cada fenômeno. Marx pretende deslocar o eixo da filosofia,
e da produção do saber em geral, da Reflexão à Ação.
Marx
está conceituando o real como inteligível, mas porque os agentes que determinam
o que ele é coexistem conforme relações ordenáveis, compreensíveis à elaboração
da ciência. A inteligibilidade se justifica visto que as interações materiais
manifestam a ordem de sucessão da tese, da antítese e da síntese, o que se
evidencia nos movimentos naturais de evolução e transformação. Essa teoria é a
do materialismo dialético, supondo o mundo inteligível a partir da
conceituação das forças presentes em cada fenômeno e suas contradições.
Aplicando
a dialética assim conceituada ao campo dos fenômenos sociais, Marx desenvolveu
o materialismo histórico. Conforme o postulado na sua tese do mundo,
tratando-se da sociedade, deve-se, ao mesmo tempo, compreender o sentido de
suas transformações e identificar as forças atuantes. O conjunto das
transformações que afetam a sociedade é o objeto da história.
. A parceria: Marx e Engels
A obra de Feuerbach abalou seriamente o prestígio da
filosofia de Hegel. Marx foi especialmente influenciado por seu materialismo.
Fundamentalmente, o pensamento de Feuerbach implicava numa
transformação da autocompreensão humana. Agora, era o homem o exclusivo sujeito
da história, deduzindo-se que, se quisesse compreender-se e realizar-se,
deveria expurgar a noção de que suas ideias, incluindo Deus, fossem prévias a
ele mesmo, enquanto sujeito pensante.
No momento inicial de seu percurso, Marx procurava
interconectar múltiplas vertentes de orientação: a dialética do hegelismo
invertida por Feuerbach, as ideias comunistas de Moses Hess e a importância da
classe que surgira, como uma consequência paradoxal da hegemonia burguesa
alcançada pela Revolução Francesa, o proletariado.
Nessa época, Marx transitou de uma aceitação irrestrita das
ideias de Feuerbach a uma constatação crítica de que ele privilegiava
indevidamente o estatuto das ideias sobre a condição de alienação do ser
humano.
Marx intuía que as ideias não poderiam ter uma força de
penetração na conduta se não estivessem de algum modo suportadas pela própria
ação das pessoas, sendo a ação mais importante do que o pensamento que se
manifestava apenas como uma justificativa ulterior dos atos. Com base nessa
crítica, ele lançou a famosa injunção: “Os filósofos têm
apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém,
é transformá-lo” (MARX, Karl. Teses
sobre Feuerbach, tese 11, 1845, in
Arquivo Marxista na Internet, http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/tesfeuer.htm).
O encontro de Marx com Engels determinou uma viragem no
pensamento de Marx. Engels realizava nessa época, aproximando-se da metade do
século XIX, uma prospecção de campo para descrever as condições de vida da
classe trabalhadora, visitando o proletariado real para haurir o material
necessário à obra que consagrou a esse tema.
Mas Engels não pretendeu apenas realizar um trabalho
descritivo, interessando Marx principalmente porque desenvolveu uma teoria que
explicava as condições miseráveis da classe trabalhadora de Manchester em
termos de sistema de relações de classe que subsumia o trabalho como um produto
igual a qualquer outro, isto é, passível de venda e compra, conforme
determinações de mercado que alienavam o fator humano do trabalhador.
A colaboração entre Marx e Engels, desde 1845, parece a
alguns autores algo inigualável na história da cultura. Ela se implementou a
partir da assimilação por Marx dessa teoria de Engels como a chave para a
compreensão do desenvolvimento industrial que ele estava buscando formular como
uma teoria da história.
O Manifesto Comunista
de 1848 resulta como mistura de ideias dos dois autores e o caráter vago de
suas proposições, destinadas a sintetizar numa perspectiva de conjunto as
vertentes independentes do trabalho de cada um, mostrou-se algo oportuno, pois
favoreceu a sua aceitação em meios muito variados da esquerda.
Quanto ao Capital,
de que se iniciou a publicação em 1867, Marx trabalhou numa base de pesquisa
documental com o intuito de ampliar o modelo descritivo de Engels, desde uma
coletividade limitada à classe trabalhadora em geral, tentando assim
implementar uma teoria econômica mais abrangente em termos históricos, partindo
das premissas de um sistema produtivo de mercado.
A base tradicional ou ortodoxa do marxismo se desenvolveu
como interpretação das teses fundamentais dos escritos desse período de
parceria com Engels, que poderia se rotular como aquele do “Marx adulto”. Os
tópicos mais geralmente associados a esses escritos são o conceito de alienação
e a teoria do modo de produção que enuncia a concepção marxista dialética da
evolução histórica.
O conceito de Alienação provém das ideias de juventude de
Marx, mas ganha expressão através da teoria do modo de produção dessa fase
posterior. Marx pensa a alienação como a identificação do homem com os seus
produtos, que se lhe opõem e o escravizam. Ele começa por enunciar uma
alienação religiosa, influência de Feuerbach, para progressivamente conceituar
as alienações ideológica, política e econômica.
Essa progressão se verifica numa conexão com a maturação da teoria do materialismo histórico, que finalmente fornece uma explicação e uma perspectiva social de libertação da alienação.
Essa progressão se verifica numa conexão com a maturação da teoria do materialismo histórico, que finalmente fornece uma explicação e uma perspectiva social de libertação da alienação.
A concreção do materialismo histórico impede a conceituação
das relações sociais e da história apenas como produtos de ideias, como havia
feito Feuerbach, mas também supera a crítica inicial, no que elas se produziam
apenas pela interferência ou ação do sujeito humano. Agora, Marx as subsumia a
estágios de desenvolvimento econômico-produtivo.
Marx havia concebido a dialética como invertendo a noção de
Hegel pelo que, da tese à síntese o que progride é o espírito. Marx pensou que
a teorização de Feuerbach permitia demonstrar que o processo dialético deveria
se fazer sempre na imanência do elemento sensível ou material.
A natureza mesma exibia processos dialéticos, porém, não
como um aperfeiçoamento espiritual e sim como sínteses inerentes ao
funcionamento do mundo material.
Quanto àquilo que se poderia conceituar como superestrutura
social, suas instituições culturais, o “espírito”, seria na verdade derivado da
estrutura econômica de base.
Por esse meio, Marx associava agora o conceito de alienação
ao de ideologia, pois as instituições culturais seriam não expressões puramente
objetivas de verdades ou, inversamente, fantasias do arbítrio humano, em todo
caso isentos de pressupostos sociais, mas espelhavam as relações de classe
definidas na base econômica.
A concepção dialética materialista se aplicou à história, enunciando a evolução social como parte da evolução natural, já que postulava a contradição, que assegura a transição da tese à síntese, como um processo que atua em qualquer setor do real. A interpretação marxista da história inclui ainda uma teoria evolutiva conforme épocas descritíveis e uma prospecção de desenvolvimento futuro.
A concepção dialética materialista se aplicou à história, enunciando a evolução social como parte da evolução natural, já que postulava a contradição, que assegura a transição da tese à síntese, como um processo que atua em qualquer setor do real. A interpretação marxista da história inclui ainda uma teoria evolutiva conforme épocas descritíveis e uma prospecção de desenvolvimento futuro.
As épocas da história são:
1. A primitiva, em que existe um
comunismo sem divisão de classes.
2. A escravista, onde se instaura a
propriedade privada dos meios de produção como os instrumentos, a terra e os
trabalhadores escravizados.
3. A época feudal, onde a propriedade
privada se exerce transformando as relações de produção em relações de
servidão.
4. O capitalismo, em que a
industrialização sistematicamente substitui a força muscular por máquinas e
define a produção apenas visando o lucro, onde o trabalhador se torna livre
para vender sua força de trabalho ao capitalista.
A ttransição entre as épocas se caracteriza pela mudança do
predomínio das classes que as tipificam, em um processo dialético, pelo qual
cada classe engendra a classe que lhe é antagonista.
Esse processo conduziu à formação do proletariado como
antagonista da burguesia. Mas uma revolução proletária só poderia ocorrer
quando as relações sociais existentes se mostrassem incompatíveis com o
progresso da produção, tornando-se assim uma previsão histórica, não um produto
da vontade do ser humano. Aos teóricos do proletariado restam apenas
alternativas táticas que permitem resolver quando ocorre a maturidade desse
progresso, quando existem meios favoráveis para a intervenção revolucionária.
Marx sustenta por esse meio que as condições desumanas e
contraditórias da produção capitalista devem conduzir a um colapso final do
sistema de dominação burguesa. Prevê a era comunista posterior à capitalista,
em que se verifica: o fim da propriedade privada, do sistema social burguês e
da luta de classes, do Estado, da religião e das divisões das modalidades do
trabalho e entre cidade e campo.
No intervalo do capitalismo ao comunismo, Marx conceitua um
período de transição, a ditadura do proletariado, em que se implementa a face
revolucionária da classe trabalhadora, sua luta empenhada na consecução do novo
momento histórico.
Após os anos de vida de Marx as ideias de Engels se
encaminharam numa convergência com o positivismo. Engels procedeu assim a uma
atenuação da perspectiva sociológica ou histórica do marxismo e do seu próprio
pensamento anterior, para convergir a conceituação da sociedade mais no sentido
de uma teoria da evolução natural.
No entanto, ele revê a limitação da hipótese revolucionária
ao jogo de forças da produção, sustentando a possibilidade da conquista do
poder pela via parlamentar numa conjuntura de crescimento político da socialdemocracia
alemã. Com a expansão do capitalismo europeu, na transição ao século XX, houve
a melhoria do nível de vida do operariado alemão, o que contribuiu para aquilo
que se tornou o “revisionismo” socialdemocrata das teses de Marx,
generalizando-se nesse meio a atitude de Engels.
O partido socialdemocrata encorajou a participação política
do proletariado na efetividade presente do jogo político democrático, reduzindo
a importância das discussões acerca da interpretação correta das ideias de Marx
sobre a dialética e sua relação com a revolução futura.
A contribuição de Lenin se enuncia precisamente pela recusa
dessa socialdemocracia integrada à sociedade burguesa como prática autêntica do
proletariado revolucionário. Lenin concentrou sua atividade crítica na noção de
imperialismo, processo capitalista pelo qual as forças de extorsão do lucro
sobre a produção se unem em instâncias cada vez maiores e mais influentes, até
determinar a dominação de todas as nações pela oligarquia financeira ligada a
alguns países que se tornam superpotências.
Lenin não crê que essa dominação resulte de uma união
pacífica entre as potências, mas do contínuo equilíbrio de forças que estende
suas relações de concorrência a todos os lugares do planeta.
Tampouco pensa que o capitalismo assim estará contribuindo
intrinsecamente para sua própria superação e nisso se contrapõe frontalmente à
opinião inversa de Rosa Luxemburgo. Enquanto ela supõe que o capitalismo
internacionalizado na forma do imperialismo acaba por não ter mais mercados que
lhe serviriam como esferas ulteriores de acumulação, Lenin afirma que o
capitalismo assim integrado sempre cria modos de adaptação que lhe permite
sobreviver.
Lenin propõe que, frente à exacerbação da exploração, e
inversamente ao postulado pela teoria marxista original, o partido comunista se
reveste de um papel revolucionário autêntico, podendo intervir em qualquer
estágio da produção, no sentido de instaurar pela força a ordem do
proletariado.
Lembrando que as condições de vida do povo russo nessa época
mostravam-se numa conjuntura de crise, ainda marcadas pela predominância do
campesinato, Lenin pôde justificar a tomada do poder pelos trabalhadores, mesmo
que isso, aparentemente, fosse contraditório com o pressuposto marxista do
amadurecimento das forças de produção, pelo qual somente após ter completado a
revolução burguesa um país poderia ostentar uma atitude revolucionária do
proletariado.
As noções de imperialismo e de
Partido Comunista como sujeito autônomo da revolução não pareceram a Lenin uma
ruptura com Marx, mas um complemento à sua teorização com base na efetividade
histórica do progresso do capitalismo.
O marxismo ortodoxo, oficialmente
propugnado na URSS, integrou, aos escritos do Marx adulto, as contribuições de
Lenin e a limitação, por Stalin, da teoria à sua aplicação a um único país, a
Rússia.
. O Marxismo
Marx
observou que, no bojo das inúmeras mudanças localizadas, podemos isolar um
movimento, como uma marcha que se repõe através das eras, uma espécie de
evolução, que se expressa no desenvolvimento das técnicas e das condições de
produção, isto é, no âmbito da atividade econômica, do trabalho humano. Marx
designou forças produtivas os elementos que interagem nessa evolução e
propôs que se podem identificar estágios precisos do seu desenvolvimento
histórico.
As
forças produtivas (técnicas e condições de produção) se agregam em determinadas
relações de produção, isto é, se determinam em regimes históricos nos
quais certas relações se instituem entre aqueles que participam da atividade
econômica. Marx estabelece dois conceitos básicos para compreender as relações
de produção, a apropriação e a propriedade. Temos assim:
- Uma relação básica entre os recursos da natureza e
as necessidades do ser humano, que não supõe intermediação, consistindo na apropriação dos meios de produção pelo
produtor no processo do trabalho.
- Uma relação que se institui somente a partir da
separação entre meios de produção (objeto e/ou meio de trabalho) e trabalhador,
que subentende a propriedade desses
meios por um agente histórico, classe, casta ou pessoa. Ao fazer dos meios de
produção uma propriedade sua, esse agente histórico extrai do produto do
trabalho realizado pelo trabalhador um excedente (sobretrabalho ou mais-valia),
como se o trabalhador devesse pagar para utilizar os meios de produção, que
pertencem ao proprietário, ou receber apenas um salário pela sua atividade, não
todo o valor do produto que ele elabora.
Marx
estabelece, a partir desses dois conceitos, os estágios históricos da evolução
social, caracterizando cada estágio a partir de um certo modo de produção,
isto é, uma combinação de elementos (forças produtivas e relações de produção)
estruturais.
Haveria
um estado inaugural da história que seria o da comunidade natural. Aqui os
dois conceitos, de propriedade e de apropriação, estão unidos. Aqueles que se
apropriam dos meios de produção são eles mesmos donos desses meios -
propriedade coletiva da terra, meios de trabalho agrícola comunal.
O
Estado ou Império já se institui como uma “unidade”, proprietário
supremo, unidade superior, que organiza a apropriação - irrigação, grandes
construções. Legitimiza assim, por meio dessa atividade organizadora, a sua
propriedade e se beneficia da extração do sobreproduto do trabalho, na forma de
tributos a serem pagos pelas comunidades que o integram.
No
Modo de Produção Feudal, a atividade econômica sendo a agricultura,
estabelecem-se relações extrínsecas, marcadas pela violência ou pelo direito,
através das quais o sobretrabalho é extraído das atividades dos servos pelos
representantes da classe dominante (Senhores feudais).
Entre
o regime feudal e o capitalismo da era industrial se institui um regime de
transição, o da Acumulação Primitiva, pelo qual as atividades comercial
e manufatureira substituem o predomínio da propriedade da terra. Na atividade
manufatureira os produtos são fabricados por artesãos, que possuem os meios de
confeccioná-los. Mas, pouco a pouco, possuidores de capital se interpõem sobre
a manufatura e constituem a transição para a atividade fabril. Fornecendo eles
mesmos máquinas e equipamentos e se apropriando assim do produto do trabalho,
esses agentes separam progressivamente o produtor dos seus meios de produção.
O
Capitalismo ocorre quando se encontram dois elementos: o possuidor do
capital (o capitalista) e o trabalhador livre, totalmente separado dos meios de
produção. No período de acumulação primitiva constituem-se processos
independentes de formação de capitais, por um lado, e de desvinculação do
trabalhador dos meios de produção, por outro. Na época da Revolução Industrial,
esses dois fatores já estão plenamente estabilizados e a partir de sua
conjugação o regime capitalista se institui.
Os
agentes envolvidos em cada modo de produção não se compreendem como tais, mas
desempenham os papéis históricos que lhes competem pela partição da
propriedade, como se fosse a sua realidade “subjetiva”, aquilo que eles “são”.
E, de modo complementar, as relações sociais que o modo de produção institui
não são produzidas a partir dos sujeitos que as vivenciam, mas são estruturais.
Assim, são essas relações que constituem os papéis sociais, não os sujeitos
desses papéis que instituem as relações. Marx identifica o modo de produção - o
regime da sociedade - como uma combinação estrutural de elementos
composta em dois níveis fundamentais:
-
Infraestrutura: conexão de forças produtivas e relações de produção.
-
Superestruturas: instâncias que fornecem o suporte ideológico da
justificação e da legalidade das relações infraestruturais. São os sistemas
políticos e jurídicos, as teorias filosóficas e religiosas que legitimam a
exploração de classe como expressões de ordens espirituais, normas de educação,
etc. A superestrutura afeta, portanto, todo o campo da cultura.
“Ideologia”
é o termo que resume a operação de ocultamento da natureza das relações sociais
como expressões do modo de produção. É o domínio de formação de ideias que têm
as seguintes funções:
· Ideias
que recortam papéis sociais, definindo os agentes como sujeitos de classe.
Exemplo: o trabalhador deve ser
humilde e respeitoso, o patrão deve
ter espírito de iniciativa e força de caráter; senão, são censurados como pessoas inadequadas.
· Noções
que conduzem à identificação do sujeito com o seu papel de classe, como se
fosse a sua verdadeira identidade. Exemplo: tradições que fazem o sujeito
aderir aos símbolos de sua estratificação social, como se fossem a sua
“cultura”, isto é, a expressão da sua inserção histórica no grupo a que
pertence, como garantia de sua aceitação social; o trabalhador recusa parecer
muito educado ou intelectualizado, o burguês recusa atividades de trabalho
não-especializado, as produções artísticas tendem a espelhar a setorização do
público etc.
· Modos
de pensar que reproduzem a relação de dominação entre as classes. Exemplo:
preconceitos que permanecem após a absorção de certo grupo no todo da
sociedade, como aquele ligado à cor da pele, que anteriormente marcava o grupo
escravizado; e pré-julgamentos como “o pobre é pobre porque é preguiçoso, o rico
é rico porque não se acomoda”, “misturar-se com preguiçosos induz aos maus
hábitos”, etc.
A
ideologia se opõe à “ciência” como conhecimento não “distorcido” das
relações que realmente ocorrem no âmbito da natureza ou da sociedade. Todavia,
isso não quer dizer que o exercício concreto da ciência, principalmente das
ciências humanas, esteja isento de ideologia. Institui-se, então, um problema
complexo, pois se trata de compreender, em cada formulação teórica, o que se
compromete ideologicamente e o que se desenvolve como crítica autêntica e
conhecimento efetivo.
Atualmente,
a questão da ideologia chegou a um impasse, podendo-se supor que não há
possibilidade, dado o envolvimento cultural, de haver um desprendimento total
dos pressupostos ideológicos. Ainda que não impeça completamente a produção do
saber científico, essa suspeita conduz a uma relativização sempre necessária
dos seus resultados, como à inserção histórica e localizada dos seus
pressupostos, em vez de considerá-los, como na época da formação das ciências
humanas, passíveis de total universalidade e isenção.
O
processo dialético da história, como proposto por Marx, relaciona-se a uma
contradição inerente à lógica de formação das classes. Isso possibilita
compreender a sucessão dos modos de produção. Se cada modo de produção engendra
um regime social em que certa classe é dominante, e o modo se define por um
certo conjunto de meios e técnicas, é compreensível que mudanças nesse
conjunto, alterando a produção, alterem também a composição de forças sociais.
Mas
essa alteração não se faz de modo aleatório ou casual, pois a classe favorecida
como que produz, dialeticamente, as condições de sua negação ou ultrapassamento
histórico. Assim, à nobreza se sucedeu a burguesia, e a burguesia não pode se
estabelecer sem depender do proletariado, que deverá ser a classe responsável
pelo regime que sucederá o capitalismo, o socialismo.
A
visão histórica do marxismo é otimista, supondo que a humanidade realizará
finalmente o comunismo, solvendo as classes como a propriedade, tornando
a produção suficiente para todos e a educação avançada o bastante para se
emancipar da sua função ideológica. Mas, na efetividade presente, a visão do
marxismo é crítica, de uma sociedade de classes em luta, na qual o traço
predominante é a exploração dos trabalhadores, a mistificação do seu estado
dominado por meio de doutrinas conformistas, ilusórias, que não revelam em
discurso aquilo a que se destinam na realidade.
. O Marxismo Humanista
Os acontecimentos relacionados ao pós-stalinismo instauraram
uma atmosfera de desencanto nos meios marxistas internacionais, pois se
revelaram os aspectos duros do sistema ditatorial soviético. Concomitantemente
vêm à luz escritos do “jovem Marx”, publicados em 1932, porém, devidamente
avaliados na sua importância teórica só após a revolta húngara de 1956.
O marxismo-leninismo ortodoxo é considerado agora uma
prática anti-humanista, lastreada pela teoria dos modos de produção relacionada
à dialética, aquela tese associada à maturidade de Marx, que depende da
imbricação entre leis econômicas e leis naturais.
O ponto fundamental que a reavaliação do marxismo com base
nos escritos do “jovem Marx” recusa é precisamente a conexão entre a dialética
como processo natural ou mecânico e a minimização do papel do sujeito na
história. Essa corrente “humanista” do marxismo, opondo-se à orientação
tradicional, tem como representantes mais proeminentes György Lukacs, Antonio
Gramsci, Roger Garaudy, Ernst Bloch, Lucien Goldmann, Leszek Kołakowski e
Robert Havemann.
O que pode ser postulado como estando em comum entre os
teóricos nessa corrente é a premissa pela qual a realidade do humano é
irredutível à realidade da natureza. Portanto, as leis dialéticas naturais ou
mesmo a mecânica da produção não devem ser consideradas como determinantes do
agir humano, mas somente numa base de comparação poderiam servir na
caracterização dessa ação. A história não pode ser determinada por leis
dialéticas ou econômicas, porém depende da livre iniciativa dos sujeitos que se
associam uns com os outros.
A liberação do homem é uma realização que só pode ser
implementada pela sociedade. Sendo um objetivo social, contudo, não pode ser
visada como um ideal abstrato da espécie, e sim como algo relativo às pessoas
singulares que integram a humanidade efetiva.
Não poderia tampouco ser creditada a um partido ou a um
líder a função de intérprete das leis históricas abstratas de que dependeriam a
estipulação do critério ético que fundamenta a prática social. A práxis deve
ser algo que promove o desenvolvimento das pessoas na sociedade, sendo o seu
critério ético o sujeito humano.
Assim, tampouco se deixa de investir o presente para
reservar todos os esforços ao futuro.
O partido não se conceitua numa base de preminência frente à
pessoa singular, que se torna o valor referencial relativamente autônomo da
prática social.
Resgata-se a liberdade de consciência, seja religiosa ou da
pesquisa científica, da prática artística ou do posicionamento social, como
também da efetividade política, que deve ser democrática, sustentando as
eleições livres e a cidadania, com acesso a todos os escalões do governo.
A face humanista do marxismo atuou decisivamente na
conjuntura internacional, influindo na oposição ao regime ditatorial da cortina
de ferro e contribuindo para afrouxar a sua truculência, sem abrir mão das
premissas renovadas do socialismo.
. Atualidade do Marxismo
A fenomenologia existencialista interceptou o marxismo
através, principalmente, de Sartre. O estruturalismo também intercepta o
marxismo do modo mais preminente, na obra de Althusser; mesmo o pós-estrutural
mantém um vínculo com Marx.
O que ocorre é que, na atualidade, o pensamento social não
deixa de se relacionar a conceitos nucleares, que surgiram na teorização de
Marx, ou às inúmeras vertentes que a tematizam.
Por exemplo, há o problema do conceito de classe marxista e
sua relação possível com os modelos sociológicos de conflito: as classes seriam
um fator preponderante ou apenas vinculado ao conflito, uma vez tendo sido este
conceituado como processo intrínseco ao social?
Subsistem, dessa maneira, variadas questões ligadas a Marx,
como a de saber até que ponto se pode vincular a economia à sociologia e à
política, ou como avaliar a irredutibilidade entre as épocas históricas.
Os temas oriundos do marxismo se apresentam de modo amplo
nas ciências humanas, seja como pontos de oposição que sugerem modelos
alternativos, seja como focos aceitos de desenvolvimento teórico em
circunstâncias variáveis.
Sobretudo o marxismo como doutrina revolucionária convergiu
com os movimentos de esquerda, em conjunturas imprevisíveis ao ambiente
original de Marx, como as lutas pela descolonização na Ásia e na África.
E, numa aproximação mais ampla, podemos afirmar que a compreensão
da contribuição de Marx à história da filosofia permanece fundamental para
lidar com o panorama das produções culturais da contemporaneidade.
Link:
Arquivo Marxista na Internet http://www.marxists.org/portugues/index.htm
Filme:
Eles não usam black-tie (1981), de Leon Hirszman
Leituras Relacionadas:
ARON, Raymond. As
etapas do pensamento sociológico. Trad. Sérgio Bath. 2 ed. São Paulo:
Martins Fontes, Brasília: UnB, 1987.
CHÂTELET, François et
alii. História das ideias políticas.
Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
NOGARE, Pedro Dalle. Humanismos
e anti-humanismos. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1977.
REX, John, Problemas
fundamentais da Teoria Sociológica. Trad. Edmundo Jrge. Rio de Janeiro:
Zahar, 1973.
ROUSSEAU,
Jean-Jacques. Do Contrato Social e
outros textos. Coleção os Pensadores. Trad. Lourdes Santos Machado. 2 ed. São
Paulo: Abril Cultural, 1978.
Atividades:
1) Conceitue de modo sucinto a oposição entre as
interpretações ortodoxa e humanista do marxismo.
2) Selecione algum tópico de convergência do marxismo com o
cenário do pensamento humano atual.
Gabarito:
1) A interpretação ortodoxa do marxismo interpõe um vínculo dialético
na compreensão do desenvolvimento das forças produtivas, o que determinava, por
exemplo, a necessidade da revolução burguesa preceder à conscientização
política da classe proletária. Na interpretação humanista do marxismo,
enfatiza-se o papel libertário dos agentes sociais, reservando-se o critério
ético da ação política à noção de pessoa, de humanidade efetiva, de modo que
nenhuma imposição se justifica sobre a liberdade de consciência do sujeito.
2) Resposta pessoal. Os elementos do texto que podem ser enfatizados
são: convergência entre o conceito de classe e os modelos sociológicos de
conflito; conceituação da economia; irredutibilidade entre épocas históricas.
Capítulo 8: O Contexto Cultural na Era
Contemporânea
. Formação das Ciências Humanas
No momento moderno, entre os séculos XVII e XVIII, o
pensamento se caracterizou por uma preocupação com o imediatamente perceptível
e formalizável, mantendo-se na proximidade da filosofia de Descartes, que havia
limitado a cientificidade ao matematizável. A história se votava a um exercício
de erudição. Não lidando com ideias totalmente claras e distintas, não possuía
intrinsecamente racionalidade, não poderia ser considerada uma ciência.
O século XVIII assiste à emergência de certos fatores, que
historicamente influem na superação desse paradigma epistemológico cartesiano.
O uso do microscópio favoreceu a conquista de novos domínios biológicos. A
observação das células e de microrganismos transformou a compreensão do corpo
humano. Isso favoreceu o interesse por conhecimentos ao mesmo tempo objetivos e
não determinados pela sua conexão com a geometria.
A realidade social encontra-se num processo de
transformação. O confronto da nobreza com a burguesia se agrava. A atuação do
ser humano surge como tema importante da reflexão, envolvendo teorias políticas
e sociais precursoras da Sociologia (Montesquieu, Rousseau) e da Economia
Política (Adam Smith).
A influência do empirismo, e principalmente de Locke, induz
ao exame da formação das ideias, à descrição do funcionamento do intelecto em
sua interação com o mundo. Essa perspectiva se apresenta voluntariamente
desvinculada do inatismo e da metafísica, com base exclusivamente empirista:
observação dos processos mentais como a percepção, a volição, a intelecção, e sua
inter-relação.
Na transição do século XVIII ao XIX, a filosofia de Kant
opera a inversão da epistemologia cartesiana. Kant logrou conceituar o domínio
prático em termos estritamente racionais, expressando a realidade do ser humano
enquanto vontade, decisão ética e engajamento histórico. Nesse sentido, o
prático seria ainda mais votado ao racional que o puro, o domínio do
entendimento no qual se desenvolvem a geometria e o formalismo matemático, pois
na esfera da moralidade evolui a responsabilidade histórica do ser humano
frente ao seu mundo.
No século XIX generaliza-se a tendência a estender o domínio
da racionalidade aos fenômenos humanos, que antes eram visados como
impermeáveis à teorização consequente. Esse processo conduz à constituição de
uma área estabilizada de saberes que se designam ciências humanas.
Em algumas disciplinas humanas ocorre a introdução de
métodos científicos experimentais, como na Psicologia. Onde isso não se
possibilitou pela natureza do objeto, como na História ou na Antropologia, a
orientação científica se verifica pela construção de modelos teóricos que
investem a racionalidade, privilegiando o que é observável e pode ser
teoricamente generalizável.
. A Sociedade de Massas
Na transição do século XIX ao século XX, transformações
importantes na organização da sociedade se instituem, como a formação de
conglomerados empresariais e do modo de vida urbano característico da
industrialização em grande escala. O progresso tecnológico atinge todos os
setores sociais.
Naturalmente, seria esperável a transformação no conceito de
totalidade social. A noção de população, como um conjunto limitado de
habitantes identificados por seus traços de solidariedade histórica a um
ambiente local, se tornou incompatível com a realidade dos centros urbanos.
Surge o conceito de massa, conjuntura crescente de integrantes anônimos,
incógnitos quanto à proveniência ou inserção cultural.
Um dos aspectos desse impacto tecnológico é a estetização do
espaço urbano, correlato da penetração dos meios de comunicação possibilitada
pelos instrumentos de reprodução da imagem. O volume de informação canalizada
ao ser humano no espaço de convivência se tornou vertiginoso, transformando os
dados de sua relação com a arte e com a cultura. Logo se tornou patente que o fenômeno
da penetração da comunicação em massa não se limitava a uma questão de
quantidade, sendo de qualidade.
Walter Benjamin, refletindo sobre esse fenômeno cultural,
propôs que a reprodutibilidade técnica se veiculou a um novo público, as
massas, que deviam consumir formas novas de arte como a fotografia, os
quadrinhos e o cinema. Isso afetou a recepção das formas tradicionais da
cultura, que contavam agora com esse novo público.
Ocorreu uma assimilação da cultura autêntica como produto
tecnicamente reproduzido, uma banalização do fenômeno cultural. Benjamin
conceituou essa assimilação como obstáculo à veiculação da arte como uma
revelação existencial do ser humano, já que estava circunscrita à indústria do
entretenimento, ao objetivo de divertir, subsumido a todo tipo de veiculação
ideológica.
A linguagem dos meios de comunicação em massa, como observou
McLuhan, impõe novos modos de percepção e de pensamento, estilos de vida e de
consumação. A sociedade se torna uma “Galáxia de Guttemberg”, um espaço completamente
modulado pelos meios de comunicação. Esse processo se radicaliza na ambiência
da “Globalização”, em que a inserção econômica no mercado internacional força
as localidades nacionais à adoção da mesma linguagem cultural ocidental.
Geralmente, se conceituam dois períodos da penetração da
tecnologia e da comunicação, que resulta em uma autêntica tecnocultura.
No período modernista, que compreende o início do século XX,
a reprodutibilidade técnica impôs uma revolução na arte. Surgem novos meios de
expressão, como o cinema. Outros meios, já estabilizados, como a pintura,
sofrem a interferência da fotografia e das técnicas de reprodução da imagem.
A arte empreendeu salvaguardar a sua especificidade frente
aos produtos de simples consumação corriqueira. Com esse intuito, tendeu a
criar meios de expressão relacionados ao seu “fazer”, liberando-se do seu
compromisso com o produto, o objeto estético.
É o momento da vanguarda, no início do século XX,
tipificando-se em movimentos como o dadaísmo, o primitivismo e o abstracionismo
que conviveram com estilos mais claramente influenciados pela tecnologia, como
o futurismo e a arquitetura da Bauhaus.
Já no momento pós-moderno, na segunda metade do século XX e
na atualidade, a estratégia de manter uma pureza estilística irredutível à
linguagem da comunicação em massa e às formas de reprodução tecnológica do
produto estético se torna inviável.
A indústria, incluindo a comunicação, penetra no próprio
modo de produção artístico, que agora incorpora gêneros popularizados,
materiais sintéticos, espaços de veiculação e formas de arte tecnicizadas, como
o vídeo e a poesia computadorizada.
O pós-modernismo procura recuperar as formas de expressão
minoritárias, referências culturais não-ocidentais e manifestações das comunidades
localizadas, inversamente a produzir um código imposto de uniformidade
estilística.
Sua utilização das linguagens homogêneas da comunicação
surge como desfiguração, “pastiche” do papel impositivo de consumações ou
padrões de comportamento, que os clichês assim reutilizados geralmente
veiculam. Mas o pós-modernismo se utiliza de todas as formas historicamente
localizáveis de arte como material dessa atividade humorística de reelaboração
estética.
Filme:
Eternamente Pagu (1988), de Norma Bengell
Leituras Relacionadas:
BARTHES, Roland. Mitologias.
Trad. Rita Buongermino e Pedro de Souza. 4 ed. São Paulo: Difel, 1980.
COSTA LIMA, Luiz (org.). Teoria
da cultura de massa. Rio de Janeiro:
Saga, 1969.
CULLER, Jonathan. Teoria
literária; uma introdução. Trad. Sandra Vasconcelos. São Paulo: Beca
Produções Culturais, 1999.
BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na época de suas técnicas
de reprodução”. Textos escolhidos.
Coleção Pensadores. Trad. José Lino Grünnewald et alii. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
Atividades:
1) Explique a relação que Benjamin conceituou entre arte e
formas de reprodução técnica da imagem.
2) Escreva sobre o momento pós-moderno, enfatizando algum
aspecto que você considere importante.
Gabarito:
1) Benjamin observou que as formas de reprodução técnica da imagem
veiculam o objeto estético como um produto banalizado pela relação de
consumação. Enquanto que, tradicionalmente, a arte era considerada como uma
revelação, mantendo uma “aura” de fascinação, que se desfaz com sua transformação
em produto de mercado.
2) Resposta pessoal. Os elementos do texto que podem ser enfatizados
são: incorporação da linguagem da comunicação em massa e das formas de
reprodução técnica da imagem na produção estética; recuperação de formas de expressão
minoritárias; pastiche (recriação humorística de estilos e obras).
Capítulo 9: O desenvolvimento da Filosofia
Analítica, antecedentes
A obra de Comte introduz o termo “positivismo”. O pensamento
de Comte ainda parece impregnado daquela ambientação romântica que caracteriza
o início do século XIX. O positivismo, nessa obra inaugural, se desenvolve no
sentido de uma religião da humanidade.
Mas o essencial dessa doutrina, aquilo que introduz de tão
revolucionário e mesmo atual, é a reversão epistemológica que impõe. Por isso,
não importa muito que Comte tenha mistificado o estágio científico, ao tentar
transpor de modo desfigurado a ciência a todos os aspectos sociais e culturais
humanos.
O decisivo aqui é que as regiões fundadoras, a religião e a
metafísica, são consideradas superadas, enquanto a ciência, até então vista
como um saber derivado, acessório ou meramente destinado à utilidade mais
comezinha, é agora conceituada como o horizonte espiritual da humanidade.
O que embasa essa conceituação é um deslocamento do eixo do
pensar, um dos mais notáveis acontecimentos na história da filosofia,
possibilitado pela reunião, em uma mesma orientação, de empirismo e
positivismo, ao que veio favoravelmente ao encontro o evolucionismo.
Com efeito, a preminência da ciência impõe uma dupla
inversão de perspectivas. A religião e a metafísica haviam atrelado a temática
da origem e do sentido a algo irredutível ao mundo material ou da experiência,
algo que seria ao mesmo tempo da ordem do todo.
A teologia religiosa conceituava o elemento originário em
termos de intervenção sobrenatural. A metafísica procurava conceituá-lo sem
admitir o sobrenatural como elemento satisfatório de explicação, porém,
instalando-o no infinito ou absoluto, tentava compreendê-lo por seu
encadeamento causal com o mundo da experiência.
A ciência instala no fenomênico a raiz de toda explicação
possível dos fatos do real, e, nesse âmbito, a explicação procura partir das
partes, não do todo.
A compreensão dos fenômenos não se dirige de um modo geral,
como explicação do universo, mas, de modo local, como explicação situada.
A própria teoria acerca do todo ou do universo se vota a uma
região localizada de observação, como a física. É da experiência, portanto, que
se faz agora derivar todo conhecimento, não sendo admitida qualquer intuição
intelectual das essências, conforme o postulado empirista de Hume e a tendência
mais característica do Iluminismo.
O encontro do positivismo empirista com o darwinismo impôs
duas tendências no cenário de constituição do pensamento científico do século
XIX. Inicialmente, há a redução mecanicista e materialista de todo o domínio do
real. A noção de que há descendência das espécies, considerando-se a seleção em
conexão com variações acidentais, com o acaso, não com qualquer finalismo,
concede solução positiva aos problemas de gênese e origem, até então votados às
especulações metafísicas e religiosas, devido à sua aparente impossibilidade de
uma resposta natural.
Estendendo essa conquista da biologia ao amplo espectro de
regiões cobertas pela teorização científica, o positivismo do século XIX
conduziu, como em Spencer, à tentativa de reduzir a fórmulas deduzidas de ações
mecânicas também os fenômenos físicos, psicológicos, morais e sociais.
Assim, desenvolveu-se ainda a tendência a aplicar o
darwinismo ao pensamento social. A sobrevivência do mais apto se desloca, da
lenta maturação das espécies naturais num meio casual de variação e coerção
interfenomênica, ao mundo social, onde se aplica como um critério de sucesso
humano.
Essa noção se matiza: em Félix Le Dantec ela é apenas a
aceitação dos hábitos morais e intelectuais do homem como caracteres
hereditariamente transmitidos, sem que se possa prever o sentido da evolução,
devido à complexidade dos dados. Em Spencer, as leis da evolução, leis da
natureza, devem conduzir ao “bem social”, onde o indivíduo não tem mais que
optar ou sequer apresentar consciência como sentido de escolhas, a sociedade
devendo se tornar tão automatizada como as coletividades de formigas ou
abelhas.
Em Renan, trata-se de confiar a evolução às elites dos
reformadores sociais e espirituais, como São Paulo no cristianismo. Em Joseph
Arthur de Gobineau, muito lido nos ambientes nazistas,
trata-se de conceder uma base “científica” ao dogma da superioridade das raças
do Norte, coibindo-se misturas degenerescentes, para recuperar a “pureza” da
raça “forte” não contaminada pelo “Oriente” ou outras populações “fracas”. Em
Ernest Haeckel há a tendência otimista que visa à evolução, como conduzindo ao
altruísmo e à sociabilidade, pela moral do amor aos semelhantes.
Quanto a esse aspecto social, importa registrar que o
fundamental é o deslocamento operado pelo positivismo no âmbito simbólico. À
religião e à metafísica se vota agora o domínio do incognoscível, pois o
conhecimento só pode ser efetivo se vinculado ao experimenciável. Desse
pressuposto, seguem-se consequências axiais quanto ao intelecto (espírito) e à
moralidade (espiritualidade). O espírito se reduz a suas operações: sensação,
imagem, conceito, juízo e raciocínio, reduzidas, por sua vez, às leis de
associação desde o dado sensível. Quanto à espiritualidade, se não apresenta
veiculação ao conhecimento, não deixa de apresentar uma realidade social
efetiva de religiosidade.
A ciência pode se debruçar sobre essa realidade social e
preservar o símbolo, por meio da história e da filologia, conforme a proposta
de Renan. Essas duas ciências permitem compreender o desenvolvimento das
doutrinas místicas que proporcionaram à humanidade, ao longo do tempo, o
sentido de sua elevação espiritual, não importando o fato de serem ilusórias,
mas sim que historicamente concederam nobreza às aspirações do ser humano.
Essa proposta é geralmente aceita na ambiência do século
XIX.
O positivismo conduziu ao empiriocriticismo de Richard Avenarius e Ernst Mach. Em Avenarius, trata-se de antepor à aspiração de uma intuição do todo, de origem irredutivelmente intelectual ou espiritual, a concepção do conhecimento como atividade que supõe uma interação com o meio.
O positivismo conduziu ao empiriocriticismo de Richard Avenarius e Ernst Mach. Em Avenarius, trata-se de antepor à aspiração de uma intuição do todo, de origem irredutivelmente intelectual ou espiritual, a concepção do conhecimento como atividade que supõe uma interação com o meio.
A interação cognitiva depende do sistema nervoso e das
variáveis que regulam o seu funcionamento: as condições de sua conservação
(nutrição) e os estímulos do meio sobre sua aptidão receptiva (excitação),
variáveis que devem sempre estar se compensando ainda que nunca alcancem um
equilíbrio perfeito. O conhecimento é o processo pelo qual o ser humano procura
tornar ótima a sua relação com o mundo, que se torna familiar pela tendência a
comunicar aos semelhantes suas impressões, e posteriormente refletir sobre o
que comunica. Só então, o sujeito pode estabilizar para si mesmo um conteúdo
informativo.
Com Mach, cujas ideias foram geralmente aceitas por
Einstein, ocorre a crítica da noção de que o conhecimento é identificação de
processos causais. Mach antepõe que o processo da teorização científica decorre
da matematização do observável, reduzindo-se as relações verificadas a funções
que as reúnem conforme coerções recíprocas e localizadas.
O mundo, na visão do empiriocriticismo, pode ser
integralmente descrito, apresentando continuidade plena entre o físico e o
psíquico. O que não deve ser proposto é a penetração na realidade em si,
substância ou subjetividade absolutas, pois os fenômenos resultam da
complexidade de elementos da realidade factual enquanto apreensível pela
teorização científica.
. O Círculo de Viena
No século XX, um grupo de cientistas lançou um manifesto
autointitulando-se o “Círculo de Viena”, assinado por Hahn, Neurath e Carnap
(1929). O círculo estendeu suas atividades a várias instituições, como a
Sociedade Ernst Mach e a Sociedade de Filosofia Empírica de Berlim.
O manifesto do Círculo de Viena veiculou a “concepção
científica do mundo”, com ênfase no problema do conhecimento proposto na
perspectiva das ciências exatas, manifestamente prolongando o “espírito das
luzes” (Iluminismo) e o positivismo empirista do século precedente.
Estabeleceu, porém, a atualidade dos seus trabalhos, relacionando-os à análise
lógica do real de Russel na Inglaterra, ao pragmatismo de Henry James nos EUA,
citando ainda muitos nomes então ilustres como conexos à sua orientação
antimetafísica, destacando as concepções norteadoras de Albert Einstein.
Quanto às características comuns dos pesquisadores
estritamente relacionados como membros do “Círculo”, inicialmente nenhum deles
estava originalmente relacionado à filosofia pura, vindo, sim, de vários ramos
da ciência, onde evoluíam suas perspectivas partindo de atitudes filosóficas
algo heterogêneas. A docência de Schlick, em Viena, os reuniu progressivamente,
fazendo suas diversas perspectivas convergirem em torno da filosofia do jovem
Wittgenstein, que, nessa época, compunha ao seu modo a base do empirismo de
Russel.
O empirismo nesse momento adotava como lema que uma asserção
cognitivamente dotada com sentido, falsa ou verdadeira, ou é analítica
(idêntica, como A=A), ou é testável através da experiência.
Conforme Russel, todo conhecimento sintético é fundado sobre
a experiência, portanto, relativo, inexato e parcial, se confrontado com os
critérios metafísicos de validez absoluta decorrentes de sua conformidade com o
modo de ser do real estabelecido por uma declaração de princípio, como por
exemplo, o a priori de Kant.
Wittgenstein forneceu a fórmula desse lema de verificação,
que se tornou o “princípio” antimetafísico do empirismo, no aforismo 4.024 de
seu Tratactus Logico-Philosophicus:
“Compreender uma proposição, quer dizer, saber qual é o caso, se ela é
verdadeira.” (WITTGENSTEIN, Ludwig. Tratado
lógico-filosófico e Investigações filosóficas. Trad. M. S. Lourenço.
Lisboa: Fundação Caloustre Gulberkian, 1987, p. 56), o que quer dizer que “O
sentido de uma proposição é seu método de verificação” (apud BOUVERESSE, Jacques, “A Teoria e a Observação na Filosofia das
Ciências do Positivismo Lógico”, in
CHÂTELET, François. História da Filosofia;
ideais, doutrinas.Vol. 8: O Século XX. Trad. Hilton F. Japiassú, Rio de
Janeiro: Zahar, 1974, p. 80.) O texto “Sentido e Verificação” de Schlick
desenvolve amplamente essa tese, característica da fase inicial dos trabalhos
do Círculo.
A questão evoluiu no âmbito da necessidade de conceituar
adequadamente a verificabilidade. O que deveria ser verificável era a
proposição conforme sua pretensão de ser verdadeira. Dessa maneira, se o
fenômeno exibe características observáveis como propriedades ou relações
físicas descobertas pela observação, a linguagem que pode ser verdadeira é
aquela que compõe, partindo de predicados de observação que designam essas
características, proposições de observação que recusam ou atribuem a certo
objeto uma característica determinada.
A verificabilidade se torna a possibilidade lógica de um
conjunto de dados verificadores concludentes formulados em proposições de
observação. Seu correlato é o fisicalismo, a possibilidade de traduzir qualquer
proposição dotada de significação em uma proposição da física, isto é, conforme
a terminologia de Carnap, a possibilidade de se ater exclusivamente a uma
“linguagem coisal”.
Uma concepção de mundo parecia poder ser deduzida de modo
válido desse princípio, pois, delimitando o âmbito do sentido a essa linguagem
científica, o Círculo propôs a consecução de uma ciência unitária, os membros
devendo ter como objetivo do seu trabalho coletivo a harmonização e o
inter-relacionamento das descobertas feitas em setores particulares da ciência.
Como resultado dessa unificação, a concepção científica de mundo seria uma
visão do real fundamentada no modo de ser dos fenômenos.
Ao mesmo tempo essa visão deveria ter alcance social, pois, excluindo definitivamente as bases não-racionais da religião e da metafísica, as relações econômicas e sociais seriam reordenadas, em bases racionais fornecidas pela ciência.
Ao mesmo tempo essa visão deveria ter alcance social, pois, excluindo definitivamente as bases não-racionais da religião e da metafísica, as relações econômicas e sociais seriam reordenadas, em bases racionais fornecidas pela ciência.
O manifesto não deixa de manifestar uma simpatia com relação
ao pensamento socialista, ao constatar que geralmente as massas desencantadas
com as doutrinas metafísicas e teológicas “caducas” exibem uma atitude
“pró-socialista”. Porém, sua proposta nesse campo social expressa mais a
confiança na reorganização da sociedade pela penetração da ciência na vida
comum através da educação, da arquitetura, e, mais geralmente, de todos os
setores em que as conquistas científicas são aplicadas na melhoria do nível de
existência.
Continuava-se assim a pensar que a ciência poderia fornecer
o simbolismo de sentido à existência do ser humano, mas, enquanto já unificado,
esse sistema simbólico nada mais deveria ter a ver com as “impurezas das
línguas históricas”, apresentando-se preferencialmente como um sistema geral de
conceitos, no pressuposto de que nada havia restado de incognoscível ao ser
humano.
Observe que o termo “conceito” aqui está sendo utilizado de
modo inverso ao filosófico, porque se relaciona a um termo delimitado
estritamente dentro de uma base científica-observacional, enquanto o conceito
filosófico depende apenas de uma definição estrita.
Os problemas filosóficos tradicionais foram considerados
falsos problemas, e o novo sentido da tarefa filosófica devia ser clarificá-los
pela análise lógica, a fim de localizar o seu desvio, o ponto em que as proposições
derivam de termos consistentes a termos inconsistentes, quiméricos ou
destituídos de sentido, do ponto de vista do conteúdo. A análise lógica, como
método rumo à ciência unificada, seria um traço distintivo do “novo”, no
domínio do positivismo.
Todavia, a progressão da tarefa de constituir uma ciência
unificada esbarrou com o obstáculo conexo àquele de definir a verificabilidade.
O princípio verificacionista, conceituado na base das proposições de observação,
foi alvo de numerosas críticas, a mais consistente delas sendo que exclui
proposições negativas. Mas, por esse meio o problema se amplia, já que a
linguagem nunca pôde ser efetivamente reduzida ao observável.
O vínculo entre linguagem e experiência, nada fácil de
definir, estendeu uma multiplicidade de vias, exemplificando a tentativa de
conceituação adequada. Ao mesmo tempo, essas tentativas articularam-se aos
temas da definição do conhecimento e do trabalho científicos.
O princípio de verificabilidade de Wittgenstein, que a
princípio informou a “base observacional” do empirismo clássico de Carnap,
transitou ao operacionalismo de Bridgman, que propôs leis lógicas como
suplementos, critérios operacionais de redução do desconhecido ao conhecido, da
natureza à teoria, sempre que o processo não pudesse ser feito de modo direto
partindo da observação.
O instrumentalismo de Dewey propôs a lógica como simples
teoria da pesquisa científica, uma ferramenta do pesquisador empenhado em
transformar, de modo controlado, uma situação indefinida em uma situação
definida. A lógica deixava de ser formal, para ter que se desenvolver numa base
flexível de correspondência às necessidades da pesquisa.
O pragmatismo de James, Peirce e Feyerabend repõe o elemento
subjetivo da crença no âmago da pesquisa científica. A axiomática de Ramsey
procurou fornecer um sistema linguístico descritivo capaz de restringir ao
máximo a classe de objetos coberta pelas proposições. Finalmente, a
falseabilidade de Popper, que se tornou a via mais recorrente do
neopositivismo, substituiu a verificabilidade, propondo que uma teoria é
científica se, em vez de se destinar a provar-se “verdadeira”, tem seus
enunciados aceitos como válidos apenas enquanto não se apontam fatores que
possam comprovar sua inadequação, isto é, enquanto não houver sido falseada.
Na ambientação da Segunda Guerra, houve emigração aos EUA
dos integrantes do neopositivismo. À emigração se sobrepôs uma mudança de
orientação, pelo que, da análise lógica, o eixo se voltava à semântica, à
teoria do significado.
Até então, a preocupação com o estatuto verdadeiro da
proposição, na conexão com o observável, havia resultado numa concepção
sintática da linguagem, que se convencionou designar no-facts theory.
A verdade ou falsidade decorrem respectivamente da
compatibilidade ou da incompatibilidade das proposições do sistema teórico
aceito, enquanto as teorias se conceituam em termos de princípios facultativos
de caráter sintetizante, o que conduz à ideia da construção do saber científico
como ordenação do conjunto dos dados sensoriais atômicos, uma base mínima
responsável pela possibilidade da reconstrução lógica do mundo.
O problema é que, cada vez mais, parecia que a atividade
teórica, com seus pressupostos de método experimental, poderia estar prévia ao
sistema simbólico resultante aceito assim, como conjunto de proposições
verdadeiras, apenas na dependência da teoria. As tentativas que vimos, de repor
o princípio de validez das proposições científicas, testemunham o esforço para
resgatar o nexo com as próprias coisas, ou, ao menos, para resgatar a
consistência de sentido atribuída às proposições científicas, no processo mesmo
pelo que era negada às proposições “metafísicas”.
A viragem semântica não esgotou as possibilidades do
neopositivismo, apesar de que, de fato, ele parecia ter aportado a um impasse.
O célebre The Meaning of Meaning (O significado de significado) de Ogden e
Richards pareceu estabilizar a orientação semântica neopositivista, fornecendo
uma teoria do simbolismo linguístico. Considerou-se a língua como sistema de
signos com alcance verificacional, permitindo a negação ou a afirmação de algo
como certo na sua função simbólica, processo que consiste em colocar a palavra
no lugar da coisa, a partir de uma atividade de referencialização, que pode
então ser correta ou incorretamente recuperada, conforme a recepção repõe ou
não a mesma referencialização.
Todavia, se reserva uma função emotiva da linguagem, não
passível de atribuição quanto à verdade ou à falsidade, correlata à expressão
de relações subjetivas, como na ética, na metafísica, na arte. A esse domínio
do subjetivo não mais se atribui o sem-sentido, porém, o não verificável. No
entanto, por esse meio, a ciência já não poderia ser unificada, redundando numa
“concepção de mundo”.
Essa via semântica articulava a teorização do significado
com o funcionamento do signo. Charles Morris, ao introduzir a semiótica como
teoria geral do signo, enfeixou as três áreas a serem cobertas pela teoria: a
sintática, que trata das relações inter-sígnicas; a semântica, que trata da
relação do signo com o referente e a pragmática, que enfatiza a relação do
signo com os usuários.
Morris deslocou a concepção pragmática do seu tradicional
aporte subjetivista, integrando-a organicamente à semiótica geral. Ao mesmo
tempo, repôs a ambição neopositivista de uma ciência unificada. Mas a
“linguagem das linguagens”, a semiótica geral, revelou-se como podendo ser
tanto uma ciência geral como uma filosofia, ao modo da cosmologia de Alfred Whitehead.
A Viragem semântica havia sido favorecida pelos trabalhos de
Alfred Tarski, que, desde 1933, com a publicação de O conceito de verdade nas linguagens formalizadas (On the Concept of Truth
in Formal Languages), buscou mostrar que as relações
semânticas podem ser lógicas e tão rigorosamente tratadas quando as sintáticas.
Tarski tematizou a célebre oposição entre linguagem-objeto, que é aquela que
pode apresentar uma relação com o referente extralinguístico, e a
metalinguagem, a linguagem que tem por objeto a própria linguagem-objeto.
Tarski e Morris influenciam Carnap a desenvolver uma
imbricação entre sintaxe, semântica e pragmática, que permitisse tratar
hierarquicamente a linguagem, desde o nível superior, mais puro, da sintaxe,
até o nível de introdução dos predicados empíricos ou factuais da semântica,
onde se instalam as teorias científicas.
Essa imbricação conduziu à possibilidade de construção de
linguagens teóricas, partindo de dois eixos: a formalização, que vai do nível
semântico ao sintático; e a interpretação, que conduz no sentido oposto, do
sintático ao semântico. Constituiu-se assim a semântica lógica, supondo a
correlação entre o sistema formal sintático e suas interpretações e incluindo o
problema da verdade como correspondência semântica da proposição e dos estados
de coisas, das correlações signo-significado.
O sistema semântico deixa de ser uma reconstrução do mundo
para se tornar um sistema de interpretações, sistema de regras, formulado na
metalinguagem e referente à linguagem-objeto, assim construída. São as regras
que determinam a condição de verdade das orações da linguagem-objeto.
Paralelamente, o pensamento de Wittgenstein evoluía do tipo
de teorização do seu Tratactus à
especulação das Investigações Filosóficas.
Esse “segundo Wittgenstein” reverteu as concepções demasiadamente otimistas do
início do seu empreendimento filosófico, que contava com a possibilidade de uma
unidade enunciável em temos de Verdade. Agora, Wittgenstein aportava à sua
teoria da irredutibilidade dos Jogos de Linguagem, fazendo a “verdade” se
tornar relativa ao modo de funcionamento de cada “jogo”.
Esse resultado pareceu redobrar as conclusões relativistas
da semântica lógica, tornando as proposições metafísicas não mais possivelmente
votadas ao nada de sentido, pois seria perfeitamente consequente construir uma
linguagem em que as proposições metafísicas se consideram sensatas.
. Atualidade da filosofia analítica
Na Alemanha e nos Estados Unidos, o conceito de “filosofia
analítica” permaneceu conexo ao de “neopositivismo”. Nesse aporte, aceita-se
que o neopositivismo está inevitavelmente marcado pela ideia de uma “ciência
unificada”, estando, portanto, confrontado pelo avanço das ciências humanas,
que pretendem situar uma região de cientificidade irredutível àquela das
ciências da natureza.
Há, também, a proposta de uma continuidade básica do
positivismo, que estaria se estendendo ao enfoque científico da atualidade,
como implícito na perspectiva do físico Stephen Hawking. O positivismo, na sua
relação intrínseca com o empirismo, seria uma estratégia para evitar o problema
da “verdade” por trás da teoria. Dessa forma, Hawking afirma que a validez de
uma teoria cosmológica se garante apenas por sua utilidade, enquanto modelo
utilizável e não falseado do Universo, mas, nada pode assegurar quanto ao modo
mesmo de ser do Real.
Na Inglaterra, porém, considera-se o neopositivismo como uma
fase de transição da filosofia analítica. Fase inicial que teria sido superada
pela tendência atual dessa filosofia, predominante em Cambridge e Oxford, a
adotar a orientação do “segundo Wittgenstein” no rumo de uma preocupação
determinante com a linguagem.
Salientam-se no cenário atual as contribuições de Quine e
Rorty, ambos desenvolvendo a possibilidade mais pragmática ao proceder à
crítica no interior da filosofia analítica.
Quine procura refutar o que designou de “os dogmas” do
empirismo, que seriam a contraposição das verdades analíticas e sintéticas e o
reducionismo dos termos e asserções ao observável na experiência.
Quine deslocou a contraposição de analítico e sintético para
o par verdade lógica/verdade factual. Ele mostrou que a sinonímia, base do que
seria a verdade analítica, como no exemplo “todo solteiro é não casado”, não
pode ser garantida quando a intenção não é meramente referencial, mas envolve a
convenção linguística, como no caso “solteiro tem menos de dez letras”. A
partição do que seria idêntico ou analítico e o que seria sintético revela-se
dogmática.
No caso do reducionismo, Quine se esforça por demonstrar que
o princípio de verificação é ele mesmo “metafísico”. O que propõe é um
“empirismo sem dogmas” que considera o conhecimento como um campo ou sistema
centro-periferia. Na periferia estão os elementos observáveis, externos, da
experiência; no centro, os elementos lógico-conceituais. As conexões da
experiência com as asserções particulares seriam mediadas pelo equilíbrio do
campo como um todo.
Rorty procedeu a uma crítica ácida a todo tipo de discussão
envolvendo premissas supostamente isentas de pressupostos pragmáticos.
Fundamentalmente, a sua objeção à tradição analítica é que, ainda que se
pretenda na atualidade como neo-positivista, conserva a ideia de que a
filosofia descreve ou analisa estruturas formais a-históricas, pretensão que
ele considera não justificada do ponto de vista teórico.
Rorty defende uma leitura histórico-pragmática da cultura, pelo que interpõe a necessidade de resgatar as intenções sociais e a inserção dos participantes na produção do conhecimento.
Rorty defende uma leitura histórico-pragmática da cultura, pelo que interpõe a necessidade de resgatar as intenções sociais e a inserção dos participantes na produção do conhecimento.
Site:
QUINTON, Anthony, “Filosofia Analítica”, in http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/quinton.htm
Filme: Tempos Modernos
(1936) - Charles Chaplin
Leituras relacionadas:
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PESSIS-PASTERNAK, Guitta (entrevistas). Do caos à inteligência artificial. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São
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OGDEN, C. K.; RICHARDS, I. A. O significado de significado; um estudo da influência da linguagem
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de B. Malinowski e F. G. Crookkshank. Trad. Álvaro Cabral. 2 ed. Rio de
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SOULEZ, Antonia (org.). Manifeste du Cercle de Vienne. Carnap -
Hahn - Neurath - Schlick - Waismann - Wittgenstein.
WITTGENSTEIN,
Ludwig. Tratado lógico-filosófico e
Investigações filosóficas. Trad. M. S. Lourenço. Lisboa: Fundação Caloustre
Gulberkian, 1987. Trad. Barbara Cassin et
alii. Paris: Presses Universitaires de France, /s.d./.
Atividades:
1) Estabeleça a relação entre experiência e linguagem na
perspectiva da filosofia analítica.
2) Escreva sobre a crítica de Rorty à tradição da filosofia
analítica.
Gabarito:
1) A filosofia analítica estabeleceu uma crítica da
linguagem metafísica, ao pretender que o conhecimento é a manifestação
proposicional de afirmações verificáveis pela experiência. O problema de
conceituar adequadamente a “verificação” conduziu, inicialmente, a uma
pluralidade de concepções teóricas como meios de efetivar uma definição
satisfatória. Como isso não ocorre de modo definitivo, atualmente, a filosofia
analítica converge suas perspectivas com o relativismo linguístico do “segundo”
Wittgenstein.
2) Rorty objetou que a conexão postulada pela filosofia analítica entre verdade, conhecimento e experiência factual era “metafísica”, um pressuposto, não de fato demonstrado. O ponto crucial da crítica de Rorty é que a filosofia analítica pensou a relação cognitiva, manifesta como nexo entre a proposição e o fato de um ponto de vista a-histórico, como se essa relação fosse a atualização de estruturas formais universais. Rorty pretendeu assim repor a interação cognitiva na ambiência da relação dos sujeitos com o mundo em que interferem fatores sociais, históricos, não apenas estruturas de apreensão intelectual dos fenômenos ou de formalização da linguagem.
2) Rorty objetou que a conexão postulada pela filosofia analítica entre verdade, conhecimento e experiência factual era “metafísica”, um pressuposto, não de fato demonstrado. O ponto crucial da crítica de Rorty é que a filosofia analítica pensou a relação cognitiva, manifesta como nexo entre a proposição e o fato de um ponto de vista a-histórico, como se essa relação fosse a atualização de estruturas formais universais. Rorty pretendeu assim repor a interação cognitiva na ambiência da relação dos sujeitos com o mundo em que interferem fatores sociais, históricos, não apenas estruturas de apreensão intelectual dos fenômenos ou de formalização da linguagem.
Capítulo 10: O Pensamento Fenomenológico
. A Fenomenologia de Husserl
Observadores atuais, como Appel e Rorty, acentuaram que
existe algo em comum entre o neopositivismo e a intenção fenomenológica mais
característica do pensamento de Husserl: fazer da filosofia uma “ciência
rigorosa”. No entanto, as intenções dessas correntes são irredutíveis quanto ao
que propõem por meio dessa injunção.
Os neopositivistas pretenderam reduzir o campo de interesse
filosófico à tarefa de clarificação da linguagem, para garantir o vínculo entre
o verdadeiro e a experiência científica. Husserl objeta que seria preciso
previamente clarificar o conceito de experiência, pois, somente na região da
vivência anterior a qualquer conhecimento especializado, poderíamos encontrar
uma aproximação esclarecedora quanto ao problema do conhecimento.
Franz Brentano é a referência comum, citado tanto no
manifesto do Círculo de Viena, como habitualmente relacionado ao momento
inicial da carreira de Husserl. A influência geral de Brentano se deve ao seu
posicionamento no interior de um problema que na transição do século XIX ao XX
havia se tornado premente. Trata-se da independência da lógica, relativamente à
psicologia.
Os psicologistas, como Sigwart, negavam essa independência,
o que tornava menos garantida a intenção de assegurar a validez do conhecimento
numa correlação essencial com o formalismo linguístico. Nesse momento, o positivismo
estava evoluindo ao seu estatuto “novo”, na medida em que procurava estabilizar
esse formalismo. Vimos que isso permitia, ao mesmo tempo, ultrapassar a
barreira do incognoscível e a limitação “sensualista” do empirismo de Locke e
Hume, no sentido de determinar o intelectual a partir da sua relação com o dado
sensível.
Havia, agora, um ambiente favorável ao antipsicologismo e
Brentano, com sua distinção entre a gênese psicológica de qualquer pensamento e
a validez lógica, correlata a elementos da consciência que seriam fundamentais
e que possibilitariam uma linguagem formal universal, forneceu o aporte teórico
esperado. A ambição de construir uma linguagem universal, que pudesse operar
algo como o cálculo de todas as relações observáveis na realidade, havia sido
um apanágio do racionalismo, desde Leibniz, na ambientação cartesiana do século
XVII. Agora, ela se havia generalizado, tornando-se um ponto importante na
controvérsia acerca da possibilidade de garantir a independência da lógica na
medida em que se relacionava ao interesse de construir essa linguagem como
“característica universal”.
A influência de Brentano sobre Husserl é decisiva. Após
frequentar suas palestras, Husserl abandona a via teórica que vinha perseguindo
e que se registra na sua publicação inicial, a Filosofia da aritmética; investigações lógicas e psicológicas (Philosophie
der Arithmetik. Psychologische und logische Untersuchungen, 1891).
Nessa obra, Husserl havia exposto a tese da psicologia como
base epistemológica dos conceitos matemáticos, estes devendo sua utilidade,
enquanto símbolos numéricos, ao fato de complementarem a intuição espiritual do
ser humano na apreensão do real. A posição antipsicologista de Brentano, porém,
vinha ao encontro de sua busca da certeza, de algo que pudesse oferecer um
critério absoluto de validação epistêmica.
Brentano havia ainda desenvolvido o conceito de
“intencionalidade”, designando
o voltar-se a algo, o “aplicar-se a...” como caráter básico do modo de ser da consciência, que nunca se apresenta destituída de algum correlato, como efetividade de alguma intenção.
o voltar-se a algo, o “aplicar-se a...” como caráter básico do modo de ser da consciência, que nunca se apresenta destituída de algum correlato, como efetividade de alguma intenção.
A intencionalidade demarcava assim a fronteira do subjetivo.
Husserl fez desse conceito o ponto de partida de sua abordagem fenomenológica.
A intencionalidade é agora considerada a forma geral da consciência. A novidade
de Husserl está no modo de conceituar o “algo” que complementa o “ser
consciência de”.
Na conceituação empiriocriticista de Mach, que informou a
aceitação de Brentano na ambiência do neopositivismo, aquilo a que a consciência
se dirige é uma forma de identidade objetiva. É porque a identidade pertence
numericamente ao objeto como “um” objeto que o conhecimento científico é
válido, ainda que a teoria seja sempre facultativa, vinculando-se ao formalismo
matemático e às circunstâncias da experiência. O formalismo fornece uma rede
adequada de apreensão das relações lógicas que se desenvolvem por sobre esse
referencial sólido de identidade. O positivismo ganhava terreno sobre o
psicologismo, também porque o avanço do tratamento formal da linguagem havia
ampliado as possibilidades do conceito lógico, e por aí vemos a importância das
contribuições de Russel e Wittgenstein.
O que Husserl objeta a esse procedimento é que a identidade
está sendo pressuposta como critério da independência do objeto. No entanto, o
fato de permanecer numericamente idêntico à consciência não se limita a um
privilégio das coisas concretas, porém, pode se propor a todos os correlatos da
consciência intencional: o teorema de Pitágoras é assim tão “objetivo” quanto
qualquer coisa que se pensa na experiência do mundo pelo “eu”.
Esse correlato intencional tem uma evidência em si inegável,
seja na forma de um enunciado matemático, ou do conteúdo de uma lembrança, ou
ainda, da percepção de algo no mundo. A fenomenologia de Husserl se torna o
estudo da consciência, investigando a maneira pela qual a realidade se
manifesta sempre e somente como correlato da consciência intencional.
É devido a essa correlação fundadora que Husserl pensou a
fenomenologia como uma ciência filosófica rigorosa e tão exata quanto as
matemáticas, já que seus princípios são termos fixos, essências imutáveis
correlatas da intenção consciente que não seriam, portanto, agregados de
sensação transformados pelo intelecto, mas sim realidades últimas.
O método proposto por Husserl para atingir e descrever essas
realidades ideais é a redução fenomenológica. Seu propósito é compreender “as
coisas mesmas”, todavia, enquanto concebidas como objetos da consciência. O
objeto intencional é designado “noema”, correlato ao ato intencional, o
“pretender”, designado “noesis”. A compreensão subjetiva é a unidade de noema e
noesis, em grego, respectivamente, o “pensado” e o “pensamento”. Observe,
porém, que o exame fenomenológico não se restringe ao pensar, no sentido que
nos é mais usual do termo, mas abrange qualquer movimento intencional como o
querer, o imaginar, o lembrar, etc.
Aqui se localiza o ponto nodal da objeção de Husserl ao
método das ciências naturais. Enquanto a ciência supõe que os fenômenos
subsistem de modo independente de nossas percepções, Husserl sustenta que
aquilo que não pode ser objeto da consciência não existe.
Isso implica que todo significado é sempre de algum modo
subjetivo, como processo noético, pelo qual as disposições e experiências
anteriores do sujeito, o horizonte interior como fatores relativos à essência, mas
não diretamente considerados pelo sujeito, e o horizonte exterior, como
elementos desapercebidos do ambiente, são tantos dados que influem na
constituição subjetiva do significado, ao longo do tempo estabilizando uma
visão de mundo coerente e sistemática, uma tipicalidade como horizonte de
determinação dos objetos para o sujeito.
O pensamento de Husserl não oferece inicialmente nenhum meio
adequado de validação das essências, ainda que sua busca do conhecimento
absoluto suponha o estabelecimento de algum tipo de critério pelo qual a
multiplicidade de processos subjetivos de percepção se relacionem a uma
vivência intersubjetivamente validável.
O método fenomenológico da redução se acrescentou à teoria
intencional a fim de preencher essa lacuna, o que Husserl pensava exequível
como garantia do conhecimento puro e absoluto. Subsiste atualmente um certo
ceticismo, como em Spielgelberg e Fink, quanto ao êxito de Husserl, não apenas
em realmente garantir o conhecimento através das reduções, mas, principalmente,
em defini-las de modo não ambíguo. Outros, como Gorman, propõem ser, em geral,
compreensível o que ele pretendeu conceituar quanto a esse tópico.
Inicialmente, o que Husserl chama de “subjetivismo”, algo
que a “redução transcendental” precisa depurar, é na realidade o conteúdo
habitual de nossa experiência do mundo. A depuração do subjetivismo se logra pela
colocação entre parênteses da “tese” do mundo, isto é, da pressuposição
geralmente aceita da existência do mundo exterior à consciência.
O elemento subjetivo supérfluo seria tão somente nossa
crença na sua existência independente, na qual reside a factualidade do próprio
sujeito. Mas o que a redução deve exibir são os conteúdos puramente egoicos, ou,
mais precisamente, egológicos, isto é, pertencentes à consciência pura ou Ego
transcendental, o que se mostraria no processo como o irredutível, o que
resiste à redução. A “Epoché” nesse nível corresponde a uma “suspensão do
juízo” sobre a existência objetiva do mundo.
O processo de redução fenomenológica se complementa pela
variação do conteúdo da consciência até encontrar o seu núcleo invariável.
Trata-se agora da “redução eidética”. Uma ideia, em grego “eidos”, qualquer, é
assim dada à variação de seus atributos, até que se perceba nela o que não
poderia variar sem que deixasse de ser o que é.
A percepção do objeto, que anteriormente considerávamos algo
independente no mundo, desde que não possa ser negada na redução, se torna
conceituável como presença na consciência pura, o correlato do seu pretender. A
experiência intencional do objeto, este livro, por exemplo, independe da
postulação de ser um objeto físico no mundo exterior, estando indubitável
apenas que é o correlato da minha percepção consciente dele.
Husserl pensa ter eliminado o problema da verificação. Com
efeito, nem há meio de verificar se o objeto tem ou não equivalente no mundo
exterior, nem há necessidade disso, uma vez que esse mesmo mundo encontra-se
reduzido, posto entre parênteses pela Epoché. Concomitantemente, os conteúdos
da consciência, as ideias ou essências, permanecem como núcleos irredutíveis,
invariáveis e inegáveis da experiência auto-evidente ao Ego.
O desenvolvimento da filosofia de Husserl se fez no sentido
de estabelecer a consciência numa base cada vez mais independente dos problemas
do sujeito frente ao objeto, finalmente compreendendo-a como consciência
anônima, presente em todos os que realizam a redução fenomenológica transcendental.
O fato de não ser identificada como pertencendo a um sujeito
particular permite conceituar o Ego transcendental em termos de Universalidade,
o resíduo formador de todas as experiências e de todo conhecimento, essência da
consciência. O ponto problemático do pensamento de Husserl reside na conexão do
transcendental, concebido como realidade do Ego prévia a qualquer postulação
objetiva do mundo, com a experiência comum, a atitude natural que compreende
sujeito e mundo como realidades ao mesmo tempo estanques e interdependentes.
Se o Ego transcendental constitui ativamente o conhecimento
objetivo, como pode passivamente projetar o objeto independente de sua aptidão
formadora? A questão se torna mais aguda porque o mundo é povoado por inúmeros
sujeitos, de modo que Husserl deve ainda demonstrar como o Outro, constituído
como objeto na minha experiência transcendental, pode ser constituído como
sujeito, também apto a constituir seus próprios objetos.
Alguns comentadores, como Gorman, postulam que a argumentação
que Husserl vota à solução desse problema nas Meditações Cartesianas permanece inadequada ao propósito de provar
a existência do outro, independente da simples pressuposição.
Porém, há aqueles, conforme Arion Kelkel e René Schérer, que
sugerem que Husserl investiu a questão da intersubjetividade não a partir de
uma deficiência do seu pensar, mas, cônscio da complexidade do tema, como campo
de prova do seu idealismo transcendental. Com efeito, a multiplicidade de
sujeitos que interagem apenas garante, no modo de ver de Husserl, a
universalidade do processo noemático.
O Outro é captado pelo “eu” não só como objeto dado na
“minha” experiência de mundo, mas como sujeito que possui o seu mundo. A
experiência da intersubjetividade transforma a experiência, agora se tratando
do “nosso” mundo, e tudo o que for objeto doravante aparecendo como incompleto,
enquanto não for também um objeto para os outros. O problema da verificação,
conexo ao da objetividade ou da realidade independente do correlato
intencional, se transforma inteiramente na filosofia de Husserl, pois o
objetivo exige o intersubjetivo. Ele estabelece, então, uma “redução na
redução”, o que implica uma redução intersubjetiva, mas, apta a descobrir a
captação do Outro pela consciência transcendental, que lida fundamentalmente
apenas consigo mesma. A percepção de Outrem resulta de uma revelação do próprio
“eu” necessariamente como ser psicofísico integrante do mundo externo em que
existem inúmeros sujeitos.
Husserl se expressa em termos de “intersubjetividade
transcendental”, o mundo exterior sendo conceituado não nos termos de algo
impessoal ou independente sobre que os sujeitos comunicam, mas como o correlato
objetivo da sua comunicação. Os intérpretes tendem a apresentar o percurso de
Husserl, desde esse ponto, ora como um retorno de sua filosofia transcendental
ao tecido da vida social e da história, determinado pelos acontecimentos
traumáticos da guerra nazista, ora como uma consequência de sua conceituação de
intersubjetividade.
O que Husserl propõe agora é a problematização do
“Lebenswelt”, o “mundo da vida” pré-reflexivo e intersubjetivo, constituído
temporalmente, isto é, através da temporalização, como atividade
transcendental, pelos sujeitos que historicamente o integram. A Epoché do
Lebenswelt implica em colocar entre parênteses os conhecimentos objetivamente
sobrepostos a ele, para que se revele na sua evidência transcendental
constitutiva. O que essa ciência do Lebenswelt estaria fornecendo seriam então
as estruturas invariantes essenciais ao mundo histórico e os aspectos
essenciais pré-reflexivos dos sujeitos que o integram, o que permitiria
resgatar a formação de essências mais abrangentes pelo Ego transcendental
isolando o próprio Lebenswelt.
O fundamental aqui é a proposição de modos de existência
universais e essenciais para todos os fenômenos vivenciáveis, o que permite a
reconstrução filosófico-científica de todo conhecimento válido através do exame
dessas naturezas intrínsecas do Lebenswelt.
Podemos avaliar o quanto essa noção de “mundo da vida” se
mostrou interessante aos estudiosos de ciências humanas e ao cenário do
pensamento contemporâneo. Mas, nesse campo houve a tendência a interpretá-la em
termos de estrutura correlata, inseparável e, no entanto, formadora da
consciência.
A fenomenologia de Husserl, porém, manteve sempre o aporte
transcendental pelo qual é o Ego transcendental o verdadeiro componente
formador de todo o conhecimento, inclusive do Lebenswelt. A própria
intersubjetividade transcendental depende dos sujeitos transcendentais que a
formalizam.
Essas duas vertentes determinaram-se como caminhos do
pensamento humano na contemporaneidade. Os existencialismos se apresentam como
teorizações orientadas pela intenção de conceituar esse mundo da vida prévio e
constitutivo da consciência pela qual ela se efetiva como evidência. Entre os
existencialistas destacamos as contribuições de Heidegger e Sartre. Quanto aos
fenomenólogos puros, permanecem na perspectiva transcendental da consciência
intencional.
. A Hermenêutica de Heidegger
Em 1927, Heidegger publica Ser e Tempo, obra que assinala a viragem do percurso fenomenológico
no rumo do existencialismo. Heidegger foi aluno de Husserl e sempre o encorajou
no sentido de considerar sua própria obra como inteiramente conforme à
orientação da fenomenologia transcendental. Entrementes, Heidegger desenvolvia
suas pesquisas independentes do viés filosófico de Husserl e com o tempo
afirmou-se numa linha de oposição a ele.
O salto do fenomenológico puro ao existencial ocorre quando
se põe em funcionamento a descrição fenomenológica não mais restrita apenas à
consciência, mas votada à revelação das estruturas essenciais da existência,
isto é, do Ser. Enquanto as investigações de Husserl partiam de uma perspectiva
epistemológica, tematizando o problema do conhecimento, o existencialismo tende
a enfatizar o ontológico, o problema do Ser.
Heidegger recusa de início a possibilidade de um
procedimento como o de colocação do mundo entre parênteses, como se a
existência do mundo fosse uma simples “tese”. Heidegger propõe que a linguagem,
assim como a existência, é um meio de constituição de sentido, não podendo ser
tratada como um objeto, pois não há a possibilidade daquele que a atualiza se
exteriorizar em relação a ela.
A evidência fenomenológica revela ao exame apenas a nossa
própria interpretação dos fatos. No entanto, qualquer interpretação implica o
cancelamento de outras possibilidades interpretativas. Aquilo que se torna
evidente a nós como o existente, resultando de nossa interpretação
historicizada dos fenômenos, é assim ao mesmo tempo uma revelação e uma
ocultação.
O que se revela como o objeto, o “ente”, resulta de uma
configuração de sentido em que somos também meio de realização com nossos
pressupostos culturais, sociais, históricos, subjetivos. Mas o “Ser” se estende
à totalidade presumível de todas as interpretações possíveis que revelariam o
ente de “n” outros modos.
Ora, essa totalização nunca é realizável. O ser só pode se
revelar ao mesmo tempo se ocultando, dele só havendo as interpretações
historicamente efetivas, suas configurações em entes objetivados, não quaisquer
interpretações que, no entanto, poderiam ter sido viáveis. Mas, não há apenas o
acidental nesse processo de desocultar, pois a revelação do ser é estruturalmente
correlata ao processo histórico de seu mostrar-se na efetividade dos entes.
Heidegger nomeia “metafísica” toda conceituação do ser que
ignora o aspecto essencial da ocultação. Na orientação metafísica o objeto
surge como uma realidade em si, invariável, seja porque se pressupõe que existe,
assim como se apresenta no mundo material, seja porque se pensa que as
estruturas da consciência asseguram a sua constituição essencial, sempre do
mesmo modo.
A orientação metafísica varia ao longo do tempo, desde o
início da filosofia, mas mantém como traço fundamental a mesma conceituação do
objeto em termos de identidade. Sendo assim, a metafísica limita o pensar à
tarefa de explicar o modo pelo qual a consciência acessa o idêntico. Na
terminologia de Heidegger, isso significa que a metafísica limita o pensar ao
ente, mantendo no esquecimento o que é fundamental quanto ao Ser.
Heidegger pensa que, anteriormente à filosofia de Platão, os
pensadores e poetas gregos mantinham um conhecimento ontológico autêntico. Isso
se mostra pelo termo grego para “verdade”, “alethea”. Em grego “lethe” significa
“esquecimento”, “ocultamento”, e a partícula “a” tem valor negativo. Assim, o
termo grego traduz o conhecimento originário da verdade como des-ocultamento,
desvelamento, subentendendo o ser que é o correlato da verdade, como algo que
tem a propriedade fundamental de se ocultar.
Ao transpor a verdade para a temática da essência ou ideia,
Platão expurgou o elemento ontológico da intuição originária dos gregos,
fixando o objeto do discurso verdadeiro como uma identidade imutável.
Heidegger considera que Platão inaugura, por esse meio, a
metafísica, como a história do progressivo esquecimento do ser, pelo que a
humanidade tornou sua relação com o mundo cada vez mais objetivada,
“esquecendo” o seu próprio papel existencialmente constitutivo do modo de ser
do mundo em que vive.
A espessura metafísica e suas transformações históricas,
desde Platão até a atualidade, estende o horizonte da cultura que abrangeu as
mutações do Império Romano, do predomínio cristão feudal, até vir, na
modernidade, a se conceituar pelo viés da subjetividade.
Heidegger compreende que a moderna metafísica da
subjetividade orientou a história do ser no sentido do predomínio humano sobre
a natureza inteiramente objetivada. Esse processo teria encontrado o seu apogeu
na sociedade técnica da atualidade, onde a história da metafísica se acaba no
sentido de se completar, de realizar o intuito que a orienta essencialmente.
Esse intuito seria o de limitar a relação do humano com o
mundo a algo como a dominação do objeto pelo sujeito. Assim, a filosofia como
disciplina autônoma não teria mais utilidade na sociedade técnica, as ciências
cobrindo inteiramente o campo do saber restrito à totalidade objetiva do real.
No entanto, Heidegger conceitua a tarefa do pensamento
ulterior à filosofia tradicional como sendo a “rememoração do ser”, a
recuperação hermenêutica do processo de constituição de sentido que é
existencial e envolve a essência do humano.
O termo “hermenêutica” significa “ciência” ou “arte da
interpretação”. Heidegger propôs que as estruturas da linguagem, conceituada
como meio de sentido, sempre revelam a relação com o ser, na qual o homem
empreende não apenas a sua apropriação do mundo, mas, também, a autocompreensão,
o modo pelo qual estabelece a significação de sua existência, isto é, o modo
pelo qual nomeia a sua essência.
O meio existencial de sentido em que se constitui a
linguagem revela a efetividade de uma “estrutura do ser-como” (Als-struktur).
Essa estrutura implementa previamente qualquer postulação de algo como algo,
contextualizando culturalmente a operação da compreensão e da constituição de
significações.
A hermenêutica de Heidegger, que implementou o viés do seu
existencialismo, tem como objeto privilegiado as palavras dos pensadores e dos
poetas, pois nelas se revela algo daquele desocultamento que supõe o que
oculta. Porém, de modo geral a linguagem já está informando a relação do homem
com o mundo, estabelecendo-se inevitavelmente em um “círculo hermenêutico”:
aquilo que a ciência e a cultura nomeiam como seu objeto não está prévio ao
nomear fundador, que revela nessa interpretação histórica o sentido da
objetividade aceito, no entanto, como sendo por si. O resgate hermenêutico da
linguagem e das estruturas culturais permite iluminar algo da essencialização
do ser humano, inseparável de sua historicidade.
Hans-Georg Gadamer, aluno de Heidegger, tem apresentado
aportes bastante atuais da via hermenêutica, tendendo a orientá-la no sentido
de uma ampliação de suas perspectivas.
Conforme sua teorização, não somente a linguagem dos pensadores e poetas, mas todos os fenômenos culturais relacionados à expressão linguística se implementam como veículos de essencialização e interessam a um visar orientado pela noção de “círculo hermenêutico”. Gadamer tematizou especialmente, por esse meio, as relações de recepção do conhecimento científico pela sociedade “leiga”.
Conforme sua teorização, não somente a linguagem dos pensadores e poetas, mas todos os fenômenos culturais relacionados à expressão linguística se implementam como veículos de essencialização e interessam a um visar orientado pela noção de “círculo hermenêutico”. Gadamer tematizou especialmente, por esse meio, as relações de recepção do conhecimento científico pela sociedade “leiga”.
. O Existencialismo de Sartre
A obra de Jean-Paul Sartre não apresenta uma uniformidade de
gênero, incluindo textos teóricos e ficcionais, não só romances, mas também
peças de teatro. Esse multimorfismo se manifesta, contudo, relacionado de modo
intrínseco às suas intenções teóricas, resultando a obra como o mosaico de um
pensamento capaz de revelar uma coerência notável. Resta a circunstância pela
qual seus temas estão vigorosamente conexos à ambientação cultural
contemporânea.
Sartre expressa inicialmente a perspectiva fenomenológica,
tendendo à orientação de Heidegger. A existência não apresenta nenhuma
conclusão lícita quanto ao seu sentido por si. Ela é “absurda”, pois não parece
proceder ou ser garantida por qualquer instância ulterior. A “náusea” é a
percepção desse nada da existência, assim como em Heidegger o correlato dessa percepção
é a angústia.
Mas a autopercepção enquanto ser consciente permite conceber
a existência sempre situada, uma conjuntura em que se verifica um “eu”. O mundo
objetivo é factual, exibindo-se como correlato de um projeto que revela uma
essência, assim como o desenhista industrial concebe o plano do produto que
iremos utilizar. Mas o mundo humano não se porta como o termo de um projeto
exterior a ele, resultando apenas como essa existência aparentemente fortuita.
A existência da humanidade não faculta, portanto, a
postulação de qualquer determinação que pudesse prescrever de antemão o seu
sentido. O mundo objetivo existe para o homem, mas o humano existe por si.
Contudo, ele não pode contornar a exigência que ele mesmo se antepõe, pelo que
é chamado a conceder sentido ao seu existir.
A significação que cada um concede aos seus atos se torna ao
mesmo tempo inteiramente livre, porque autônoma, e coercitiva do seu tornar-se,
isto é, essencializante. Uma vez que se escolhe uma via de sentido, essa via
plasma o significado existencial àquele que escolheu conforme a sua liberdade.
O ser humano está entre o seu próprio ser e aquele das
coisas que ultrapassa: “ex”-istência compõe a raiz “fora de” com o étimo da
permanência. “Existir”, na concepção de Sartre, seria “sair de” algo que
permanece. Só o ser humano existe, pois as coisas não se superam, continuam a
persistir na sua inércia. O sentido existencial humano se revela pelo paradoxo
que une irrevogavelmente a liberdade e a responsabilidade. O “nojento” seria a
categoria existencial negativa aplicável àqueles que esquecem o ex-istir,
decretando uma qualquer superioridade original do homem que se abate de modo
inevitável sobre o “Outro”, aquele que não corresponde à sua discriminação
sobre o que deve ser o humano. O “nojento” seria o homem da dominação que trata
os outros como instrumentos de seus próprios fins. Existir é criar seu caminho,
constituir sua essência. O ser humano só resgata sua liberdade quando renuncia
aos protótipos oferecidos de si mesmo, forjados pelos sistemas históricos de
dominação.
Percebe-se a motivação social nesse pensamento sartreano,
sempre inclinado à causa da injustiça social, à defesa das vítimas da
dominação. Sartre empreendeu uma convergência da fenomenologia existencial com
o marxismo, tentando conceituar a liberdade em termos históricos dialéticos,
isto é, aceitando o devir como processo contínuo de superação dos opostos por
sínteses cada vez mais abrangentes.
A interpenetração da liberdade com a história favorece o
tema do engajamento, pelo que a autoconstituição de sentido pelo sujeito se
transforma numa operação com abrangência social maior, uma influência no rumo
do futuro.
Alguns críticos sugerem que Sartre não logrou uma
convergência teórica satisfatória entre Heidegger e Marx. Mas indubitavelmente
seu existencialismo penetrou de modo consistente no pensamento social
contemporâneo, e o tema da imbricação sujeito-história se consolidou como a
exigência incontornável da conceituação da responsabilidade no interior de qualquer
pensamento sobre a liberdade.
Link:
Fenomenologia - http://www.cobra.pages.nom.br/ftm-fenomeno.html
Filme: Nosferatu (Nosferatu, eine
Symphonie des Grauens, 1922), de Friedrich Wilhelm Murnau
Leitura Relacionada:
KUSCH, Martin. Linguagem
como cálculo versus linguagem como meio universal; um estudo sobre Husserl,
Heidegger e Gadamer. Trad. Dankwart Bernsmüller. São Leopoldo: Unisinos, 2001.
Atividades:
1) Escreva sobre a oposição de Heidegger a Husserl com
relação ao procedimento da Redução Fenomenológica.
2) Escreva sobre a relação estabelecida por Sartre entre os
conceitos de Existência e “absurdo”.
Gabarito:
1) Husserl estabeleceu a comprovação da evidência
transcendental através do procedimento de redução, como suspensão da “tese” do
mundo, pelo que deveria restar como resíduo a consciência intencional
irredutível. Heidegger argumentou que a suspensão da crença no mundo é na
realidade impossível, restando apenas como atitude fingida ou pressuposta, já
que o mundo é o meio de sentido na relação com o qual quaisquer pensamentos,
atitudes ou constituições de significação poderiam vir a se efetivar.
2) Sartre pensou a “existência” como “absurdo” por não
mostrar nenhum vínculo com algum fundamento ou garantia do seu ser.
Capítulo 11: Da Estrutura ao Pós-Estrutural
. Nietzsche, Freud e Saussure
. A filosofia de Nietzsche
Os temas da vontade e do valor se apresentam, no contexto da
segunda metade do século XIX, como aportes inovadores em relação ao
desenvolvimento filosófico tradicional, que parecia ter se tornado incompatível
com a sociedade industrial.
Ainda na metade inicial do século, a voga do pós-kantismo
teve no hegelismo o ponto alto quanto à intenção de fornecer uma superação do
dualismo matéria-espírito através do idealismo. Schopenhauer transforma essa
intenção romântica para converter a unidade do real a algo menos puramente
intelectual, a Vontade.
O que ocorre se assemelha a uma profunda mudança de
orientação do pensamento. Antes o ponto controverso era quanto a essa unidade
do real: espiritual, seria ela plena, conforme o idealismo, ou comportaria
apenas a inter-relação do intelecto à experiência, como nas correntes mais
aproximadas ao empirismo?
A transformação social que impõe o incremento da
industrialização e a consequente marcha do imperialismo cada vez mais
cientificizado, pois dependente da informação tecnológica, oferece um corte a
essa controvérsia antiga.
Agora o que se indaga é se a tessitura do real pode ser
inteiramente recoberta pelas relações que se verificam na natureza, de que
ninguém mais duvida ser a experiência que fornece o acesso, ou se o mundo
humano é irredutível na sua atribuição valorativa, na sua constituição de
sentido, de modo que compreendê-lo requer meios restritos de aproximação. Ou
seja, a questão poderia ser resumida na indagação sobre o como da transição dos
fatos em valores.
Nessa abordagem, já relacionada à contemporaneidade, emerge
então a instância do Valor, que se torna independente de uma qualquer
totalidade universal, para se nomear “espírito” apenas na região do humano.
Esse tema recebe uma consistência especialmente relevante, por sua conexão a
termos como vontade e ação, pelo que a humanidade se constitui em um mundo não
compreensível sem a sua intervenção.
A novidade de Nietzsche, o que faz o seu pensamento de uma
contemporaneidade ímpar, é o estabelecimento do questionar sobre o valor e a
vontade não mais numa perspectiva de linear pressuposição dessas instâncias
fundadoras de sentido àquilo que elas fundam, as atitudes e respostas
conscientes, subjetivas e sociais. Nietzsche introduziu, através desses
tópicos, o tema doravante onipresente do Inconsciente.
O importante é notar que o Inconsciente não mantém com o
consciente uma relação puramente lógica, de inteligibilidade plena.
Inversamente, a relação entre essas instâncias é de mascaramento, desvios, pois
os conceitos que informam o pensar sobre essa problemática não se limitam às
categorias da razão, porém, atingem as forças que compõem o humano na sua
interação efetiva com o mundo e a sociedade, portanto, forças nem puramente
racionais, nem destituídas de toda significação.
A filosofia de Nietzsche foi objeto de inúmeras
malversações, mas, atualmente, há uma certa convergência em torno de alguns
núcleos do seu pensamento. O mais central aqui é a conceituação das forças
inconscientes que se inter-relacionam, pelo que o conceito atravessa os
domínios do natural e do humano. As forças são tendências quaisquer, tão ou mais
efetivamente existentes do que os objetos e valores formalizados no mundo, que
surgem como resultados do jogo de forças.
Mas, como se processa esse surgir? O que Nietzsche não
propõe é um determinismo de tipo objetivista, como se estivesse utilizando um modelo
físico de constituição de objetos concretos para explicar o universo de sentido
e valor humanos. Inversamente, a formalização de algo qualquer no mundo humano
depende de uma configuração de forças históricas, afetivas, culturais,
imanentes ao homem, em que se revela uma tendência ou sentido, uma avaliação.
Assim, o valorar se torna também uma composição de forças.
Os fatos são correlatos de interpretações, não existindo por si como “objetos”
isentos do processo em que se constitui o seu sentido. Ora, esses jogos de
sentido ou composições de forças são inconscientes. Aquilo com que a
consciência lida é o resultado: o fato objetivo ou a moral que enuncia este ou
aquele mandamento conforme uma orientação avaliativa, como a cristã ou a grega.
Os sujeitos da moral, que só lidam com o que aparece à
consciência, pensam estar lidando com verdades, ou, no máximo, aceitam que
essas verdades, os imperativos da moral, são relativas ao mundo histórico de
que procedem. Em todo caso, subsiste a noção de que elas mantêm uma referência
direta com o real das condutas. Dessa maneira, nessa interpretação seria
natural propor a possibilidade de formalizá-las, a fim de obter uma moral
essencial do ser humano, não obstante as variações em que se realizam.
Mas Nietzsche pensa que essa ilusão, que percorre toda a
história da metafísica, se baseia no erro de se ter limitado o pensar ao que
“parece” à consciência, como ter se deixado lograr pela impressão de que o ser
humano fundamentalmente é puro “espírito”, definindo esse conceito como uma
pura capacidade racional de enunciar o que é ou o que não é, limitada assim ao
fato e ao objeto, como se este existisse também de modo “puro”, a dualidade
tendo então se tornado o problema que caberia à metafísica explicar.
No entanto, todas as explicações metafísicas destinadas a
resolver o problema da adequação da razão ao objeto são “vazias” no sentido
lógico desse termo, pelo que a explicação fornecida só tem como fundamento
algum conceito criado pela própria explicação.
Nietzsche não mantém a ilusão oposta, o cientismo, pelo que
a “experiência” isenta de pressupostos metafísicos iria fornecer a adequação
pela própria força das evidências, uma vez que a experiência mesma já está
investida de uma série de pressupostos objetivistas, eles mesmos não
explicitados.
Nietzsche mostra que qualquer constituição de sentido é um
processo que envolve a avaliação, portanto, é histórico e sempre revela algo
sobre aqueles que nele se envolvem. O estado das forças é o que está implicado
na avaliação moral ou na constituição de sentido responsável pela interpretação
do mundo.
Esse estado é extremamente variável, a “genealogia” dos
valores consistindo na aproximação mais adequada à compreensão do sentido. Por
um lado, a genealogia se produz como uma recuperação da historicidade do
fenômeno cultural. Mas também corresponde a indagar, acerca de cada fenômeno,
sobre o diferencial dos valores, aquilo que se privilegia como referencial de
que a interpretação historicamente localizada decorreu.
O referencial informa sobre a vontade, a potência que “quer”
e que se oculta em cada enunciado aparentemente isento, seja ético ou
especulativo. A genealogia localiza a vontade de potência como essa
constituição de forças inconscientes, subjacente ao sentido em que se produz
algo como fenômeno.
Nietzsche mostra que esse referencial é a tendência que
subsume o conjunto de forças, tendência que manifesta ela mesma a força que é
Vontade e que pode ser ativa ou reativa. A Vontade é reativa quando, como uma
força fraca que deveria se subsumir a forças mais fortes para se potencializar
ou mesmo subsistir, se volta contra sua conjuntura para, ao menos nesse
“anular-se”, afirmar-se independente. O devir reativo da força subsume a
vontade “niilista” que se vota à ascese, à auto-anulação, e que se expressa nos
sistemas de moralidade ou de religiosidade que sufocam as tendências naturais
do corpo.
A força é ativa quando deseja sua potencialização, seja numa
conjuntura de composição com forças fortes, seja por poder subsumir uma multiplicidade
de tendências. Em todo caso, esse devir ativo se manifesta nos pensamentos
éticos e nas atitudes que liberam a valorização da vida, que desejam a sua
perpetuação e afirmação, que não desprezam o corpo e a alegria, que não se
votam ao niilismo.
O devir reativo interpreta como domínio e ordem aquilo que é
da natureza ativa da força, a potência e a vontade. O sintoma do devir reativo
é a “vontade de domínio”, a imposição da dominação sobre o “outro”, que é livre
e ativo. Enquanto a força ativa, a “vontade de potência”, se manifesta sempre
como tendência a afirmar, liberar, expressar sua natureza através da criação e
da relação estética com a existência.
. A Psicanálise de Freud
Nietzsche compôs sua obra na transição do século XIX ao XX.
Já no início do século XX, Sigmund Freud implementou uma teorização do
Inconsciente no interior da prática clínica. Ele supôs também que o tipo de
relação entre o inconsciente e a consciência deve ser de mascaramentos e
desvios, não de natureza lógica, “racional”.
Freud sustentou que o comportamento ostensivamente anômalo
de seus pacientes, irrecuperável no seu sentido pelos processos apenas
conscientes, poderia ser esclarecido como sintomas de processos inconscientes.
Esses processos manifestariam uma ordem sem correlato direto ou linear com os
termos que os próprios pacientes poderiam enunciar conscientemente sobre seus
pensamentos e sentimentos.
Freud conceituou o inconsciente numa conexão com a libido, a
força da sexualidade que está presente como energia psíquica, realidade do
desejo que é a do ser humano desde a sua mais tenra idade. Ele mostrou que
deveria haver uma relação entre o desenvolvimento da libido da criança e sua
proximidade com a sexualidade dos pais, de que resultaria uma história do
sujeito como a necessária teorização que as crianças desenvolvem acerca dos
fatos sexuais no mundo familiar.
A história dessa teorização seria um relato de erros,
explicações falhas, até que a criança atinge a compreensão satisfatória do
relacionamento do pai e da mãe como tipificando a relação entre os gêneros
masculino e feminino, que implementa a geração dos seres humanos. Mas, essa
compreensão não se completa apenas como tendo por objeto os fatos fisiológicos,
e sim como uma simbolização, que investe os papéis sociais e subjetivos de ser
mãe e pai, “homem” e “mulher”, na ambiência do mundo de valores humanos.
A psicanálise nasce com Freud como uma terapia destinada a
localizar o momento de fixação numa dessas versões falhas precedentes à
compreensão real, naqueles que, por seus sintomas, revelam que o seu processo
de simbolização inconsciente não alcançou todos os estágios na infância, de
modo a ter se fixado numa versão insatisfatória, a que o sujeito não pôde
renunciar. Tal impotência poderia derivar de inúmeros fatores, como, por
exemplo, algum comportamento repressor de um dos pais, que impede à criança “se
soltar” da fascinação que um certo estágio estabelece com a figura de pai ou
mãe.
Com isso a psicanálise deveria ser um método de condução do
sujeito na superação necessária da fase na qual foi fixado a fim de promover a
cura, pois o sintoma de seu comportamento decorre como no trabalho do sonho,
isto é, como uma encenação simbólica do acontecimento real da fixação, ocorrido
na infância.
Observe como o simbólico aqui significa não-direto,
esclarecendo sobre a relação entre inconsciente e consciente: Freud não supõe
que o paciente deveria reproduzir no sonho a cena real do passado, mas sim que
o psicanalista precisa interpretar as cenas do sonho, para encontrar a chave do
acontecimento real.
É essa chave que interessa ao psicanalista, como a revelação
da fase de fixação na conexão com algum fator específico que o precedeu. Note
também que o que se revela assim como “fator” pode não ter tanto a natureza do
fato objetivo, o que o pai ou a mãe “fez”, mas sim como o paciente interpretou
ou recebeu o comportamento dos pais no seu relacionamento com eles, no que
pesa, por exemplo, também a tendência afetiva, o modo de ser da personalidade
da criança.
Na relação psicanalítica, instaurada entre o paciente e o
terapeuta, Freud conceituou a “transferência”, pelo que o paciente se “enamora”
do terapeuta e durante o seu transporte afetivo tende a repetir os sintomas,
como performances falhadas do desejo, pelo que o terapeuta recupera a
“linguagem”, o encadeamento simbólico que expressa a realidade inconsciente do
paciente.
A psicanálise de Freud influenciou o pensamento ocidental de
modo decisivo. Muitos trabalhos, clínicos e teóricos, se desenvolveram no
sentido, ora de interpretar os escritos e descobertas de Freud numa formação
psicanalítica que pudesse se mostrar ortodoxa, ora de complementar e
desenvolver certos pontos de sua conceituação.
Assim, várias vertentes terapêuticas se originaram da
abordagem original da psicanálise, sugerindo focos alternativos do processo
inconsciente, que Freud havia fixado como história subjetiva da simbolização da
sexualidade dos pais.
Jung, por exemplo, que havia precedentemente colaborado com
Freud, sugeriu que o inconsciente deveria ser conceituado em termos coletivos,
um repositório de símbolos e expressões que perfazem a bagagem espiritual do
ser humano, e que seriam exteriorizações de processos inconscientes
fundamentais.
. A Linguística de Saussure
Ainda no início do século XX, Saussure desenvolveu um
trabalho inovador, que instituiu a abordagem da linguística contemporânea.
Saussure estabeleceu o estudo da linguagem numa base de imanência, isto é,
visando o fenômeno linguístico na sua autonomia.
A descrição do funcionamento da linguagem se tornava assim
independente de questões filosóficas abrangentes acerca de sua natureza, de sua
classificação relativamente às demais faculdades intelectuais do ser humano, ou
do ser dos objetos de referência dos enunciados linguísticos.
A inovação de Saussure se estendeu ao modo pelo qual
implementou o funcionamento linguístico autônomo. Ele pensou a linguagem como
uma estratificação de níveis formando um sistema de signos, apto a subsumir
cada nível constituinte, mas, sem comprometer a relativa autonomia destes.
No interior de cada nível os elementos também se formavam
numa base sistemática, pois não traziam uma identidade original,
constituindo-se como elementos apenas por sua posição frente aos outros.
O mais básico da linguagem, ali onde o fluxo sonoro
possibilita a identificação de partículas formadoras de sentido, os fonemas,
pode ser descrito e classificado como um conjunto de oposições, em que cada som
distinto se formaliza por contraste a outro som, como b/p, d/t, z/s, etc.
A linguística na base descritiva sistemática de Saussure
alcançou resultados bastante exitosos no decorrer do século XX. Isso no sentido
de lograr, mesmo como ciência humana, apresentar um grau crescente de
organização, universalidade, formalização e coerência interna.
O desenvolvimento da linguística interceptou o objetivo dos
pesquisadores na área de humanas de alcançar um limiar epistêmico satisfatório
de cientificidade. O problema das disciplinas humanas era que o ideal de
cientificidade costumava ser fornecido pela física, uma das ciências mais bem
formadas, porém, esse paradigma científico oriundo das ciências da natureza
jamais poderia ser alcançado pelas ciências do homem, não obstante o fato de
que não se desejava relegar os estudos nessa área à simples erudição.
Nem mesmo se poderia fazê-lo, pois a massa de pesquisas já
havia compactado resultados bastante rigorosos, de modo que o problema era como
fornecer uma padronização de cientificidade que não dependesse de campos
formalizados por procedimentos irredutíveis aos que se mostravam coerentes com
os objetos de estudos humanos.
A linguística pareceu poder fornecer esse critério de
cientificidade, justamente por ter se ordenado em torno da noção fundamental de
sistema. A utilização desse modelo em outros setores de estudos humanos generalizou
a voga do Estruturalismo, sendo que por “estrutura” se estava compreendendo o
que Saussure havia conceituado em termos de “sistema”.
A linguística, sem deixar de pertencer à área dos estudos
humanos, apresentou um potencial tão satisfatório de tratamento formal da
linguagem que pôde interpenetrar as abordagens tecnicamente orientadas de
ciências em áreas limítrofes. Assim, desenvolveu-se a convergência do estudo da
linguística, enquanto ciência da linguagem, com a teoria da informação. Desde
os trabalhos de Shannon e Wiener a teoria da comunicação vinha se desenvolvendo
como uma abordagem matemática da linguagem e da informação, tratadas em termos
de engenharia de comunicação.
Parecia que os estudos humanos haviam encontrado um modelo
adequado na transição ao status científico, o que se comprovava pela
efetividade da interação dessa área com setores especializados de investigação
ancorados no formalismo matemático. O êxito da física como modelização
científica de estudos da natureza havia decorrido de sua vocação à
matematização, de modo que o caminho da ciência, em geral, parecia ser balizado
pela convergência com o formalismo de tipo matemático.
A preminência da abordagem estrutural no campo científico
humano nos anos 70 tendeu a obscurecer a voga fenomenológica ou existencialista
característica dos anos precedentes, que havia se caracterizado por uma crítica
acerba dos métodos e pressupostos da ciência experimental e dos formalismos.
A inserção das ciências humanas no panorama mais geral da
“guinada linguística” se fez nesse momento mais pelo tratamento
sistêmico-saussuriano dos fenômenos culturais do que pela hermenêutica de
Heidegger.
Em todo caso, algo comum ao contexto contemporâneo é essa
“guinada”, que conduziu do eixo do pensar centrado na questão da consciência
para a linguagem, o que se pode localizar, por exemplo, desde a obra de
Wittgenstein à irredutibilidade de Heidegger a Husserl.
Porém, observe que a estrutura repõe de modo inevitável o
tema do inconsciente. O funcionamento estrutural não se descreve partindo da
cena fenomênica, do modo como conscientemente os atores sociais poderiam
descrever para si mesmos os fatos de sua cultura, mas sim com base no
mapeamento dos níveis que formalizam esses fenômenos culturais, conceituados
como sistemas de elementos simbólicos que nunca são objetos de manifestação
factual na sua realidade formal.
Isso se torna compreensível, lembrando a descrição da
linguagem de Saussure. Os elementos linguísticos básicos não aparecem para nós
como tais, pois só lidamos com a linguagem na sua articulação com os fenômenos
de sentido, de referencialização, de conversação etc. Lidamos conscientemente
com palavras ou frases, não com fonemas ou níveis estruturais.
Lévi-Strauss aplicou o método estrutural ao estudo das
relações simbólicas verificadas em sociedades primitivas e forneceu uma teoria
capaz de nomear os elementos e relações que estariam esclarecendo o
inconsciente cultural simbólico, o limiar pelo qual se forma a cultura.
Um mito ou um sistema de parentesco estudado pelo
antropólogo só revela ao sujeito que atualiza a cultura um conjunto de
associações afetivas, tradicionais, sociais, um universo de sentido em que ele
se identifica como membro de uma comunidade.
Mas como demonstrou Lévi-Strauss, o antropólogo pode
localizar os elementos formadores sistemáticos desses fatos, comuns a universos
culturais irredutíveis como sociedades que não mantêm contato no tempo ou no
espaço. Observe como o eixo de investigação se desloca, pois não se trata de
descrever a experiência como na fenomenologia ou no existencialismo, e sim de
identificar as estruturas que a tornam possível.
. O Estruturalismo
O termo “estruturalismo” pôde ser geralmente definido como a
aplicação da linguística estrutural ao estudo dos fenômenos sociais e
culturais. Isso favoreceu uma interpenetração incomum de temas e conceitos
oriundos de várias áreas de estudos humanos.
Na psicanálise, por exemplo, Lacan introduz a abordagem
estrutural, tratando os processos inconscientes estudados por Freud em termos
de funcionamento linguístico. As oposições de significante (o signo na sua
materialidade, a palavra pura) e significado (aquilo com o que o signo mantém a
relação de referência), e as operações de deslocamento como a metáfora (um
termo estende seu sentido a outro) e a metonímia (vários termos são subsumidos
por algum outro) são conceitos oriundos da linguística. Lacan os aplicou como
operações do inconsciente na elaboração do seu conteúdo simbólico.
Mas, como o inconsciente se supõe numa relação estrutural em
relação ao consciente, uma teorização do seu funcionamento, manifesta utilidade
para todos os contextos que lidam com fenômenos culturais que intervêm na
formação da consciência subjetiva.
Acontece uma interconexão da psicanálise de Lacan com os
estudos literários, pelo que a atividade criadora do artista tende a ser menos
conceituada em termos de inspiração ou espontaneidade, para ser investida como
um processo de constituição de sentido, que põe em jogo estruturas do
inconsciente humano e estruturas da convenção literária.
A teoria estrutural poderia cobrir, desse modo, todo o campo
de alcance do fenômeno literário, seja aquele relativo ao formalismo da obra,
seja aquele relativo aos significados humanos e sociais com que ela se
articula.
Observe que o estruturalismo questiona instâncias
aparentemente ligadas a totalidades evidentes pela experiência, como o Sujeito,
que seria uma instância independente, capaz de subsumir a pluralidade de suas
experiências subjetivas.
Se a voga fenomenológica-existencial interceptou a viragem
humanista do marxismo, por exemplo, com Sartre, o estruturalismo estabeleceu-se
como uma ruptura com essas orientações, pois, aqui, as evidências são efeitos,
não causas. Uma das vertentes mais importantes do seu desenvolvimento operou
justamente sobre os textos de Marx, através da obra de Althusser e colegas.
Uma leitura do Capital
inovadora se ofereceu pelo pensamento de Althusser, Macherey, Rancière,
Establet e Balibar. Eles pretenderam demonstrar que Marx já havia trabalhado
com a noção de estrutura, e que a sua teorização econômico-política havia sido
epistemologicamente revolucionária, por ter descrito a produção em termos de
sistema, não numa base “empirista” ou puramente descritiva.
A estrutura, apenas não nomeada por Marx como um modelo
teórico, teria de fato lastreado a composição do Capital, e Althusser procedeu a uma reposição do trabalho fundador
do marxismo na base dessa concepção. Althusser localizou no texto de A Ideologia Alemã, escrito em 1845, o
momento em que Marx teria realizado o salto estrutural, momento que Althusser
nomeou “cesura epistemológica” pela qual Marx rompe com sua orientação de
juventude.
A argumentação de Althusser focalizou de modo decisivo a
oposição que Marx havia estabelecido entre o científico e o ideológico. Assim,
uma leitura “humanista” do marxismo com base nos escritos do jovem Marx, ou
pensar que o Capital resulta de uma
priorização da experiência, conforme Althusser, é ignorar a sua espessura científica.
Categorias como “humanismo”, ou “evidência empírica” seriam
conceituáveis por Marx como ideológicas, na medida em que se organizam em torno
de eixos conceituáveis de uma “natureza humana” ou “essência do homem”.
Rejeitando expressamente essas noções atreladas à
constituição de uma antropologia filosófica, Marx procedeu à descrição dos
níveis estruturais da produção, de modo a constituir uma teorização científica
autêntica, por meio da economia política, na perspectiva de Althusser. Ele
criticava assim frontalmente a corrente humanista pós-ortodoxa do marxismo,
propondo que Marx estabeleceu uma ciência real das formações sociais, o
“materialismo histórico”.
Mas, as teorias linguísticas e estético-literárias não
poderiam agora se isentar de um envolvimento com o comprometimento ideológico e
social da linguagem, estabelecendo-se uma complexidade teórica estrutural em
torno desses três polos: inconsciente, linguagem, valor.
O essencial aqui é perceber como a estrutura está sendo
conceituada, algo como a invariante de uma ampla produção teórica. Como se
tornou bem constatável, nesse aporte ela é geralmente considerada na
dependência do esquema de Saussure, isto é, um funcionamento que permite,
através de uma rede de relações fixas, identificar elementos, níveis
relativamente autônomos e sua articulação sistêmica, a partir de que os
fenômenos evidentes para uma consciência surgem como efeitos.
O jogo, o funcionamento estrutural, opera com uma
multiplicidade num sistema regrado, e o qualificativo “estruturado” significa
justamente “composto por vários elementos”. Os fenômenos dados à evidência se
tornavam assim repetições do mesmo, ainda que comportando a mudança e a
variação empíricas que informam o mundo como experiência do sujeito, como as
várias vezes que jogamos partidas do mesmo jogo.
. A Viragem Pós-Estrutural
. Althusser e Lacan
Inicialmente, os pesquisadores que utilizavam a noção de
sistema tenderam a ser rotulados como estruturalistas, naquela conjuntura ampla
de teorizações que se interpenetravam no interior do campo das ciências
humanas.
Porém, dois fatores se impõem à medida que o movimento
estruturalista evolui: as críticas que se acumulam aos procedimentos
estruturais, como a desconsideração com o devir e a história, e a compreensão
crescente dos pesquisadores, geralmente rotulados estruturalistas, acerca de
seus pontos de oposição.
Um exemplo é a introdução, por Althusser, de uma teorização
mais ampla acerca do tema da ideologia. Isso ocorre de modo relacionado ao
aprofundamento do seu questionamento acerca do tema da reprodução do capital.
Althusser compreendeu que a ideologia atua na sociedade de forma muito mais
flexível, subliminar e totalizante, do que se pode deduzir a princípio da
rígida oposição marxista entre estrutura de base e superestrutura.
Ele observou que a superestrutura cultural se mostra bem
menos esclarecedora no tocante à sua suposta dependência da base econômica. O
funcionamento social depende de uma certa autonomia da ideologia, nada fácil de
conceituar nos termos dessa dependência. Aqui, a teorização de Althusser repõe
algo dos aportes de Gramsci, não obstante a sua objeção cientificista às
considerações mais humanistas do marxismo.
Gramsci havia transformado o conceito de dominação social,
pois o marxismo tradicional operava numa base de estrita dependência desse
domínio ao econômico. Ele operou com o conceito de hegemonia, pelo que a
burguesia não tinha imposto seus valores culturais, sua ideologia, apenas como
um efeito de ter logrado estabelecer a economia capitalista; porém, a hegemonia
burguesa é um fenômeno que não pode se compreender sem considerar esses dois
tópicos entrelaçados e praticamente na mesma escala de importância.
No entanto, observe que essa conceituação não corresponde ao
formalismo estrutural, mais facilmente assegurado através de uma perspectiva
“determinista” do econômico como fator condicionante dos outros níveis.
Quanto a Althusser, inicialmente sua investigação do tema da
reprodução do capital pareceu estar bem inserida na consistência estrutural que
estabelecia inter-relações esclarecedoras entre gêneros de estudos variados.
Ao tematizar a conceituação marxista da reprodução do
capital, o modo pelo qual as relações de produção, para serem conservadas,
precisam estabelecer regimes sociais, que se tipificam em instituições
destinadas a interiorizar no sujeito o seu papel social de classe, Althusser
focalizou a linguagem como uma dessas instituições, não apenas um meio isento
de transmissão de significados.
Althusser mostrou que certas funções de linguagem consolidam
o efeito de um sujeito centrado, autônomo, responsável único por sua condição
social e por seus atos.
A função ideológica elementar seria a interpelação pela qual, ao ter que responder ao chamamento “ei, você”, a pessoa se põe numa relação de subsunção como um “eu”, sem que os pressupostos pelos quais o pronome “você” estão realizando a operação de identificação, isto é, os pressupostos ideológicos de identificação social, estejam esclarecidos, ou sequer possam sê-lo, nessa instituição precisa de interação.
A função ideológica elementar seria a interpelação pela qual, ao ter que responder ao chamamento “ei, você”, a pessoa se põe numa relação de subsunção como um “eu”, sem que os pressupostos pelos quais o pronome “você” estão realizando a operação de identificação, isto é, os pressupostos ideológicos de identificação social, estejam esclarecidos, ou sequer possam sê-lo, nessa instituição precisa de interação.
Mas, se compreender o caráter englobante da ideologia numa
aproximação não possivelmente determinista acarretou investimentos na área do
inconsciente, pois o processo ideológico de reprodução do capital se reveste de
um alcance social de constituição da subjetividade, isso comprometeu o
formalismo estrutural althusseriano, enquanto dependente do modelo de Saussure:
ao mesmo tempo que o ideológico não depende do econômico, fundamentalmente, a
recirculação dessas instâncias impede a autonomia formal dos níveis.
Na Inglaterra, Althusser foi recebido como estando em
conexão com Lacan, que a essa altura já não se considerava “estruturalista”,
por não poder definir seu trabalho pela intenção de dominar ou codificar
estruturas. Logo, generalizou-se nesse país a noção de que o cenário teórico
estava já se movimentando num sentido “pós”-estrutural.
Basicamente, há uma interpenetração nos trabalhos de
Althusser e Lacan, pela consideração do inconsciente como um discurso do Outro,
uma espécie de captura inevitável do desejo no esquema “ideológico” da
linguagem, pelo que o trabalho do psicanalista, como o do cientista social, se
torna centrado na tarefa de reconstituir a história do sujeito, “distorcida” ou
dominada pela formalização do sistema linguístico-social.
Como há uma conexão óbvia entre história e linguagem, pois a
história só pode ser se contada ou recuperada no discurso, a terapia como a
ciência social e histórica se torna um processo que deve contornar
estrategicamente, conforme os aportes conceituais fornecidos pelas teorias em
cada campo, os efeitos dominadores do funcionamento linguístico-social para
liberar o que seria a expressão autêntica do sujeito ou do grupo social
sujeitado, sua “verdade”.
. Derrida
Nos Estados Unidos, o pós-estruturalismo se tornou uma
realidade, inicialmente, pela penetração da obra de Derrida. Ele é o autor que
mais se singularizou, no auge da voga estrutural, em relação ao movimento como
um todo, mostrando-se crítico quanto ao rótulo “estruturalista” que, no
entanto, era-lhe costumeiramente atribuído.
A crítica de Derrida ao cientificismo do movimento
estrutural utilizou os conceitos de jogo e signo. Derrida mostrou que o
estruturalismo se inscrevia como intenção teórica no movimento que vinha se
desenvolvendo desde Nietzsche, no sentido de instaurar um contexto
pós-metafísico de pensamento.
Mas, no interior da filosofia, se essa intenção havia se
tornado geral no século XX, empreendimentos teóricos como o de Heidegger
mostravam que o que ocorrera havia sido a condução a uma espécie de impasse
devido à ambiguidade fundamental dessa crítica à metafísica. Ela não podia ser
feita “do exterior” da própria metafísica, já que só se construía com materiais
oriundos da história da filosofia enquanto busca metafísica e repositório da
cultura ocidental.
O estruturalismo ortodoxo só havia, conforme Derrida,
aprofundado esse paradoxo. O tratamento dos fenômenos culturais em termos de
sistema favoreceu na realidade a substituição do objeto de investigações. Ele
deixava de ser a coisa, o fenômeno, para ser o signo, a elemento básico do
funcionamento de uma linguagem, fosse ela verbal ou não.
O signo pareceu aos próprios estruturalistas uma conquista
fundamental do pensamento, porque tornava inúteis as discussões propriamente
metafísicas em torno do caráter da coisa, espírito ou matéria. Podemos ilustrar
essa crítica de Derrida relacionando-a à pilhéria costumeira no meio
estrutural: “What is mind? No matter. What is matter? Never mind”. Esse chiste
não tem tradução exata na língua portuguesa, mas você pode observar que as duas
indagações, respectivamente “o que é o espírito” e “o que é a matéria” têm
respostas que literalmente significam “não importa”.
Todavia, como a língua inglesa tem expressões variadas para esse
mesmo significado literal, as duas respostas parecem fazer recircular a matéria
no espírito e o espírito na matéria, num efeito de anulação de suas diferenças,
logo do sentido da própria questão, pondo ainda em relevo a espessura do
significado e a relativa autonomia do significante.
A oposição se torna apenas um jogo de exclusão do que seria
o oposto, mas, como a exclusão é recíproca, o apagamento da diferença é total,
justamente quando parecia ter sido mais assegurado o caráter oposto, exclusivo,
de cada termo.
O domínio do signo conduziu o estruturalismo a tratar os
fenômenos em cada área como um jogo, uma linguagem. Com isso, conforme Derrida,
parecia ter superado efetivamente a metafísica no rumo da cientificidade, pois
o pensamento não se orientava mais na busca de um centro conceitual fundador,
fosse espírito, matéria, ser, origem ou finalidade.
Mas Derrida observou que a ambiguidade desse procedimento é
que o estruturalismo havia, nesse aparente a-centramento, se colocado a si
mesmo, isto é, seu pressuposto de cientificidade, no centro, com essa noção de
jogo. Pois o Jogo havia se interposto como centro de todo funcionamento da
multiplicidade de jogos, de modo que, mesmo supondo que por esse meio havia
conjurado a ideologia ou o etnocentrismo, o estruturalismo permanecia preso no
interior da “metafísica” – ou, ao menos, mantinha uma relação constitutiva
inegável com ela, já que operava descrições formais, que se pretendiam
científicas, na exata proporção em que se revelavam a-históricas.
O que permite a Derrida essas observações é a noção de jogo
que está criticando, pois, para o estruturalismo, havia se tornado uma espécie
de método o pressuposto da cientificidade como uma busca de elementos fixos,
últimos e universalmente esclarecedores do real fenomênico. Todavia, esse era
igualmente o objeto da ambição metafísica através da história da cultura
ocidental, em relação a que o estruturalismo mostrava finalmente apenas sua
inserção, não uma ruptura fundamental.
Derrida antepõe que, se os fenômenos culturais são mesmo
descritíveis partindo desses elementos últimos, isso não implica que tenha se
desmontado o funcionamento “ideológico”, que, no fenômeno, implica a sua
vivência como algo “natural”, nem o metafísico, como dependência de um centro
fundador, no interior da própria pesquisa.
O pós-estruturalismo de Derrida descobriu o fato da
dependência dessa coerção do centro como algo inerente ao jogo. O
estruturalismo havia pensado que nomeá-la bastava como o termo das descobertas
na base de um método onipotente de a-centramento, enquanto Derrida mostrava que
isso só se configura como a base elementar do processo crítico decisivo a ser
alavancado daqui.
A cientificidade estrutural havia se tornado uma ilusão,
pois, parecia que limitar a tarefa à descrição dos universais dos jogos da
cultura reduzia por si só as espessuras ideológica e metafísica, quando na
verdade só se havia descoberto um modo de formalizá-las. O tipo da ilusão
objetivista no interior da instância que havia pensado ter se tornado independente
da problemática do objeto.
A teorização de Derrida interpretou a marcha crítica da
condução desse problema da coerção do centro, da inerência do jogador ao jogo,
como tecnicamente impossível de ultrapassar, mas algo com que se poderia lidar
em termos de estratégia ou “artimanha”.
Sem considerar os elementos descritivos do funcionamento
como últimos, apenas como tendo se tornado significantes desse funcionamento
que deveria estar sendo questionado na sua espessura metafísica-ideológica,
restava religar o elemento à espessura, mostrar o caráter constituído,
composto, do próprio “elemento”. A esse processo, Derrida designou
“desconstrução”. O termo não significa algo como “desfazer” ou “destruir”, mas
sim a tentativa de repor no elemento a sua oscilação, o seu movimento, a sua
ambiguidade, o seu caráter construído. Algo como um re-fazer ou contra-fazer.
Essa atividade seria menos “científica” no sentido tradicional do termo, que
traduz uma busca de constantes, mas ainda mais crítica e penetrante do que o
objetivismo jamais poderia ter sido capaz.
A desconstrução se volta a um envolvimento com a linguagem, porém,
não como se ela fosse um funcionamento do ponto de vista lógico-formal que está
sempre na dependência da fala, e sim como um processo de “escritura”, uma
construção que pode ser melhor conceituada em termos de criação textual. O
logocentrismo seria a tradição racionalista que interpreta a linguagem na
dependência da razão, como produto de uma lógica intrínseca. A desconstrução se
produz no sentido de mostrar que essa lógica é composta por pressupostos, não
isenta de intenções sociais.
Derrida focalizou o problema da opacidade do meio
linguístico, seu comprometimento ideológico, do ponto de vista da referência da
escritura ao objeto que aparentemente nomeia. O que há de metafísico no
logocentrismo é que ele conceitua a referência em termos de identidade,
invertendo de modo ingênuo o efeito e a causa. Pois que a um termo verbal
corresponde no real uma identidade, isso é, o que o encantamento da linguagem
faz crer. Mas, nada assegura esse termo recíproco idêntico, na exterioridade do
pressuposto pelo funcionamento linguístico.
Heidegger já havia estabelecido essa crítica, porém, para
ele, a flutuação do idêntico na história sempre estava repondo a constante
inescapável do Ser, isto é, a diferença era sempre relativa a algum estágio da
história do Ser, na sua confrontação e irredutibilidade aos entes.
Derrida mantém a exigência de historicidade oriunda de
Heidegger, todavia, desloca essa constante, mostrando que o que varia
historicamente é o modo como a linguagem articula as identidades nas quais se
ancora.
Dessa maneira, ele recupera a conexão entre o conceito de
historicidade, que está numa oposição com o tradicional tratamento da história
como narrativa de fatos objetivos, e a filosofia de Nietzsche.
Aqui ele observa que essas identidades são construídas
relacionalmente, isto é, como oposições fundamentais de valores contrapostos.
Não mais relativas, de modo tenso, à voz transcendente do ser, mas às suas
próprias oposições construídas como fundadoras, na imanência ou materialidade
da escritura. Isso poderia fazer crer que essas relações opositivas repetem o
funcionamento estrutural de Saussure, porém, justamente, enquanto Saussure lida
com oposições últimas irredutíveis e invariáveis do ponto de vista formal,
Derrida lida com oposições históricas variáveis do ponto de vista conceitual.
As pretensas identidades que ancoram a referência da
linguagem são, conforme Derrida, construídas como oposições de valores que
orientam a cultura: por exemplo, cultural-natural, masculino-feminino,
subalterno-dominante, etc. Cada um desses termos só tem sentido em relação ao
outro. O cultural articula-se como um campo de variações orientado por termos
opostos e interdependentes, isto é, termos relacionais, não identidades fixas.
A oscilação se mede pelo modo como cada “texto”, o fenômeno
de revelação da cultura, verbal ou não, lida com as relações que o articulam.
Como essas relações estão subjacentes, como micropolos de força que formam a
tensão potencial do texto, cabe à desconstrução esclarecer sua oscilação, porém,
isso de modo inevitável repondo a leitura como também um intertexto, uma rede
de pressupostos culturais.
Derrida não pretendeu que a desconstrução pudesse ser a
“cientificidade” plena, no sentido de uma objetividade almejada, mas sim como
um processo crítico em desenvolvimento constante, algo que se poderia pensar em
termos de um movimento social, uma interação.
. Deleuze e Guattari
Estendendo a aproximação pós-estrutural a vários focos de
estudos humanos, Gilles Deleuze e Félix Guattari parecem exceções no pensamento
pós-estrutural, por não manterem vínculos anteriores notáveis com o
estruturalismo. A obra resultante da parceria desses dois autores fornece uma
definição esclarecedora do que opõe o estrutural e o pós-estrutural como duas
conceituações não coincidentes de Estrutura.
Enquanto o estruturalismo estabelecia a noção de estrutura
nos termos de uma hierarquia de níveis, Deleuze e Guattari pensam a noção de
estrutura como uma forma ideal que se estende como uma teia de relações de
vários tipos num meio de multiplicidade imanente.
A atividade cognitiva se torna um processo sempre crescente
de mapeamento dessa complexidade não hierarquizada de relações, pois o fenômeno
estudado numa área qualquer manifesta seus elementos como pontos singulares, que
convergem numa vizinhança, estabelecendo séries de eventos que articulam o
fenômeno, como um sistema jamais fechado, isto é, não um “objeto”, mas uma potência
de variação. Deleuze e Guattari não privilegiam o modelo linguístico como
paradigma das ciências humanas. Conceituam o signo em termos de pressuposição
recíproca de elementos de conteúdo, as forças que atuam no fenômeno, e de
expressão, as partículas semióticas destacáveis desses movimentos de força.
Essas noções são oriundas da linguística de Hjelmslev, que eles valorizam, por
oposição à de Saussure.
Quanto à compreensão do fenômeno cultural da linguagem
humana, Deleuze e Guattari a relacionam a variações de regimes que articulam o
processo de sentido. Esses regimes de signo são inseparáveis das formações
sociais que os atualizam em semióticas independentes, irredutíveis, mas
possivelmente misturáveis, como a dos povos primitivos e a das sociedades
capitalistas ocidentais.
Guattari e Deleuze desenvolveram contribuições importantes
em vários aspectos dos estudos humanos, incluindo o investimento clínico do inconsciente
através da esquizoanálise. Nesse campo deslocam a delimitação psíquica do
inconsciente freudiano por uma conceituação mais abrangente, que repõe o desejo
em relação material com o corpo e a sociedade, favorecendo a conexão da
teorização do inconsciente com aspectos fundamentais do marxismo e do
pensamento nietzscheano.
Contribuem também para uma reconsideração dos fenômenos
sociais, valorizando as minorias e suas intervenções políticas situadas, em vez
de oferecer modelos de maioria a propostas de revolução social.
Link: MONTEIRO, Marko. O pós-estruturalismo no estudo do
gênero. Campinas: 1997, in
http://pt.scribd.com/doc/109631635/O-pos-estruturalismo-no-estudo-de-genero
Filme: O Encouraçado
Potemkin (Bronenosets
Potyomkin,
1925) – Serguei Eisenstein
Leitura relacionada:
BENHABIB, Seyla; CORNELL, Drucilla (org.). Feminismo como crítica da modernidade;
releitura dos pensadores contemporâneos do ponto de vista da mulher. Trad.
Nathanael da Costa Caixeiro. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1987.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
Referências Bibliográficas:
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e a filosofia. Trad. Edmundo Fernandes Dias e Ruth Joffily Dias. Rio de
Janeiro: Rio, 1976.
______ e GUATTARI,
Félix.
Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia II. 5 vol. Trad.
Ana Lúcia de Oliveira. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 1995.
GUATTARI, Félix. As três ecologias. Trad. Maria Cristina Bittencourt. 13 ed.
Campinas: Papirus, 1990.
MACKSEY, Richard ; DONATO, Eugenio. A controvérsia estruturalista. Trad.
Carlos Alberto Vogt e Clarice Sabóia Madureira. São Paulo: Cultrix, 1976.
ALTHUSSER, Louis; RANCIÈRE,
Jacques ; MACHEREY, Pierre ; BALIBAR, Étienne; ESTABLET, Roger. Lire le Capital. 2 vol. Paris : François Maspero,
1967.
FOUCAULT, Michel. As
palavras e as coisas. Trad. Salma Tannus Muchail. 4 ed. São Paulo: Martins
Fontes, 1987.
JAKOBSON, Roman. Linguística
e comunicação. Trad. Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. 10 ed. São Paulo:
Cultrix, 1989.
LACAN, Jacques. Escritos.
Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
ŽIŽEK, Salvoj. Um mapa
da ideologia. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
Atividades:
1) Escreva sobre os
conceitos de Estrutura no estruturalismo e no pós-estruturalismo.
2) Escolha um autor ou vertente teórica estudados nesse
módulo e escreva sobre conceitos relacionados à sua escolha.
Gabarito:
1)
No
estruturalismo a estrutura é uma relação sistema estabelecida entre níveis
formalizáveis, relativamente autônomos, que impõe relações constitutivas de
elementos fixos, irredutíveis, mantendo o fenômeno como efeito de um
funcionamento de “linguagem” ou sistema de signos verbais ou não-verbais. No
pós-estruturalismo pensa-se que há uma rede complexa de relações de que emergem
elementos variáveis, singularidades e eventos, cuja leitura não depende de um
modelo “formalizado” da linguagem, mas da recuperação da historicidade inerente
aos processos de constituição de sentido.
2)
Resposta
pessoal do aluno, podendo esclarecer conceitos que o texto desenvolve ligados
aos eixos teóricos apresentados.
Capítulo 12: A transição ao Século XXI
. Enunciação e
História: O Olhar e o Poder
. O Conceito de
História: Marx e Foucault
Através do estudo sobre
Marx, podemos compreender o destaque de duas ideias importantes:
a) A história não se
apresenta como um relato contínuo de fatos isolados, mas como um registro
coerente dentro de períodos definidos, caracterizados em relação com o modo
de produção dominante em cada período.
b) A produção de saber
e, mais geralmente, todo o domínio da cultura, só se podem compreender,
enquanto superestruturalmente circunscritos, por sua relação com a
infraestrutura econômica, e assim, de modo necessário, apresentam um
envolvimento ideológico.
O marxismo exerceu
influência sobre todo o pensamento do século XX. A obra de Michel Foucault,
desenvolvendo-se entre as décadas de sessenta e meados da década de oitenta,
não poderia deixar de manifestar alguma relação com essa influência,
principalmente porque, como teórico, Foucault se caracteriza mais como
historiador.
No entanto, seus
estudos abarcam vários ramos de conhecimento na área das ciências humanas. O
modo como Foucault conceituou a história exigiu que ele formulasse questões
abrangentes, inclusive no domínio da filosofia, em que sua contribuição se
destaca nas esferas da teoria política e teoria do conhecimento.
O pós-estruturalismo, relacionando-se a autores oriundos do
estruturalismo, ostentou uma preminência do pensamento francês. Na Inglaterra e
nos EUA a recepção, respectivamente, de Althusser e Derrida, favoreceu a
generalização das ideias de Lacan, Foucault e vários pesquisadores relacionados
a esse percurso.
A recepção internacional do pós-estruturalismo se estende
pelas décadas de 80 e 90, época em que Foucault torna onipresente uma
controvérsia acerca do poder que desloca os pressupostos tradicionais ou mesmo
estritamente althusserianos do marxismo.
A obra de Foucault foi vista, entre as décadas de 60 e 70,
como estruturalista, principalmente porque se iniciou como uma preocupação
epistemológica de descrição da formação histórica de saberes, que se articulava
em termos de elementos básicos de natureza discursiva, os “enunciados”. Nessa
via Foucault implementou a noção de “a priori” histórico, o que designou a
“Episteme” de um período delimitado, irredutível aos outros.
A Episteme, ou o campo global do saber de um período
histórico singular, resultaria da articulação desses “enunciados”, ao mesmo
tempo os resultados discursivos efetivamente veiculados na linguagem teórica de
uma época, e portanto recuperáveis pela pesquisa histórica, e suportados por
pressupostos gerais orientadores da cultura dessa época. As teorias
localizáveis de uma Episteme seriam vertentes opostas, possibilidades
hipotéticas de interpretação desses pressupostos gerais.
Mudando-se os pressupostos, transforma-se a Episteme e já se
está na região de descrição de um outro período. Parecia assim que Foucault
havia descoberto um análogo das formações sociais do Marx althusseriano, no
campo do saber. No entanto, prosseguindo nas pesquisas, Foucault investiu uma
teorização do Poder, procurando desvendar as relações constitutivas da
dominação em cada época histórica, supondo as épocas, como vinha fazendo,
irredutíveis em termos estruturais.
Mas, assim, Foucault definia o Poder em termos quase opostos
à conceituação marxista, que lidava com o conceito de ideologia e de base
econômica. Foucault não estava apenas se aproximando das visões não
deterministas da ideologia, porém, contribuindo para a superação definitiva do
determinismo, pela transformação do próprio conceito de Poder.
Sem ser coercitivo ou exercido como dominação de uma
instância superior, o poder seria um conjunto de práticas observáveis no tecido
social. Tampouco seria, como Gramsci havia suposto, apenas uma consequência da
hegemonia de uma classe que lograva se interiorizar na cultura pelo
consentimento dos sujeitos.
Foucault não lidava com a conexão do poder com a classe
social, mas com a noção de que as relações de dominação se implementavam entre
os sujeitos mesmos, conforme tendências endógenas de sua interação, sendo, no
entanto, bem descritíveis em sua especificidade histórica, por se manifestarem
como relações determinadas, formando uma rede de dominação social, cuja
consistência variava entre os períodos.
A “microfísica do poder”, conceituada por Foucault, se
estabeleceu, portanto, numa aproximação pós-estrutural, impossível de ser
capturada pelo rótulo do estruturalismo, já que de modo algum procurava níveis
de formação de elementos básicos, mas estabelecia realidades sociais, como o
Saber e o Poder, em termos de exterioridades, nada pressupondo sua sistemática
totalização, e no entanto apresentando interconexões possivelmente recuperáveis
pelos historiadores.
Enquanto o Saber de uma época se articula discursivamente
pela confluência dos “Enunciados”, o Poder se implementa conforme práticas
sociaism numa base de “Normatividade”, o senso comum que numa certa época
conceitua socialmente o que é normal e o que é anômalo. Foucault estendeu ainda
suas pesquisasm no sentido de compreender os processos de formação de
subjetividade, que ele nomeou em termos de Subjetivação.
Foucault conceituou a pesquisa na região do Saber como
“arqueologia”. Quanto à que envolve o Poder, ele designou como “genealogia”,
conforme o termo utilizado por Nietzsche para nomear a avaliação do referencial
das forças atuantes em cada fenômeno cultural.
Foucault aproveita do
marxismo a conceituação de história como sucessão de períodos descontínuos. Porém,
não conserva a ideia de um núcleo fundador que poderia esclarecer imediatamente
sobre a natureza de uma época, como vimos ser o caso da noção de modo de
produção. Não ocorre, na visão foucaultiana da história, uma instância
básica como a infraestrutura econômica no marxismo, de que se deveriam irradiar
as formações de poder e os modos de organização social. Assim, tampouco se
poderia localizar a dependência da produção de um saber a um nível mais básico
de estratificação das forças políticas de um determinado período, e por isso
Foucault recusa também o conceito de ideologia.
Foucault pensa a época
histórica como uma estruturação ou uma invariância de meios que regulam as
relações de Poder e as formações de Saber. Não há como
estabelecer alguma condição determinante pela qual se possa explicar a emergência
desses meios. O que se pode é observar aquilo que eles condicionam, na medida
em que tanto o Saber como o Poder, em cada época, são nitidamente recuperáveis
em sua irredutibilidade por relação a qualquer outra época. Desse modo,
compreender a singularidade de um período histórico se torna exequível, desde
que se possam localizar e descrever os meios que convergem exclusivamente na
sua vigência.
. O Poder:
Os meios que determinam
as relações de poder de um período são designados, por Foucault, dispositivos.
Eles recobrem instituições não apenas oficiais como o governo ou os aparelhos
de Estado (leis e práticas judiciárias), mas também formas de dominação que se
instituem informalmente e se distribuem pelo tecido social, mesmo que não
tenham força de lei. São também determinados acontecimentos, como a Revolução
Francesa, que se concretizam historicamente, em termos de práticas
constituídas. O modo como se conduz a educação das crianças, a forma como se
tratam os canais de realização de práticas costumeiras - a sexualidade, os
hábitos de comunicação entre as pessoas, os modos de comportamento em sociedade
- são exemplos de áreas sobre as quais os investimentos do poder variam
historicamente.
. O Saber:
Paralelamente aos
dispositivos de poder que convergem em uma formação social, a
singularidade histórica conceituada, emergem os saberes, como domínios
liberados de discursividade. Esses saberes se concretizam em certas
instituições, que se erigem como responsáveis pelo que se pode considerar
legitimamente “conhecimento”, de modo a excluir outros discursos, dados como
inconsequentes, sem sentido, ou, em termos foucaultianos, “saberes sujeitados”.
Essa demarcação, entre
o Poder e o Saber, deve ser enfatizada, para que se possa compreender a
formação dos saberes, na medida em que eles não dependem diretamente das
práticas de dominação social, mas de meios restritos de discursividade, isto é,
de possibilidades reguladas de práticas exclusivamente de linguagem.
Foucault contribui
assim também, de modo bastante importante, com os estudos da linguagem,
inovando no âmbito da análise do discurso. Seu conceito original nesse
domínio é o de Enunciado. Foucault conceitua os Enunciados como
possibilidades discursivas no interior de certas regiões de saber que interessam
a uma época. Um diagnóstico médico é um Enunciado, assim como uma teoria
científica ou mesmo uma fórmula matemática. As condições que possibilitam a
formação dos enunciados, em cada época, formam um a priori histórico que
se designa como a episteme (em grego, “conhecimento”), que permite
conceituar o período. As relações discursivas, isto é, aquelas que se
desenvolvem entre enunciados, caracterizam a prática da linguagem, como as
regras que definem seu uso.
. As Formações Sociais:
Entre o saber e o poder
há convergências verificáveis, no sentido de estratégias que favorecem o
entrelaçamento dos meios constitutivos de algo como o senso comum da época. A formação
social recobre um conjunto de práticas instituídas como relações de poder e
condições de saber. Recuperar os meios específicos desse entrelaçamento é a
tarefa do historiador, isto é, reconstituir as práticas que se estabelecem
conforme a lógica inerente a cada período. Todavia, o que se libera assim
interessa a vários setores do conhecimento, pois abrange os mais importantes
temas da prática social.
Foucault identificou e
descreveu numerosos tipos de formação social. Mas sua obra como um todo
apresenta especial interesse no período que abrange desde o século XVII até a
contemporaneidade. Nesse interregno, ele conceituou três modos irredutíveis de
composição de forças sociais:
1) A sociedade de
exclusão: século XVII
A sociedade de exclusão
caracteriza-se por uma dualidade rigorosa entre o normal e o que se considera
anormal. Foucault localiza no século XVII problemas econômicos que poderiam
estar relacionados, não sendo, porém, determinantes, com as práticas de
isolamento social daqueles considerados anormais. Dessa maneira, como houve
escassez de ocupação da mão de obra, os indivíduos não alinhados na produção
(agricultura, manufaturas), seriam arrolados não apenas como desocupados, mas
como “vagabundos”, possíveis ladrões, malfeitores.
A exclusão social se
exerceu sobre inúmeros elementos da sociedade, desde os desocupados a pessoas
que não apresentavam desempenho social semelhante ao que a maioria considerava
normal. Dessa maneira, vemos que não se pode apresentar o econômico como
determinante desse processo social tão abrangente. Os lugares preparados para a
população excluída eram a prisão e o hospital.
Foucault mostrou que o
regime carcerário nessa época era extremamente rigoroso, admitindo castigos
corporais pela própria legislação. A população recolhida nos hospitais não era
apenas composta por doentes, mas incluía todos aqueles que não possuíam
identidade bem definida na sociedade. Esses lugares não possuíam um sistema de
comunicação ou de circulação relativamente ao meio social. Funcionavam como
universos segregados pelos muros que os cercavam, constituindo-se como
irredutível exterioridade relativamente ao conjunto da sociedade. Por esses
fatores Foucault designou a época como a “Grande Internação”.
Entre a população do
hospital havia agora o Louco. Foucault assinalou que na Idade Média e no
Renascimento houve outros modos de se conceituar a loucura. Mas, na sociedade
do século XVII, ela foi conceituada como oposta, ou exterior, à Razão. Assim, o
louco também foi colocado à margem do social, incluído na população a segregar.
Para compreender o
regime hospitalar nessa época é preciso lembrar que o saber médico não estava
ainda constituído como veio a ser na contemporaneidade. Por exemplo, o
diagnóstico do normal e do anormal não pertencia como competência
exclusivamente ao médico, mas supunha-se que qualquer pessoa normal,
pertencendo ao meio social, sabia perfeitamente conceituar o que se manifestava
como anormalidade.
Não havia um saber
científico sobre a loucura, e o regime hospitalar era visto como algo a ser
conduzido, no sentido de conservar no exterior da sociedade uma população não
mais socializável. Os responsáveis pela administração dos serviços hospitalares
não eram apenas médicos, mas autoridades civis, nomeados pelo governo
absolutista. Não havia, portanto, geralmente, a ideia de melhoramento da
população internada, de retorno ao meio, porém, os mecanismos de exclusão desse
período haviam se construído fundamentados pelo conceito de uma irredutível
diferença de natureza entre o normal e o anormal. O Poder, nessa
formação social, se exerce como poder de Excluir.
2) A sociedade disciplinar:
séculos XVIII a XX
A transição ao século
XVIII mostra, conforme Foucault, alguns fatores que se podem identificar como
não pertencendo ao regime de exclusão social que tinha sendo regularmente
praticado. Por exemplo, o tratamento oficialmente recomendado para a peste já
começa a manifestar uma forma de esquadrinhamento, que se imiscui no
interior mesmo do tecido social. Agora, não ocorre uma fronteira nítida
demarcando o anormal (exterior, fora da sociedade) frente ao normal (interior,
meio social), porém, no interior social, o normal começa a ser visto como
potencialmente anormal, assim como, na ambiência de uma epidemia, qualquer
pessoa pode apresentar o perigo de contagiar os outros, e são todas as casas
que precisam ser fiscalizadas, quanto à manutenção da higiene, não apenas as casas
de doentes.
O desenvolvimento
histórico do século XVIII exibe, sem nenhuma dúvida, a acentuação notável dessa
concepção de anormalidade potencial. O esquadrinhamento se estende a todos os
setores sociais, como disciplina do olhar, isto é, como vigilância exercida
sobre o normal. Foucault destaca, como exemplar desse novo conceito de
organização social, o projeto de prisão da autoria de Bentham (século XVIII), o
“panopticon”.
Ele concebeu um
conjunto de celas que seriam dispostas ao redor de um compartimento central.
Nesse compartimento, a autoridade teria visibilidade sobre todas as celas. Mas,
no interior das celas, não se veria a autoridade, sabendo-se, porém, estar
sendo intermitentemente vigiado. Foucault considera que esse esquema se
espalhou pelo tecido social como modelo de organização, isto é, considerava-se
cada vez mais que a vigilância disciplinar devia se exercer no interesse da
manutenção da normalidade.
Compreende-se que o
vigiado, não sabendo quando ou quem o vê, adapta o seu comportamento à
iminência de estar sendo visto. Assim, é do interior, de sua própria
consciência, que a pessoa é solicitada a aderir à disciplina, isto é, aos
hábitos ou manifestações de comportamento consideradas aceitáveis pela autoridade.
A penetração da interioridade pelo esquema disciplinar se redobra, abrangendo o
meio social e a consciência individual.
Isso significa que o
poder deve se exercer do interior, constituindo o que Foucault designa “corpos
dóceis”, como que por si mesmos submetidos ao adestramento: à vigilância
exercida sobre o todo potencialmente anormal, as sanções dirigidas ao
efetivamente anormal, ao exame constante para atualizar a atribuição de
culpa ou da normalidade. O poder agora se exerce como poder de Vigiar, poder
de Olhar (ver sem ser visto). Geralmente, todos os lugares de concentração
populacional, como a fábrica e a escola, se tornaram potencialmente vigiáveis.
Foucault pensa mesmo
que as ciências humanas se formaram como disciplinas de observação, conforme o
exemplo da pedagogia, plasmando-se como saber sobre a criança, que se ofereceu
como campo de observação, por sua concentração na escola.
Os grupos religiosos
ligados à reforma (Quakers, Protestantes), costumavam exercer uma forma
rigorosa de controle sobre o comportamento e o cotidiano dos membros da seita,
pelos outros membros, cada um vigiando todos e sendo vigiado por todos.
Os itens
comportamentais a serem observados se prescreviam como comportamento ascético:
abstinência sexual ou conjugalidade com vistas à reprodução, normas de cuidado
pessoal ou com a aparência (higiene, modo austero de vestir), disposição para o
trabalho, práticas de economia e controle consciencioso dos gastos, tudo o que
identificava o comportamento prescrito como austero, sóbrio.
Na transição ao século
XVIII, e na sua vigência, vários grupos se formaram, não apenas religiosos, que
se propunham esses mesmos meios disciplinares, já que isso contribuía para
evitar ser confundido com delinquentes, e, ao mesmo tempo, criava uma solidariedade
grupal pelo controle recíproco. Foucault observa, lembrando Weber, que essas
prescrições convergem significativamente na formação do capitalismo, e foram
posteriormente adotadas, já no século XIX, na regulamentação global das
instituições sociais (fábricas, escolas etc.).
Porém, o regime das
prisões também se alterou. Entre os séculos XVIII e XIX, manifesta-se o
abrandamento geral da legislação sobre a manutenção do preso (mitigação das
penas), com abolição do castigo corporal. O essencial quanto a isso é que a
população carcerária se torna algo a ser vigiado, mais do que simplesmente
punido, e começa a se propor que a prisão pode ser um lugar de recuperação, não
apenas de exclusão.
Quanto ao regime
hospitalar, Foucault observa que, na transição ao século XVIII, a população da
cidade começou a exigir garantias contra a possibilidade de contágio da
anormalidade dos internos, de modo que o médico se tornou o fiduciário dessa
garantia. Ele deveria agora se encarregar de manter a anormalidade dentro de
regras, por exemplo, explicitando a natureza da loucura.
Paralelamente, começa a
existir viabilidade de ocupação da mão de obra, e muitos internos são
liberados, porque já há lugar para eles na sociedade, sendo o caso dos
internamentos por mendicância ou vagabundagem. Dessa maneira, pouco a pouco, o
hospital se torna um espaço exclusivo de recuperação de doentes, enquanto a
medicina se investe com o status social de autoridade sobre as doenças,
especialmente sobre a loucura, que se tornou “desvio mental”. O louco não devia
simplesmente ser segregado, mas, como doente, deveria ser tratado.
Foucault designa as disciplinas
como conjuntos de regulamentação que organizam o cotidiano, os hábitos e
atitudes a serem adotados positivamente pelos corpos e pelas consciências
(horários prescritos para cada atividade, regras de exercício das funções,
normas de comportamento etc.). Essas regulamentações podem se instituir de modo
“fechado”, como no espaço de exceção que é o da cidade submetida ao flagelo da
peste, ou conforme o esquema do “panoptismo”, isto é, fragmentando-se em
regulações especificadas por todo o tecido social: os espaços vigiados e
regulamentados da fábrica, da escola, da caserna, do hospital, da prisão, ou
mesmo da sociedade, que se torna policiada.
O que singulariza a
sociedade disciplinar, por relação ao espaço de exclusão, é que ela se exerce
pelo poder de gerir a vida, em vez de decidir sobre quem pode viver. A
sociedade disciplinar é aquela dos grandes meios de confinamento, as disciplinas
regulamentando espaços fechados que abarcam o cotidiano dos indivíduos: da
família à escola, da escola à caserna, da caserna à fábrica, sempre se
confrontando com a ameaça do hospital ou da prisão.
O que há de comum
nessas regulamentações é que, por sobre a especificidade de práticas que elas
regulam, há um mesmo projeto de gerência: concentrar e distribuir no espaço,
ordenar no tempo, compor no espaço e no tempo uma força produtiva que supere as
forças individuais que a compõem.
. Foucault e Deleuze -
a sociedade de controle: Séculos XX e XXI
Na segunda metade do
século XX, começa a se desenvolver uma intensa transformação social, atingindo
praticamente todos os setores da sociedade, evidenciada de modo mais conspícuo
na revolução tecnológica.
Foucault também
compreendeu a crise do modelo disciplinar, crise que atinge setorizadamente
todas as instituições. Trata-se da superação da vigilância delimitada ao
fechamento dos espaços, para investir o controle sob formas ultrarrápidas, ao
ar livre, podendo instituir relações, em rede ou em feixe, entre os espaços
sociais.
A conceituação dessa
sociedade atual se tornou um tema importante, atraindo a atenção de numerosos
teóricos. Aqui, devemos examinar a concepção de Gilles Deleuze, que repõe
algumas ideias que Foucault manifestou sobre o tema, em suas entrevistas.
A integração em rede
dos espaços sociais pode ser vista, por exemplo, na interdependência entre a
família e a empresa, os meios de comunicação e a vida privada, a escola e a
comunidade etc. Assim, no regime das prisões, as penas “alternativas”, “substitutivas”
de delitos não muito graves, podem se traduzir na prisão domiciliar, pois as “coleiras
eletrônicas” permitem obrigar o preso a permanecer em (ou voltar pra) casa.
Na educação, observa-se
a introdução das empresas, sob a forma de investimentos e consequentemente de
controle, em todos os níveis de escolaridade.
No regime hospitalar,
substitui-se o conceito de corpo individual, pelo de matéria especificável,
conforme a modulação das especialidades médicas, matéria sujeita ao controle
pela cifragem.
A forma de
interiorização da disciplina instituía o indivíduo como fator de grupo, a
fábrica favorecia a subsunção da pessoa à massa, mobilizável pelo sindicato e
vigiada pelo patronato.
Os regulamentos formavam
uma “consciência” pela imposição da vigilância da pessoa sobre si mesma, seus
gestos, suas atitudes (comportamento). Agora, os espaços sociais não oferecem
“moldes” da consciência das massas, moldagens distintas conforme sua
especificidade.
Os controles,
não mais as “disciplinas”, são modulações, pois eles induzem a variações
de intensidade, conforme as polarizações que traduzem a adesão apropriada a
situações determinadas. Como os espaços não são mais irredutíveis uns aos
outros, não se pensa o indivíduo como um corpúsculo, mas como uma onda, não se
constituindo os espaços como de confinamento, mas como feixes que a onda
percorre experimentando potenciais de intensidade, integrando-se, portanto,
àquilo que percorre em cada grau de intensidade, por exemplo, na empresa,
modulando-se conforme as transformações do meio (rivalidades, mas também
formação de equipes etc.).
O trabalhador investe
ele mesmo a empresa (salários por mérito, participação nos lucros, prêmios por
produtividade etc.), não se põe como um objeto confrontado pela produção.
A formação permanente
tende a substituir a ideia de “escola”, como espaço individualizado de
educação, e também o educando constitui o processo pedagógico global. O exame,
antes periódico e administrado por instâncias precisas, como a medicina, se
substitui pelo controle contínuo.
Em vez de “indivíduos”
identificáveis por sua assinatura e se posicionando na massa por seu número de
matrícula, temos agora seres divisíveis, moduláveis, que se identificam por senhas, as massas tendo-se tornado
mercados, amostras ou “bancos”.
Etimologicamente,
“indivíduo” é o “não-divisível”, enquanto a subjetivação contemporânea forma
seres como multiplicidades, compondo-se por suas parcialidades que se integram
em regiões contínuas de modulação do espaço social (empresa, lar, ambientes de
educação, de lazer etc.), adaptando-se às situações contraditórias desses
meios. A rivalidade, considerada como “sã emulação” e motivação positiva pela
lógica das empresas, contrapõe os indivíduos entre si, divide-os em si mesmos,
atravessando cada um, impedindo a sua consciência de grupo ou de massa, como na
antiga fábrica.
O capitalismo da
sociedade disciplinar operava pela produção, mas, na sociedade atual, a
produção se relega ao terceiro mundo enquanto nos centros opera-se por
sobreprodução.
Não se trata mais de
comprar matéria-prima para vender como produtos acabados, e sim de comprar
produtos já feitos, montar peças destacadas (transnacionalização da economia),
vender serviços, comprar ações. O capitalismo não mais se dirige para a
produção, mas para o produto, venda ou mercado.
A supremacia da venda
investe o marketing como instrumento de controle social. O controle se exerce
de modo contínuo e ilimitado. O poder da sociedade de exclusão se exercia com
poder de segregar, o da sociedade disciplinar, como poder de gerir a vida.
O poder das sociedades
de controle se erige, enquanto regime atual de dominação, como detecção de
posições: o domínio informático se torna o meio, sempre mais competente, de
detecção da posição de cada elemento (momento e lugar) no espaço social.
.
Meios de comunicação e tecnocultura
A
transição do século XIX ao século XX manifestou transformações importantes na
organização da sociedade.
Formam-se
os conglomerados empresariais, começam a surgir as grandes lojas de
departamentos nas cidades mais importantes do mundo ocidental e se desenvolve o
progresso tecnológico que, gradualmente, atinge todos os setores sociais.
Isso
induziu a uma transformação no conceito de totalidade social. À noção de população,
como um conjunto limitado de habitantes identificados por seus traços de
solidariedade histórica a um ambiente local, se substituiu o conceito de massa,
conjuntura sempre crescente de integrantes anônimos, incógnitos, não imediatamente
situáveis quanto à proveniência ou inserção cultural.
Um
dos aspectos do impacto tecnológico que se ofereceu à reflexão corresponde ao
fenômeno da estetização do espaço urbano, decorrente da penetração dos meios de
comunicação possibilitada pelos instrumentos de reprodução da imagem. O volume
de informação canalizada ao ser humano no espaço de convivência cotidiana se
tornou vertiginoso, transformando os dados de sua relação com a arte e com a
cultura. Logo se tornou patente que o fenômeno da penetração da comunicação em
massa não se limitava a uma questão de quantidade, sendo de qualidade.
Conforme
Walter Benjamin observou, a reprodutibilidade técnica impôs um novo público, as
massas, para formas novas de arte (fotografia, cinema). Mas, se transformou
também o espaço de recepção das formas tradicionais da cultura, que havia se
tornado acessível a esse público novo. Ocorreu então a inevitável associação da
cultura autêntica com os produtos tecnicamente reproduzidos, isto é, a
banalização do fenômeno cultural, que se torna obstáculo à veiculação da arte
como revelação da verdade existencial do ser humano, para circunscrevê-la ao
divertimento, à consumação descompromissada, à veiculação ideológica.
A
linguagem dos meios de comunicação em massa não opera apenas uma mudança no
veículo de recepção (outdoor, jornal e revista ilustrados, rádio, televisão,
computador, não apenas o livro ou o papel com caracteres impressos e desenhos
figurados). Como propôs MacLuhan, “o meio é a mensagem”, pois se impõem novos
modos de percepção e de pensamento, estilos de vida e de consumação, alterando
os modelos tradicionais, pelos quais o ser humano vinha compreendendo a sua
relação com o mundo. Constitui-se assim a sociedade como uma “Galáxia de
Guttemberg”, um espaço completamente envolvido e modulado pelos meios de
comunicações em massa. Isso se torna manifesto na ambiência da “Globalização”,
em que a inserção econômica no mercado internacional força as localidades
nacionais à adoção da mesma linguagem cultural ocidental, não importando a sua
proveniência tradicional.
A
penetração da tecnologia e da comunicação, criando algo como uma tecnocultura,
pode ser observada em dois períodos:
·
Período moderno:
corresponde à transição ao século XX e sua metade inicial. Nesse momento, a
reprodutibilidade técnica impôs uma revolução na arte, pois, não só se
ofereceram novos meios de expressão, como o cinema, como certos meios
estabilizados, como a pintura e o desenho, sofreram a interferência da
fotografia e das técnicas de reprodução da imagem. Para salvaguardar a
especificidade do artístico, a arte se tornou avessa à linguagem comum e os
artistas de vanguarda desenvolveram meios de expressão restritos, mais
relacionados ao seu “fazer” do que ao resultado, o objeto estético (dadaísmo,
primitivismo, arte experimental). Paralelamente, se desenvolveram estilos
claramente influenciados pelas realizações tecnológicas (futurismo, Bauhaus).
·
Período pós-moderno:
corresponde à segunda metade do século XX e ao momento atual. A penetração da
comunicação em massa não se restringe à estetização urbana ou à reprodução
técnica, mas organiza a atividade mesma do artista, o qual incorpora as
linguagens popularizadas que ela veicula, utilizando materiais sintéticos,
computador, espaços de veiculação e formas de arte tecnizadas, como vídeo,
poesia computadorizada etc. A superação do regime bipolar e da guerra fria
conduziu a uma pulverização dos blocos de orientação política e coexistem
perspectivas culturais múltiplas (etnias, minorias). A internacionalização da
economia (blocos econômicos, empresas transnacionais) impõe uma linguagem
cultural “globalizada”, isto é, independente dos padrões históricos nacionais
ou de grupos sociais específicos (tradições, religiões, classes não-dominantes
etc.).
.
Pragmática da comunicação
A
reflexão acerca das transformações operadas pela recepção dos meios de
comunicação de massa (mass media)
conduziu a uma reordenação das noções que envolvem os fenômenos da comunicação
e da linguagem.
Geralmente,
substituiu-se o modelo pelo qual a comunicação linguística é uma transmissão de
significados (semântica) por aquele que a compreende como uma interação entre
agentes (pragmática).
Aqui,
devemos enfatizar o conceito de Ação envolvido nessa perspectiva conceitual. Na
conceituação semântica, o significado é meramente informado, como que
passivamente repetido e igualmente recebido de forma passiva. Na visão
pragmática, a linguagem é um Ato de comunicação, e a comunicação uma Ação, por
meio da linguagem, restando a questão de como conceituar essa ação.
Isso
acarreta a aceitação do fato de a linguagem não ser “pura”, isto é, de que, na
prática da linguagem, estão embutidos processos sociais ideológicos e intenções
tácitas, assim como a penetração da comunicação em massa não está isenta da
imposição de códigos culturais que interessam à manutenção do estado de coisas
social (privilégios de classe, imposição de volumes de consumação, de
pressupostos culturais étnicos ou de gênero etc.).
Todavia,
a interpretação desse fato se desenvolve basicamente conforme duas tendências,
que se relacionam ao modo de compreender a ação que se implementa como linguagem:
a)
Alguns teóricos procuram derivar dessa compreensão uma teoria abrangente do
processo comunicacional, de modo a purificar a interação social por meio da
linguagem e assim contornar os seus efeitos ideológicos. Essa vertente originou
uma “ética da comunicação” que propõe um tipo de ação comunicativa, pela qual
os agentes, já prevenidos da distorção ideológica dos conteúdos e das práticas
comunicacionais habituais, procuram tornar transparentes suas intenções para o
outro, por meio do respeito às regras universais da significação e do sentido.
Haveria
um compromisso básico no próprio ato de linguagem: pressupomos implicitamente
que aquilo que veiculamos é dotado de relevância, significação e verdade (Jürgen
Habermas), cuja aceitação o sujeito procura tornar viável aos outros, ou seja,
pretende que seja do interesse dos outros. Dessa maneira, a concepção de ação
(pragmática) que embasa a linguagem é a de uma argumentação. No entanto,
se todo ato de linguagem se torna uma argumentação, pode-se postular que se
orienta por e para uma virtual comunidade ilimitada de comunicação (Karl-Otto
Appel) que se torna transcendental em relação a tudo o que é
empiricamente enunciável.
Mesmo
quando se mente, se têm esses postulados como implícitos no ato da comunicação,
e, do mesmo modo, a pertença à comunidade de comunicação é virtualmente visada
por todos os praticantes da linguagem, até mesmo quando conversam consigo
mesmos.
Assim,
o que uma ética comunicativa propõe é explorar os fundamentos universais
da argumentação e clarificar todos os atos e decisões comunicativas, para que,
por esse meio, se assegure a transparência de todas as instituições sociais que
são intermediadas por meio da linguagem.
b)
Certos teóricos compreendem o comprometimento ideológico da linguagem em nível
de código. Dessa forma, as próprias estruturas gramaticais, sintáticas e
semânticas já induzem à inserção ideológica, conforme observou Umberto Eco, na
medida em que privilegiam a instância de uma linguagem característica da classe
dominante.
A
filosofia de Gilles Deleuze porta uma crítica à noção de ideologia, mas postula
que a dominação social, exercendo-se em vários níveis, abrange também o domínio
da linguagem, pois as estruturas aceitas como universais são as que se
relacionam às constantes estudadas a partir da língua maior, que se impõe sobre
as falas menores, regionais ou de setores marginalizados. Sua concepção da ação
(pragmática) básica da linguagem é a instituição de uma Ordem, tanto em nível
de sujeito (palavra de ordem) quanto em nível histórico, social (agenciamentos
coletivos de enunciação).
Podemos
agrupar esses aportes, não ignorando a especificidade de cada um, na tendência
ampla que aceita as estruturas linguísticas dominantes como inseparáveis da
instância pragmática na qual se mantém a efetividade da comunicação, não
havendo assim como contornar os efeitos coercivos da linguagem.
O
que propõem é que, ao invés de se ater a regras “universais”, que regem apenas
o funcionamento dos códigos instituídos como língua maior pela gramática
oficial, deve-se ampliar o espaço de recepção, para a entrada de formas de
expressão até então recalcadas, marginalizadas: explorando ao máximo a
multiplicidade cultural ou recuperando o uso literário de línguas menores e
variações da fala (Deleuze); visando às realizações da arte moderna de
vanguarda (Eco) ou contemporânea (Derrida, Culler, Barthes, crítica feminista, crítica
pós-moderna, etc.).
. Pós-estruturalismos
O termo “pós-estrutural” pode ser utilizado tanto em sentido
restrito, como uma teorização específica de autores de algum modo relacionados
à noção de estrutura, quanto em sentido mais amplo, como o cenário do
pensamento que se implementa após a voga do estruturalismo.
Na transição do século XX ao século XXI ocorre, porém, uma
multiplicidade teórica, que talvez fosse melhor captada sem que se tentasse
subsumi-la a um rótulo totalizante. Não obstante, parece haver um vínculo
inegável entre as intenções dessa multiplicidade de teorias e alguns conceitos
lançados pelos autores ligados ao pós-estruturalismo, em sentido restrito.
A teorização de Foucault influenciou manifestamente o
Materialismo Cultural inglês de Raymond Williams, Catherine Belsey e vários
teóricos, definindo-se como exame de todas as formas de significação e os meios
de sua produção. Nos EUA, a obra de Foucault está relacionada ao Novo
Historicismo de Stephen Greenblatt, Louis Montrose e teóricos engajados em rastrear
relações não causais entre textos, poder e subjetividade.
Há a confluência dos estudos marxistas com o
pós-estruturalismo, originando o que se designou “pós-marxismo”, teorização bem
representada pela obra de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe.
A desconstrução tornou-se um movimento contemporâneo
importante, em que se verifica a influência de Derrida. Já a ênfase nas
minorias, enfatizada no âmbito pós-estrutural notadamente com Deleuze e
Guattari, conduziu internacionalmente a várias vertentes.
Nos EUA, surge, no interior das instituições acadêmicas, o
incremento dos estudos culturais e literários de minorias étnicas. A teoria
pós-colonial, em que se destacam Edward Said, Homi Bhabha, na qual se poderia
integrar a contribuição de vários teóricos importantes do terceiro mundo, como
Milton Santos e Eduardo Galeano, procura resgatar a perspectiva cultural dos
povos marcados pela imposição de padrões extrínsecos, na lógica da colonização.
A teoria do “estranho” (Judith Butler, Eve Sedgwick) e a
teoria feminista, que apresenta inúmeras contribuições como as de Elaine
Showalter, Jane Flax, Iris Young, Rose Marie Muraro, Heloneida Studart e Seyla
Benhabib, estudam, respectivamente, o estatuto cultural dos sexualmente
marginalizados e das mulheres.
Esses enfoques minoritários procuram examinar como a
conceituação social do “outro”, objeto de preconceito pelo mero rótulo de ser
“diferente”, se constrói numa relação intrínseca com a formação da noção de
“maioria” determinada pela relação a um conjunto de comportamentos que compõem
a normatividade.
O pensamento contemporâneo oferece uma gama variada de
instigantes aportes teóricos que favorecem práticas sociais libertadoras.
Estabelece-se assim um “novo imaginário político”, conforme a terminologia de Ernesto
Laclau e Chantal Mouffe.
No lugar de uma confrontação social exclusivamente
determinada pelos pressupostos de classe, as contestações abrangem questões
variadas, como aquelas relativas ao espaço urbano, à ecologia, às formas de
autoridade e de instituições repressoras, às práticas de consumação de
serviços, à burocratização administrativa, tanto quanto o problema da
desigualdade econômica.
Nosso livro selecionou as vertentes mais proeminentes do
pensamento contemporâneo. Mas é importante que você perceba a necessidade de
ampliar suas pesquisas, pois, desde o século XIX, o volume de produção teórica
tem se tornado vertiginoso.
Se, por isso mesmo, não mais se propõe o ideal de um saber
totalizante, um “domínio” do campo teórico, o interessante é que o “crescendo”
de nossos conhecimentos seja esclarecedor de nossos próprios interesses, de
nossas próprias transformações e reorientações ao longo do percurso.
Esperando favorecer o seu potencial crítico e interativo com
o devir da cultura, esse estudo do pensamento contemporâneo assinalou o que
consideramos ser mais conveniente a essa intenção.
Links:
“A tecnocultura atual e suas tendências futuras”, in http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=86023575003
“Audiovisualidades e tecnocultura: comunicação, memória e
design”, in http://tecnoculturaaudiovisual.com.br/
Leituras
Complementares:
BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na época de suas técnicas
de reprodução”. Textos escolhidos.
Coleção Pensadores. Trad. José Lino Grünnewald et alii. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
DELEUZE, Gilles.
“Post-scriptum sobre as sociedades de controle”, in Conversações. Trad.
Peter Pál Perbart. Rio de Janeiro: 34, 1992, p. 219-226.
Exercícios:
1)
Escreva sobre a relação entre cultura e sociedade de massas assim como
teorizada por Benjamin.
2)
Escreva sobre a noção de comunicação conforme a conceituação pragmática.
3)
Estabeleça alguns fatores de oposição entre os conceitos de história de Marx e
Foucault.
4)
Escreva sobre o conceito foucaultiano de formação social.
5)
Escreva sobre alguma dentre as três formações sociais conceituadas
Gabaritos:
1) Benjamin
critica a sociedade de massas como a antítese da cultura. Na primeira, só há
circulação de estereótipos cujo valor se mede apenas pela quantidade
(reprodutibilidade técnica) e não pela qualidade. Toda ela está subsumida aos
comandos de interesse do capitalismo, reduzida a dispositivos de consumação
individual. A cultura, pelo contrário, é o cabedal comum de uma sociedade
historicamente estabilizada. As sociedades não têm uma cultura universal, mas,
cada uma tem a sua própria tradição (história) cultural. As sociedades são,
portanto, em devir, e a produção cultural de cada uma no presente perfaz-se
como interlocução e crítica de sua tradição.
2) A
comunicação seria o lugar intersubjetivo da linguagem, e assim teria o papel da
mediação das diferenças. A mediação seria legitimável e não violentaria as
diferenças, posto que a linguagem não é idiossincrática, e, como nela há
universalidade, pondo-nos em diálogo uns com os outros, obteríamos consenso
sobre as questões conflitantes. O consenso refletiria nossa adesão comum, e não
seria a imposição do ponto de vista sectário de uns sobre outros. Esse conceito
tem sido criticado, porque ele não situa o limite do consenso, pretendendo
avançar ao domínio da ética, ao mesmo tempo que insistindo na
intersubjetividade como nível público e não privado, e sendo o parâmetro
universalista da linguagem bastante questionável na era do multiculturalismo.
3) Para
Marx, a história não tem um sentido empírico, somente pode ser conceituada a
partir do “modo de produção”, como variável conforme tempo e lugar, porém, a
partir da constante que define a estruturação de qualquer “modo”, o conflito
criado pela base econômica entre explorados e exploradores. Há um progresso
histórico mensurável no marxismo, a partir do ponto em que um modo de produção
desfaz o secular compromisso ideológico de mascaramento do conflito da base e
põe a nu que se trata da materialidade da produção. Isso ocorre somente com o
capitalismo, e a sociedade científica moderno-ocidental seria o trampolim da
verdadeira crítica histórica, capaz de conduzir ao socialismo. Para Foucault
não existe uma constante capaz de reduzir a história como horizonte do devir,
mas podemos reconstituir articulações de sentido assinaláveis como “a prioris”
de época em regiões determinadas de situamento inteligível: do saber, do poder
e da auto-concepção da subjetividade. Uma reconstituição é apenas uma
modelização, e não exaure a complexidade em devir. Porém, a obra de Foucault
não reserva tematização para essa complexidade, limitando-se progressivamente ao
parâmetro do modelo.
4) Uma
formação social para Foucault é algo em devir, não tem uma determinante
específica, mas está articulada estruturalmente, conforme a sua composição
intrínseca. O Saber de uma época e lugar forma uma instância dessa composição,
assim como os dispositivos do Poder e as práticas de subjetivação
(sexualidade), em que os sujeitos são socializados de modo a se
autocompreenderem como tais.
5) Na
sociedade moderno-ocidental, o Saber se torna “episteme” (ciência) da
modernidade. Puramente estrutural, nela as ciências formam seus próprios
objetos a partir de suas práticas de observação (microscópicas, matemáticas,
sistemáticas). Como as ciências não mais liberam uma visão de mundo unificada,
criam-se as pseudo-ciências humanas para fazê-lo ao invés de se cingir a
sociedade à evidência de que não há instância legítima dessa representação
antropocêntrica. Ao mesmo tempo, as ciências e pseudo-ciências deslocam os
dispositivos anteriores da governamentalidade, tal qual o direito ou o consenso
político, como se fossem provedoras de verdade dos sujeitos, classificando-os,
e das instituições, por fornecerem informações técnicas convenientes à redução
do governo à gestão da coisa pública. A sexualidade se discursiviza, se torna
uma questão de ser falada, a fim de que uma instância do saber classifique e
identifique os comportamentos e consequentemente produza as identidades
subjetivas correspondentes. O poder se articula em torno de disciplinas como
normas que, ao longo do século XIX, fixaram os espaços sociais fragmentados
(fábrica, exército, escola, família etc.), não reuníveis numa disciplina única,
mas todos como horizontes da observação e controle científicos.
Anexo: Pós-modernidade,
multiculturalismo e ciências humanas
A emergência da
terminologia da “pós-modernidade” desde os anos oitenta firmou-se como o
referencial mais oportuno ao situamento de um cenário de época atual. Isto é,
tanto o que abrange transformações que já não se deixam apreender por aquelas
que prenunciaram a segunda metade do século XX, em franco contraste com a
primeira metade, quanto o que por isso mesmo espelha a realidade do novo
milênio.
Ao longo destas três
décadas de vivas polêmicas em torno da terminologia da “pós-modernidade”,
superou-se ao menos um quadro inicial em que a mera realidade de um novo
contexto integrava a controvérsia. Outro aspecto que já parece melhor delineado
é o das relações entre pós-estruturalismo e pós-modernismo. Se a princípio
pareceu que os pós-estruturalistas revolucionavam os parâmetros a ponto de
serem exemplares de uma superação de todo o período histórico iniciado com a
Revolução Industrial e política da sociedade liberal, agora compreendemos com
mais clareza as suas próprias reservas ao enunciado de uma nova era, reservas
que não foram sequer tematizadas por teóricos c e críticos do pós-moderno como
Hutcheon, Jameson e Eagleton, entre os muitos que poderiam ser citados.
Convém atualmente
reconhecer as abrangências que cobrem a necessidade sentida de conceito e
terminologia para um novo contexto de transformações significativas. Assim por
um lado, “pós-modernidade” implica um cenário sócio-histórico e político,
enquanto “pós-modernismo” se utilizaria melhor para campos estritos de práticas
estéticas e culturais que, ou se autodesignaram por esse termo, ou foram por
outros assim definidos, a partir de ter havido um discurso de autodesignação
que instaurou a problemática. Porém, restaria indagar em qual dos dois campos
deveríamos situar as transformações capitais que ocorreram na “episteme”
(ciência) ela mesma, de modo que, circularmente, o nosso próprio situamento
teórico em relação à problemática do tempo histórico teria que ser esclarecido.
É por isso também que as discussões em torno do pós-estruturalismo como um tipo
de pós-modernismo já se mostram tão mal conduzidas.
O pós-estruturalismo
não é um estilo de arte, nem um movimento social ou político, mas sim um locus
epistêmico, e, no entanto, autores como os citados o utilizaram como
referencial para esclarecer o que seria uma “lógica cultural” (Jameson)
inerente a um novo contexto sócio-histórico (“capitalismo tardio”), ao mesmo
tempo que como expressão das coordenadas que estariam orientando um novo fazer
artístico, esvaziando assim o seu verdadeiro aporte teórico que deixava de ser
visto como algo que devia ser discutido por si mesmo.
Aqui estaremos
optando pela consideração do novo campo epistêmico em termos de
“pós-modernidade” e não de “pós-modernismo”. Mas as transformações que inerem
este novo campo epistêmico não integram propriamente o pós-estruturalismo e,
pelo contrário, como os próprios Foucault e Deleuze expressaram, lhe é
antitético em vários aspectos.
Temos assim três
regiões de apreciação necessária: o sócio-político, o campo estético-cultural e
a episteme. Nosso interesse prende-se a este último, mas convém delinear nossa
apreensão do que o instrumenta em termos de sua inserção num cenário articulado
também pelos demais.
A pós-modernidade
como um novo ambiente histórico é algo consequente desde as guerras pela
descolonização afro-asiática, às quais, porém, não se seguiu um novo mundo
equilibrado de nações autônomas. Essas guerras tiveram lugar tipicamente entre
os anos cinquenta e setenta, assim como, paralelamente, na América Latina houve
movimentos visando independência econômica, que logo foram abafados por
violentos meios de força imperialista. Subsequentemente à sua independência
política, o mundo afro-asiático se converteu no mesmo “dependentismo” em que já
se encontrava a América Latina, desde meios do século XIX, pelos mesmos
motivos, a saber, a ingerência por todo tipo de expediente de força, corrupção
e “diplomacia” do “dinheiro”, das mesmas potências que, na época colonial,
foram suas “metrópoles” escravistas ou neocolonialistas.
Na altura dos anos
oitenta já estava bem delineado o que agora se expressa como novo mapa
geopolítico, o do “conflito Norte/Sul”, ou entre países desenvolvidos
imperialistas, sedes de multinacionais, e países subdesenvolvidos, cuja
economia está alocada a estas mesmas multinacionais. Dessa maneira, o escopo
das nações pós-coloniais em produzir uma revolução industrial nacional, que foi
o fermento de confrontos que explodiram naquelas décadas, se definiu
posteriormente como inviabilizado pelos países “centrais” (desenvolvidos), que
dominam presentemente toda a economia mundial, por meio das multinacionais que
sediam.
Portanto, o primeiro
conceito proposto de “pós-modernidade” como era pós-industrial, porque a ênfase
da economia teria se deslocado do setor secundário (indústria) para o setor
terciário (serviços e informação), mostrou-se inadequado para definir a
transformação histórica. Esta consistiu, ao invés disso, na industrialização
ter finalmente alcançado o “terceiro-mundo” (nações
pós-coloniais/subdesenvolvidas), porém, isso não significando que essas nações
tenham feito revoluções modernizantes reais, e, pelo contrário, significa um
novo tipo de industrialização (imperialismo) possível pelos avanços
tecnológicos. Aquele tipo que depende da própria fábrica poder ser exportada
para regiões que lhe ofereçam os “atrativos” que a frouxa capacidade política
local lhe permite: isenção de impostos, falta de cuidados ecológicos, extrema
barateza da mão-de-obra, não necessidade de investimento social local etc.
Ao mesmo tempo, fortificou-se
imensamente a capacidade de autoproteção das economias dos países centrais, que
se reuniram no bloco europeu, ou então se reservou, como os USA, o status de
maior potência no cenário internacional.
Um novo capital “asiático”, a partir do modelo japonês, não supera a
antítese que instrumenta a atualidade, posto que somente o próprio Japão, por
sua conveniência história no pós-guerra aos USA, produziu uma autêntica
modernização paralela à indústria, provendo sua população entre as mãos-de-obra
melhores pagas do mundo, em franco contraste com os “tigres asiáticos”, que, ao
contrário, foram simples plataformas de exportação, reduzindo a população à
semiescravidão, conforme a cartilha do “neoliberalismo econômico”.
Quanto ao
pós-modernismo, a teoria, crítica e movimentos de arte realmente expressaram-se
em torno de rupturas muito profundas com o “modernismo”, e especialmente o tema
começou a ser relevante na arquitetura. Não obstante, há vários conceitos a
propósito, pró ou contra, e aqui nosso tema não abrange especificamente essa
problemática. Em geral, parece claro que qualquer conceito de pós-modernismo
depende de se ter um outro conceito, o de modernismo, em razão de que se
esclareceria algum contraste notável.
Assim, de um modo
panorâmico, poderíamos propor que o modernismo, não obstante sua complexidade
de movimentos constitutivos, foi basicamente um investimento programático na
materialidade do signo, em função de concepções da linguagem (inconsciente)
como processos constitutivos da consciência, apenas como efeito seu. Os
teóricos e propugnadores do pós-modernismo acentuam que o tempo das certezas
programáticas já não era o presente, e, para o bem ou para o mal, houve
abandono da experimentação “formal”, que antes visava por a nu algum nível constitutivo
da linguagem.
Mas, a partir daqui,
os teóricos se opuseram. Houve por um lado aqueles que como Jameson e Eagleton
criticaram a isso, como uma forma de abandono do próprio potencial crítico que
o “modernismo” ostentava contra a consciência burguesa em sua ilusão de
autossuficiência “comunicativa”. O pós-modernismo seria apenas a rendição da
consciência crítica ao poder capitalístico, a absorção total do que antes era
chamado arte pelo mercado midiático e aparelhamento tecnológico, com o que
críticos sociais, como Eduardo Subirats, concordariam.
Por outro lado, houve
aqueles que, como Linda Hutcheon, defenderam o pós-modernismo, como apenas uma
outra forma de crítica, aquela que, ao invés da experimentação formal, preferiu
investir a História, visando denunciar os reducionismos que até aqui vinham
deformando os acontecimentos, por impedir que os conflitos reais, não
subsumidos pela definição etnocêntrica de classe (econômica), fossem nela
expressos como socialmente relevantes.
Atualmente, as
primeiras visadas de ataque ao pós-modernismo em função dessa dicotomia parecem
bastante ultrapassadas, pois se torna inútil esgrimir por uma causa
irrecuperável na própria perspectiva dos conceituadores, além de que é óbvio
que se o que há é convergência de novos meios estéticos em paralelo a uma nova
era da tecnologia, quanto a esta é ela mesma instauradora de a prioris
materiais constitutivos que se tornam sempre mais inevitavelmente expressos no
produto estético. Emergências de estudos que possam conceituar esses novos a
prioris em função dos novos meios estéticos é do que precisamos, e até mesmo
Jameson o pressentiu com clareza ao produzir uma tentativa neste sentido tendo
por alvo a então nova arte do vídeo. Mas que a renovação da História é algo que se deve ao pós-modernismo estético, ao invés de ser algo com que houve um envolvimento
estético, que por isso se teve que designar pós-moderno, parece a nós de hoje
pouco defensável.
Vemos então que,
tanto pelo viés do cenário histórico-social (“internacionalização da economia
industrial”), quanto pelo das renovações artísticas e culturais, são as
transformações na episteme que se tornam absolutamente relevantes. Em matéria
de ciências tecnológicas e da natureza, muitas transformações radicais vêm se
somando desde os anos oitenta, e são de especial relevância os avanços da
neurociência e genética. Mas a que institui a ecologia como uma problemática
indeslocável ao próprio parâmetro do significado da ciência no mundo é capital
até mesmo à transformação do mapa geopolítico.
Pois não se trata
apenas do dependentismo (subdesenvolvimento) que ao Sul impede alcançar o novo
conceito de desenvolvimento como equilíbrio da qualidade de vida entre toda a população local e não apenas
grupos privilegiados. Trata-se também do que inviabiliza o conceito de países
“em desenvolvimento”, posto que a concepção do progresso como igualação dos
níveis de consumação energética e know
how tecnológico dos países centrais está ultrapassada. Há um limite
ecológico descoberto tal que não é possível essa igualação. Além disso, a
ciência não é mais critério da evolução psicossocial, uma vez que ela não
conduz necessariamente ao bem da espécie, mas, pelo contrário, pode estar
comprometida com a inviabilização ambiental, tanto quanto com a dominação
imperialista mundial. Uma relativização epistemológica importante teve lugar
desde os anos oitenta, como se pode notar pela reconceituação das ciências em
termos de “escuta poética” (Prigogine) ou linguagens autônomas (Lyotard).
Assim, isso reflete
no campo das ciências humanas, especialmente na História, pois já não é
possível reduzi-la a uma grande narrativa do progresso protagonizado pelo
“centro” ou cultura ocidental (hoje “Norte”). Por outro lado, não tem mais
sentido a tarefa unificante das humanities,
nos termos de algum paradigma classificatório dos grupos instrumentando a
grande oposição de primitivos e civilizados. Como ocorre no pós-modernismo
estético, nas ciências humanas os estudos estão voltados para horizontes que se
tornaram autônomos, não mais visáveis como redutíveis ao imperativo da
classificação.
Aqui podemos notar
uma grande irredutibilidade entre o pós-estruturalismo e o pós-modernismo. O
primeiro evoluiu ainda dentro da dicotomia de “estrutura” e “função”, tal que
se manteve no campo estrutural e não representou um retorno ao funcionalismo
“humanista”, típico da metade inicial do século XX. Conservou do estruturalismo
o parâmetro redutor das ciências humanas, pretendendo solvê-las na análise
estrutural, da mesma forma como Lacan já havia sido intenção psicanalítica.
Porém, a autonomia das ciências humanas, que voltou a ser importante, nada tem
a ver com retorno ao funcionalismo, que foi além de mais um outro tipo de
tentativa reducionista a um paradigma da totalidade (sistema como “campo”).
Tampouco podemos
situar a importância das ciências humanas atualmente como mais um ramo do
“neo-empirismo lógico” ou “filosofia analítica”, que preconiza a universalidade
dos fenômenos objetivos – posto que assim não haveria realmente autonomia metodológica
do “humano”.
O que ocorreu foi uma
revitalização da área de humanities,
convertida em dois rumos principais, o operacional e o que designaremos
interativo, na acepção que cobre a terminologia atual de “estudos culturais”.
A princípio, devemos
notar que, até o pós-estruturalismo e inclusive nele, estava vigente, de modo
incontestável ,um paradigma saussuriano ou sistêmico da linguagem, que tanto
podia servir à estrutura quanto ao campo, e, se o pós-estruturalismo já
representou esforços visando integrar os investimentos que não mais se deixavam
assim configurar, ele não ultrapassou decisivamente uma metodologia
determinista do inconsciente, apenas porque transitou do linguístico ao
semiótico.
Inversamente, o
pós-modernismo é um cenário em que dicotomias como a foucaultiana de As palavras e as coisas, entre ciências
estruturais e pseudociências humanas, não tem muito como se manter. Por
exemplo, com a sociolinguística já não se pode pensar em termos de uma
sociologia como (pseudo-)ciência puramente humanística por um lado, e uma
linguística como ciência real (estrutural) por outro lado. Nem se mantém de
modo relevante a diferença entre estrutura e função, a partir de que se trata
do estudo da linguagem como uso.
Além disso, houve o
incremento capital da textolinguística, pelo que a linguagem já não se define
mais como unidade mínima em termos de “palavra” ou mesmo de “frase”
(enunciado). A unidade mínima já é definida como texto. Problemas
estruturalistas, como da organização contextual, eram estritamente dependentes,
ainda, da unidade frasal – pelo que se reclamava não ter ainda qualquer teoria
do contexto. Por outro lado, definições funcionalistas redutoras à unidade de
função também não se mantém, a partir da duplicidade de macro e microestruturas
textuais, como níveis de performance pragmática, o primeiro instaurando-se na
abrangência semântica e de endereçamento, e o segundo na abrangência sintática
e de composição estilística.
A unidade do
“significante” não parece ajustar-se a uma teoria linguística textualizada que
atravessa a oposição muito simples de significante e significado ao nível de
“signo” (palavra).
O ponto de vista
operacional em humanities foi uma
assunção de que a pesquisa empírica, no entanto orientada pela premissa do
fenômeno coerente com a linguagem local que o concretiza referencialmente, é a
principal utilidade dessas ciências. Especialmente em sociologia, o que passou
a se designar ciência aplicada, como tarefa de produzir grandes teorias
explicativas, se minimizou pela série de problemas ligados ao etnocentrismo,
que visamos acima.
Além do que, se
chegou a uma concepção de “complexidade” como nível de interdependência dos
fenômenos sociais/humanos, tal que, em vez desse nível dever ser o que a
ciência tem de explicar, ele é conceituado como impossível ao conceito.
O operacional é assim
apenas a apresentação dos fatos reais que subjazem a um fenômeno, por exemplo,
com relação às taxas de crime como fenômeno da patologia social a pesquisa pode
fornecer os fatos relativos às hipóteses não das causas, mas das correlações
(quem pratica, em que condições, etc.). Desfizeram-se várias concepções antes
generalizadas, mostrando que não há correlação real entre pobreza, favelamento,
etnia ou condições familiares e crime. Portanto o operacional não tem como,
além disso, decidir do uso das informações em termos de políticas
governamentais. É, porém, bastante sintomático que países cuja política está
dominada pela dependência imperialista não forneçam pesquisa
empírico-operacional em sociologia, mas persistam em “traduzir” a problemática
local em categorias produzidas pela sociologia dos países centrais e até mesmo
persistindo nas “grandes teorias” sócio-evolucionistas.
A perspectiva que
transforma as ciências humanas em áreas de “estudos culturais”, como da
produção de cultura propriamente dita ou estudos étnicos, estudos feministas,
estudos da problemática da subalternidade, do mundo do trabalho etc., é a que
mais estreitamente está relacionada ao conceito de “pós-moderno”. Nesta
acepção, os horizontes de pesquisa não visam à determinação de uma “identidade”
definitiva, prescritiva ou meramente dogmático-descritiva, do status fenomênico
que estuda. Está, inversamente, em interação com a heterogeneidade de
situações, pessoas, componentes históricos e político-discursivos, de modo que
a problematização situada é o que se torna importante auto-explicitar, na
medida do possível.
As ciências políticas
e a antropologia social mudaram em muito as concepções antes vigentes, que
também os pós-estruturalistas expressaram. O multiculturalismo implica estudar
as sociedades e, sobretudo, a antiguidade, não como totalidades homogêneas, mas
como heterogeneidades. Enquanto contextos de grupos e conflitos situados, as
sociedades estão, além do mais, em intercomunicação umas com as outras, num
entorno antropológico específico, e assim as questões de “origem” de
instituições e descobertas não são mais relevantes como proveniência única a
identificar, mas formam uma complexidade de interação de temas e problemas do entorno.
Por outro lado, não
se minimiza a especificidade de uma formação social autônoma, heterogênea, como
sua linguagem cultural, todavia, por essa heterogeneidade mesma, não se tem
como definir uma “identidade” criadora única. Por isso é importante notar que o
multiculturalismo não é um culturalismo disfarçado, lembrando que culturalismo
é o funcionalismo da metade inicial do século XX, que definia sociedades
primitivas como totalidades absolutamente homogêneas, fechadas e identitárias;
por outro lado, a civilização (ocidente/capitalismo) sendo também um contexto
fechado de evolução e economia definível,l além da interação com os outros
povos e o colonialismo/imperialismo.
Um contexto
pós-moderno das humanities se
endereça como apreensão de que não há sanidade social restrita, que fenômenos
como problemática ecológica, racismo e sexismo, não podem permanecer como
secundários ao que se definiria como “política real”, visando o mundo do
trabalho ou “progresso” técno-científico. Não há sanidade política enquanto se
mantêm, por outro lado, índices de sofrimento humano e injustiça social
inerentes à própria estruturação das instituições sociais.
A luta contra o
racismo, por exemplo, não é algo impulsionado necessariamente pelo temor da
diferença não conceituada, mas, sim, mais pela percepção de que as instituições
se entretecem como uma linguagem social tal que não se podem manter práticas de
sentido fascistas-segregacionistas, ao mesmo tempo em que se expressa em um
meio designado democrático. Se queremos um ambiente socialmente saudável, ele
depende da eliminação dos preconceitos como dos segregacionismos, mais
geralmente, de tudo o que não se coaduna com a concepção de cidadania, como
aquilo que inere a toda a população.
Estes, como se pode
notar, são roteiros não redutíveis ao pós-estruturalismo, assim como também não
foi naquele âmbito que coalesceu um dos polos mais importantes da crítica
social atual. Enquanto o pós-estruturalismo concentrou sua vertente crítica nas
ciências, e erroneamente confundiu o Estado com o despotismo, o pós-moderno
apreende a dominação cultural muito mais pelo viés da comunicação de massas,
além de que o neoliberalismo econômico tem provado que o despotismo não é a
restrição do Estado contemporâneo, mas o correlato do imperialismo
(capitalismo) corruptor das instituições ao Norte como ao Sul.
Como estudos têm
provado, a exemplo de David Halberstam (The
powers that be) e Claude Julien (L’empire
americaine), entre vários outros, o problema da mídia não é o gosto do
público, mas a ingerência do capital que domina o mercado, impondo mensagens e
produções ao arbítrio das instâncias de produção não controladas por qualquer
meio estatal e social. Estas não são instâncias determinadas pelo “Saber”
(ciência). A isso a nova indústria micro-informática só agrava, configurando-se
dessa maneira os referencias de hoje em termos da problemática social.
Se há um conceito de
pós-moderno, é então na medida em que por modernidade nós podemos definir um
contexto que já não apreendemos como atual: do sócio-evolucionismo
desenvolvimentista, do conceito de ciência como determinante do social, do
culturalismo ou estrutura homogênea de discurso, e de um determinante único
como paradigma do inconsciente.
Isso não implica que
na pós-modernidade toda interlocução com o passado da cultura tenha se tenha
votado à inutilidade. Pelo contrário, o “modernismo”, como Otávio Paz sublinhou
com brilhantismo, foi um cenário de “revolução permanente” em função de
novidades teóricas que assomavam como novas programáticas concebíveis, enquanto
há um pós-modernismo precisamente a partir do momento em que esse cenário se
deixa neutralizar por uma consciência da importância histórica das teorias e
práticas culturais.
Muitas opções ainda
vigentes hoje se devem ao trânsito do funcionalismo, estruturalismo e
pós-estruturalismo, ou seja, da “modernidade”. E mesmo que a nosso ver o
pós-moderno seja um cenário definível, porque já conhecemos rupturas
irreversíveis, não mais supondo que “pós-modernidade” expresse apenas ambígua
dependência ao que enuncia superar, entendemos a necessidade da apreensão das
mudanças históricas, se o que desejamos é conceituar as forças que convergiram
na situação atual até em termos da crítica social, em controvérsia com a qual
nós situamos a nossa atualidade.
Leituras selecionadas relacionadas
ao Anexo:
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